Alta dos fertilizantes não pressiona alimentos no curto prazo
Disparada dos fertilizantes com conflitos globais ainda não afeta preços dos alimentos, mas pode pressionar produção e inflação no médio prazo
247 - A recente alta nos preços dos fertilizantes no mercado internacional ainda não chegou ao bolso do consumidor brasileiro, principalmente porque grande parte das lavouras já foi colhida ou está em fase final de produção. Culturas como arroz, soja e as primeiras safras de milho e feijão já passaram pela etapa de adubação, o que reduz o impacto imediato nos preços dos alimentos, informa o G1.
O pesquisador da FGV Agro, Felippe Serigati, explica que, nesses casos, o insumo já cumpriu seu papel no ciclo produtivo. “Nesses casos, o fertilizante já saiu do solo”, afirma. O café, cuja colheita começa neste mês, também não sofre influência direta, pois foi plantado no ano passado. Já as segundas safras de milho e feijão igualmente foram semeadas anteriormente.
Apesar da ausência de efeitos imediatos para o consumidor, o cenário preocupa produtores rurais. O Brasil mantém forte dependência externa de fertilizantes, o que aumenta a vulnerabilidade diante de crises internacionais. Segundo André Braz, economista do FGV Ibre, “o Brasil importa hoje cerca de 85% dos fertilizantes que consome, com destaque para ureia, potássio e fosfatos”. Serigati complementa: “O Brasil importa 90% do seu consumo de nitrogênio, 96% do potássio e, do fosfatado, é um pouquinho menos, cerca de 80%”.
O Oriente Médio tem papel estratégico nesse mercado, sendo o quarto maior fornecedor do Brasil e responsável por uma parcela significativa das exportações globais de insumos como ureia e amônia. Isso torna os preços altamente sensíveis a tensões geopolíticas na região.
Impacto nas lavouras e custos de produção
A elevação dos preços dos fertilizantes deve afetar diretamente os custos de produção agrícola, especialmente em culturas intensivas no uso de NPK — combinação de nitrogênio, fósforo e potássio. O milho, por exemplo, está entre os mais vulneráveis por sua dependência de fertilizantes nitrogenados.
Braz alerta para riscos econômicos no curto prazo. “Já há evidências internacionais de risco de prejuízo econômico com o aumento de custos”, afirma. “O milho é uma das culturas mais vulneráveis no curto prazo”, acrescenta.
Dados do Rabobank indicam que, nas três primeiras semanas de conflito internacional recente, o preço da ureia subiu 46%. Em um período mais amplo, desde o início do ano até 20 de março, a alta chega a 76%.
Outras culturas também podem ser impactadas. Arroz e trigo, que demandam grandes volumes de nitrogênio, podem sofrer redução de área plantada diante da pressão de custos. A soja, embora menos dependente desse nutriente, exige aplicação significativa de fósforo e potássio. “O impacto, nesse caso, vem do aumento no custo de reposição dos nutrientes do solo”, destaca Braz.
Já a cana-de-açúcar, que utiliza potássio de forma intensiva, pode enfrentar aumento de custos e queda de produtividade, afetando diretamente a produção de açúcar e etanol.
Por que os alimentos ainda não ficaram mais caros
Especialistas apontam que o efeito dos fertilizantes sobre os preços dos alimentos ocorre de forma gradual. Segundo Serigati, o impacto se dá principalmente por dois caminhos: redução da área plantada e queda de produtividade.
“Com insumos mais caros, produtores podem optar por plantar menos ou reduzir a aplicação de fertilizantes — o que afeta diretamente o volume colhido”, explica.
Mesmo assim, o cenário ainda é incerto. O economista ressalta que o custo dos fertilizantes é apenas um dos fatores que influenciam a inflação dos alimentos. O clima, por exemplo, pode ter peso ainda maior.
“O fator clima, por exemplo, é capaz de ‘botar no bolso o fator fertilizante’”, avalia Serigati. “Se o clima for favorável, uma safra recorde pode baixar os preços finais; se houver secas ou geadas, a oferta cai e os preços sobem, independentemente de outros custos”.
Ele cita como exemplo a safra de verão de 2022, que foi plantada sob forte pressão de custos devido à Guerra na Ucrânia. Mesmo assim, condições climáticas favoráveis permitiram uma produção recorde em 2023, contribuindo para a desaceleração da inflação de alimentos.
Atualmente, outro fator tem maior peso imediato sobre os preços: o combustível. “O diesel tem um impacto muito mais direto e imediato no bolso do consumidor do que o fertilizante”, afirma Serigati. “Ele afeta tanto o uso de maquinário agrícola quanto toda a cadeia de transporte e distribuição rodoviária no Brasil”.


