Oliveiros Marques avatar

Oliveiros Marques

Sociólogo pela Universidade de Brasília, onde também cursou disciplinas do mestrado em Sociologia Política. Atuou por 18 anos como assessor junto ao Congresso Nacional. Publicitário e associado ao Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (CAMP), realizou dezenas de campanhas no Brasil para prefeituras, governos estaduais, Senado e casas legislativas

269 artigos

HOME > blog

O que “Sicário” tem a falar?

Se ele falasse, quem precisaria se explicar?

Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, apontado pela PF como "sicário" de Daniel Vorcaro (Foto: Divulgação)

A morte de um homem preso sempre levanta perguntas. Quando esse homem é conhecido no submundo como “Sicário” - e quando, segundo investigações e relatos da imprensa, ele atuaria como uma espécie de operador ou miliciano a serviço de interesses ligados ao banqueiro Daniel Vorcaro - as perguntas deixam de ser apenas humanas. Tornam-se políticas, financeiras e institucionais.

A suposta tentativa de suicídio dentro de uma unidade da Polícia Federal em Belo Horizonte não encerraria uma história. Pelo contrário: abriria um vazio de respostas. Afinal, o que “Sicário” sabia? E, sobretudo, quem poderia ser alvejado pelas suas palavras caso resolvesse disparar palavras?

O escândalo que envolve o Banco Master tem se revelado, pouco a pouco, como um daqueles enredos típicos da interseção entre poder financeiro, política e influência institucional. Não se trata apenas de um banco que experimentou uma expansão acelerada, mas de um conglomerado que cresceu em meio a relações controversas, proximidades com figuras do poder e uma série de episódios que hoje começam a chamar atenção de investigadores e da opinião pública.

Nesse contexto, “Sicário” aparece como um personagem de bastidores - alguém que, segundo as apurações da PF, executaria tarefas que não poderiam aparecer nos relatórios corporativos nem nos registros formais das instituições. Homens assim costumam saber muito. Demais.

A pergunta inevitável é: ele sabe o quê?

Nos últimos meses surgiram relatos sobre festas luxuosas a la Epstein, relações políticas e voos privados envolvendo personagens do universo financeiro e figuras da política nacional, especialmente de personagens das relações do governo de Jair Bolsonaro. E Daniel Vorcaro é um nome que circula em investigações e reportagens que buscam entender como certas redes de influência se consolidaram naquele período. Sicário talvez contribua para o País entender o enredo desse escândalo. Mas está brigando agora contra a morte, depois de pelas informações ter tentado tirar sua vida.

Enredo que deixa impossível ignorar também o papel das instituições de regulação. O Banco Master teve autorização para operar e expandir suas atividades sob a supervisão do Banco Central, durante a gestão de Roberto Campos Neto. Críticos apontam que o crescimento da instituição ocorreu sob uma atmosfera de tolerância regulatória que, no mínimo, merece explicações mais detalhadas. Hoje sabe-se haviam pagamentos mensais a operadores internos no BACEN.

Não se trata de afirmar culpa ou estabelecer sentenças antecipadas. Trata-se de perguntar como um banco relativamente pequeno conseguiu ganhar musculatura e projeção em tão pouco tempo, acumulando conexões políticas e financeiras relevantes.

Quando personagens periféricos desse sistema começam a cair - ou desaparecem de forma repentina - a história costuma ficar ainda mais nebulosa. Em muitas tramas reais de poder, os operadores são os que carregam os segredos mais perigosos.

Se “Sicário” realmente tentou tirar a própria vida, isso não elimina as perguntas que ele pode responder caso a possível tentativa na logre êxito . Pelo contrário: aumenta o peso delas. Porque, no fim das contas, a questão central permanece no ar: se ele falasse, quem precisaria se explicar?

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados