O sequestro do diesel
Quando os incentivos do setor petrolífero colidem com o interesse nacional é sinal de alerta
O Estreito de Ormuz parece distante, mas seus efeitos já chegaram às bombas brasileiras. Com a recente elevação do prêmio de risco sobre o petróleo no Oriente Médio, o Brasil volta a enfrentar uma vulnerabilidade conhecida e sistematicamente negligenciada: a dependência estrutural do diesel. Não se trata de um detalhe técnico. É o elo central da logística nacional — aquele que conecta o campo à cidade, a produção ao consumo, o frete ao preço dos alimentos.
A leitura mais comum busca conforto em mecanismos emergenciais. Programas de subvenção, ajustes pontuais de preço, apelos à moderação do mercado. A recusa de grandes distribuidoras em aderir ao programa de amortecimento do governo federal e a resistência fiscal dos estados expõem o limite desse modelo. Não estamos diante de um erro pontual ou de falhas de coordenação circunstanciais. O que se revela é algo mais profundo: um sistema de incentivos em que a volatilidade é sistematicamente repassada, e não absorvida.
Em um setor altamente concentrado, essa dinâmica não é exceção. Tem sido a regra. Diante de choques externos, o comportamento racional dos agentes é proteger margens e evitar risco. O problema é que, quando todos fazem isso ao mesmo tempo, o custo é transferido para o restante da economia. O resultado aparece rapidamente: pressão sobre o transporte, encarecimento dos alimentos, aceleração inflacionária. O diesel, nesse contexto, deixa de ser apenas um insumo e passa a ser um vetor de instabilidade macroeconômica.
A hesitação dos estados segue lógica semelhante. Mais do que uma simples “miopia arrecadatória”, a conduta reflete o problema estrutural do nosso pacto federativo. Sem um mecanismo capaz de distribuir o custo da estabilização, cada ente age de forma defensiva, preservando sua base fiscal. Mas o efeito agregado é a paralisia. O sistema perde a capacidade de resposta justamente no momento em que se torna mais necessária.
Recentemente, a revista The Economist sugeriu que o Brasil dispõe de uma “arma secreta” contra choques de petróleo: a ampla base de biocombustíveis. O diagnóstico tem fundamento, mas corre o risco de se transformar em uma ilusão confortável. Apostar nos biocombustíveis como estão hoje — sem escala para o transporte pesado, sem infraestrutura logística compatível e sem coordenação tecnológica — é assumir que o sistema ainda opera sob parâmetros de previsibilidade que já não existem.
O problema não é apenas de direção estratégica, mas o tempo e a forma. A transição energética brasileira é real e relevante, mas não resolve o choque imediato do diesel. Mesmo em cenários de arrefecimento do conflito, seus efeitos econômicos tendem a persistir por um período prolongado.
Confundir o potencial de longo prazo da nossa produção de biocombustíveis com a capacidade de resposta do país no curto prazo é um erro que pode custar caro. É a diferença entre ter uma alternativa em construção e possuir uma solução operacional. A verdade é que não há solução de curto prazo para uma vulnerabilidade estrutural.
O mercado de energia passou a operar sob um regime permanente de incerteza. A volatilidade deixou de ser episódica para se tornar estrutural. O prêmio de risco geopolítico foi incorporado aos preços e, por conta disso, há pressões persistentes sobre o câmbio e os custos logísticos globais. Apostar em uma normalização rápida é, no mínimo, um exercício de otimismo descolado da realidade.
Nesse contexto, programas de subvenção e o otimismo em torno da matriz renovável funcionam como amortecedores de curto prazo, incapazes de alterar a estrutura do problema. A matriz brasileira é robusta e, sob vários aspectos, exemplar. Mas ela não neutraliza o choque específico do diesel, que continua sendo o elo mais sensível — e mais exposto — da economia nacional.
O ponto de inflexão, portanto, não está no preço, mas na estrutura. Reduzir a exposição ao diesel deixou de ser uma agenda setorial para se tornar uma questão de estabilidade econômica. Trata-se, em última instância, de uma questão de estabilidade social. Em um país marcado por elevada desigualdade, em que o custo do frete rapidamente se traduz em pressão sobre alimentos, essa vulnerabilidade ganha dimensão ainda mais crítica.
Então, é hora de começar a olhar para a nossa dependência do diesel com o espanto que precisamos ter diante do novo choque do petróleo. E isso exige tratar alternativas como biometano, HVO e retrofit de frotas pesadas não mais como políticas ambientais ou nichos tecnológicos, mas como instrumentos centrais de mitigação de risco sistêmico.
O Brasil não parte do zero. Dispõe de uma base agroenergética robusta, de escala de mercado e de capacidade industrial. O que falta não é diagnóstico. O que falta é coordenação em nível central. Sem um eixo claro que alinhe política energética, inovação e financiamento, o país continuará operando de forma reativa, sempre correndo atrás do próximo choque.
A escolha, portanto, não é entre Estado e mercado. É entre manter um sistema que distribui choques — socializando perdas e privatizando ganhos — ou construir um arranjo capaz de absorvê-los, reduzindo a vulnerabilidade estrutural da economia.
Ainda paira a ilusão de que existe uma “arma secreta” capaz de resolver o problema sem custo político ou econômico. Não existe. O que existe é uma transição necessária, complexa e inadiável. E, sobretudo, a constatação de que o ambiente de previsibilidade que sustentava as decisões do passado deixou de existir.
Dorothy estava certa: não estamos mais no Kansas. E quem insiste em agir como se estivéssemos corre o risco de descobrir tarde demais que o mapa mudou — e que o país ficou parado no caminho.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



