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Oliveiros Marques

Sociólogo pela Universidade de Brasília, onde também cursou disciplinas do mestrado em Sociologia Política. Atuou por 18 anos como assessor junto ao Congresso Nacional. Publicitário e associado ao Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (CAMP), realizou dezenas de campanhas no Brasil para prefeituras, governos estaduais, Senado e casas legislativas

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O que a derrota estrondosa da extrema-direita em Portugal pode nos ensinar

A derrota da extrema-direita em Portugal não encerra o ciclo de radicalismos no mundo, mas pode representar o início de um novo momento político

António José Seguro (Foto: REUTERS/Rodrigo Antunes)

A eleição presidencial em Portugal produziu um resultado inequívoco: a extrema-direita sofreu uma derrota acachapante. Com 66,7% dos votos válidos, o candidato de esquerda, apoiado por forças de centro no segundo turno, venceu com ampla margem o candidato extremista André Ventura, do partido Chega. Não se trata apenas de uma vitória eleitoral. É um recado político claro.

A consagração de António José Seguro representa mais do que a alternância no comando do país. Ela sinaliza que, diante da polarização e do avanço de discursos extremistas na Europa, o eleitorado português optou por reafirmar valores democráticos e estabilidade institucional. Ao declarar que o compromisso do povo português com “a liberdade e a democracia” o deixava comovido e orgulhoso, Seguro deu o tom simbólico do momento.

Do outro lado, André Ventura, líder do Chega, reconheceu a derrota. Ainda que tenha tentado enquadrar o resultado como parte de uma trajetória de crescimento político, os números falam por si: a maioria expressiva rejeitou o projeto de radicalização.

O dado mais relevante talvez não esteja apenas na diferença percentual, mas na composição da vitória. O apoio de partidos de centro ao candidato de esquerda no segundo turno foi decisivo. Esse movimento indica que, quando confrontadas com a possibilidade concreta de avanço da extrema-direita, forças democráticas tendem a se reorganizar em defesa de consensos mínimos. Portugal mostrou que a união em torno da institucionalidade pode ser mais forte do que a sedução do extremismo.

É cedo para falar em tendência global consolidada, mas o resultado pode indicar uma mudança de ventos na política ocidental. Depois de anos marcados por ondas nacionalistas e retórica de confronto, começa a ganhar força uma reação pragmática do eleitorado. A experiência concreta de governos marcados por instabilidade, tensão permanente e conflitos institucionais parece ter produzido cansaço. Democracias que amadurecem, como a portuguesa, demonstram que há limites para a radicalização.

Esses ventos podem soprar além do Atlântico. Nos Estados Unidos, as eleições de meio de mandato tendem a funcionar como termômetro político. Se a sinalização portuguesa for parte de um movimento mais amplo, o campo alinhado ao trumpismo pode enfrentar dificuldades crescentes. A fadiga com discursos de ruptura e a busca por estabilidade institucional podem enfraquecer candidaturas associadas ao extremismo na próxima disputa presidencial.

No Brasil, onde a polarização ainda é presente, o resultado português também oferece lições. A sociedade brasileira viveu recentemente tensões institucionais profundas. A memória desses episódios ainda é recente. Se a tendência global for de rejeição aos extremos, outubro poderá refletir esse mesmo desejo por previsibilidade e estabilidade. A segurança em relação ao futuro se imporá como pauta.

Para o campo lulista, a mensagem, contudo, é clara: não basta confiar na maré favorável; é preciso ajustar as velas. Isso significa ampliar diálogo com setores moderados, consolidar alianças e colocar luz sobre os resultados concretos na vida das pessoas que o governo vem entregando.

A derrota da extrema-direita em Portugal não encerra o ciclo de radicalismos no mundo, mas pode representar o início de um novo momento político. Quando o eleitor escolhe estabilidade em vez de aventura, envia um sinal poderoso. Resta saber quais lideranças saberão interpretar o vento - e ajustar suas velas para singrar os mares eleitorais na direção certa.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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