Verônica Lima avatar

Verônica Lima

Deputada estadual pelo Rio de Janeiro, eleita em 2022 com 55.738 votos, e atualmente exerce seu primeiro mandato na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ), onde preside a Comissão Permanente de Cultura.

18 artigos

HOME > blog

O que acontece quando os melhores jogadores do mundo são jovens negros?

Quanto mais um jogador negro alcança protagonismo, reconhecimento e excelência, mais se torna alvo de violência racial

Vinicius Júnior (Foto: Reuters)
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

Na noite de ontem, Vinicius Júnior foi, mais uma vez, o grande nome da Seleção Brasileira. Acumulou mais uma atuação decisiva, bateu novos recordes e reafirmou aquilo que o mundo inteiro já sabe: é um dos maiores jogadores do planeta. Ainda assim, segue sendo um dos principais alvos de ataques racistas no futebol mundial.

Ele não está sozinho.

Lamine Yamal, que sequer completou 18 anos, tornou-se o jogador que mais recebe ataques racistas nas redes sociais da Espanha. Kylian Mbappé, há anos entre os maiores nomes do futebol mundial, também convive diariamente com insultos racistas direcionados à sua imagem. Três jovens. Três dos maiores jogadores do planeta. Três negros. E os três marcados pela mesma violência.

Os dados do Observatório Espanhol do Racismo e da Xenofobia mostram que cerca de 60% das ofensas identificadas nas redes tinham como alvo Lamine Yamal. Logo atrás aparecem Vinicius Júnior, Mbappé e outros atletas negros que hoje ocupam o centro do futebol mundial.

Durante muito tempo, acreditou-se que campanhas educativas, faixas nas arquibancadas e manifestações antes das partidas seriam suficientes para enfrentar o racismo. Mas o futebol mudou. A violência também. Ela saiu dos estádios e encontrou nas redes sociais um ambiente permanente para se reproduzir. O anonimato ampliou o alcance do preconceito e permitiu que o ataque acompanhasse esses atletas para além dos noventa minutos.

Seria confortável tratar tudo isso como casos isolados. Não são.

Existe um padrão evidente. Quanto mais um jogador negro alcança protagonismo, reconhecimento e excelência, mais se torna alvo de violência racial. O racismo procura uma brecha para desumanizar. Busca lembrar, o tempo todo, que aquele espaço não lhes pertenceria.

Mas quem pode afirmar que o futebol não é lugar de pessoas negras?

Se olharmos para a história do esporte, veremos justamente o contrário. Pelé, Garrincha, Didi, Jairzinho, Romário, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Júnior e tantos outros não apenas participaram da história do futebol. Eles reinventaram a forma de jogar e ajudaram a construir aquilo que hoje entendemos como a identidade do futebol brasileiro. Agora, uma nova geração: Vinicius Júnior, Lamine Yamal, Mbappé, Rayan, Endrick e tantos outros continuam escrevendo essa história.

O problema nunca foi pertencimento. O problema é que, para o racismo, ainda é insuportável ver homens negros ocupando o topo.

Esses jovens inspiram milhões de crianças ao redor do mundo. Mas inspiram apesar do racismo. Inspiram porque mostram talento, inteligência, criatividade e excelência. Mas nenhum atleta deveria precisar conviver diariamente com insultos para exercer a profissão que escolheu.

Eles não precisam ser reconhecidos apenas pelo que fazem dentro de campo. Precisam ser reconhecidos pelo que fazem, pelo que conquistam, pelo que representam e nunca reduzidos à cor da própria pele. É exatamente isso que o racismo tenta fazer: apagar trajetórias, diminuir conquistas e transformar a identidade negra em justificativa para o ataque.

Enquanto isso continuar acontecendo, cada gol de Vinicius Júnior, cada drible de Lamine Yamal e cada conquista de Mbappé continuarão dizendo algo que incomoda muita gente: o futebol sempre foi, e continuará sendo, um espaço profundamente marcado pela genialidade de atletas negros. E talvez seja justamente isso que o racismo jamais consiga aceitar.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados