'Não vamos permitir que o preço da guerra chegue ao bolso do caminhoneiro e da dona de casa', afirma Lula
Presidente anunciou fiscalização reforçada para quem aumentar preços dos combustíveis indevidamente em meio à guerra dos EUA contra o Irã
247 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) concedeu entrevista à TV Record Bahia nesta quinta-feira (2), em Salvador, e prometeu agir com firmeza para proteger o poder de compra dos brasileiros diante da escalada de preços provocada pela guerra no Oriente Médio. O governo federal anunciou um conjunto de medidas que inclui fiscalização intensificada e a atuação da Polícia Federal contra distribuidoras que repassam ilegalmente os efeitos do conflito ao consumidor final. "Nós não vamos permitir que o preço internacional chegue ao bolso do caminhoneiro, chegue ao bolso da dona de casa", declarou o presidente.
Lula foi enfático ao detalhar as ações em curso. "Nós estamos fazendo todo o esforço possível para não permitir que a guerra irresponsável do Irã chegue ao bolso do povo que vai comprar alface, feijão, arroz, milho, que vai comprar a comida do seu filho", afirmou.
O presidente acrescentou: "Nós estamos tomando muitas medidas. Estamos com um processo de fiscalização muito sério no Brasil. Nós estamos tentando colocar a Polícia Federal para pegar quem for necessário, a Polícia Rodoviária Federal, para investigar redistribuidoras, porque tem muita gente ganhando dinheiro, roubando o povo. Porque não tinham o direito de ter aumentado, estão aumentando, e nós estamos atrás. O que eu posso te garantir é que nós faremos tudo o que estiver ao alcance do país para não permitir que a guerra do Irã chegue ao prato de comida do povo brasileiro e muito menos chegue ao tanque de combustível do caminhoneiro, que já tem dificuldade com o seu frete."
A guerra eclodiu em 28 de fevereiro, quando os Estados Unidos lançaram ataques contra o Irã sob a alegação de que Teerã desenvolvia armamento nuclear. A Organização das Nações Unidas contestou a justificativa americana, declarando não existir provas concretas de que o governo iraniano tenha produzido bombas nucleares. Uma das consequências imediatas do conflito foi o fechamento do Estreito de Ormuz, passagem que liga o Golfo Pérsico ao restante do mundo e ocupa posição central no sistema energético global. O preço do barril de petróleo ficou acima dos US$ 100 após o começo do conflito.
Na passagem transitava, antes da guerra, cerca de um quinto do petróleo comercializado no planeta, além de uma quinta parte dos embarques de gás natural liquefeito e um terço do fertilizante mais utilizado no mundo. Com a passagem interditada, grandes produtores da Opep — entre eles Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Iraque e Kuwait — viram suas exportações represadas, perdendo acesso às rotas que abastecem mercados na Ásia, Europa e Américas.
Bolsa Família
Indagado sobre o Bolsa Família, Lula revelou sua visão de longo prazo para o programa. "O sonho que eu tenho é que um dia o povo esteja tão bem de vida que não precise mais do Bolsa Família. Esse é o objetivo. É uma política de inclusão social para favorecer as pessoas mais carentes, mas eu trabalho com a ideia de que um dia a economia estará tão bem, estaremos gerando tantos empregos, o salário estará tão bem, que ninguém precise mais do Bolsa Família. Não é nós que vamos tirar as pessoas, porque nós não vamos tirar. São as pessoas que pedirão para sair, porque, como o povo pobre e trabalhador é honesto, a hora que ele tiver dinheiro, ele não vai precisar mais de viver de favor do Estado", disse o presidente.
Os dados reforçam esse movimento. Entre janeiro e outubro de 2025, mais de dois milhões de famílias deixaram de receber o benefício, segundo a Secretaria Nacional de Renda de Cidadania. Das 2.069.776 famílias desligadas, 1.318.214 saíram pelo aumento dos ganhos domiciliares, 24.763 fizeram o desligamento voluntário e 726.799 concluíram o período na Regra de Proteção — mecanismo que permite ao beneficiário receber metade do valor do Bolsa Família por até 12 meses após superar o limite de renda. Em outubro de 2025, o programa atendeu 18,9 milhões de famílias, o menor patamar desde o início do terceiro mandato de Lula.
Inflação
Lula também destacou os avanços no controle da inflação e na renda do trabalhador. "Nós estamos hoje vivendo a menor inflação acumulada em quatro anos na história do Brasil. Os preços dos alimentos tiveram mais caro em 2024, tiveram mais caro até metade em 2025, mas hoje a inflação de alimentos está baixa. As coisas estão melhorando e eu espero que continue baixando, porque nós precisamos baixar a taxa de juros e baixar o preço da comida para o povo poder comer mais, para poder comprar mais e comprar alimentos de melhor qualidade. Eu não quero que o povo fique comprando coisa de segunda. Quero que o povo compre coisa de primeira", afirmou.
O presidente citou o programa Gás do Povo como exemplo de política complementar à elevação de renda. "Para a gente fazer as coisas acontecerem, uma coisa que podemos fazer é aumentar o salário. Quando você não pode aumentar o salário, você pode aumentar os benefícios. Por exemplo, o Gás do Povo. Nós estamos dando gás gratuito para 15 milhões de famílias nesse país", disse Lula.
Educação
Na área de educação, Lula apresentou um conjunto de avanços obtidos a partir de 2023. Sobre a alfabetização na idade certa, o presidente destacou que o governo firmou um pacto com prefeitos e governadores para atingir 80% das crianças alfabetizadas até o segundo ano do ensino fundamental até 2030. "Em um ano e meio, nós já chegamos a 66%. Portanto, nós estamos perto de concluir a meta", disse Lula, acrescentando que 5.565 municípios — 99,9% do total — aderiram ao Compromisso Nacional Criança Alfabetizada.
O presidente também destacou as 8,8 milhões de matrículas em Escola de Tempo Integral e os 5,6 milhões de jovens do ensino médio já beneficiados pelo programa Pé-de-Meia, iniciativa de poupança educacional voltada à permanência e conclusão escolar. "Nós temos o melhor momento de escola integral do tempo do Brasil. Ainda falta muito, mas já fizemos muito. Nós temos um processo de modernização de crianças na idade certa andando muito. Vamos chegar a 800 institutos federais nesse país. Nós herdamos 140 e vamos chegar a 800 institutos. Eu estou convencido de que nós estamos fazendo aquilo que é preciso fazer. Não há exemplo no mundo de nenhum país que deu um salto de qualidade sem antes fazer investimento em educação", concluiu o presidente.
Energia
Lula encerrou a entrevista falando sobre a matriz energética brasileira e o papel do país como referência global em energia renovável. "Se tem uma coisa que a gente tem perspectiva de ter de sobra, é a chamada energia renovável, seja eólica, seja solar, seja biomassa, seja do hidrogênio verde. Em 2050, a Europa quer chegar a 40% de energia renovável. Hoje, o nosso país já tem 53% de energia renovável. Ou seja, nós já alcançamos hoje o que eles pretendem alcançar em 2050. E, mais importante, do ponto de vista da energia elétrica, nós temos 87% de energia renovável. Portanto, o Brasil é um modelo, é um exemplo a ser seguido", reforçou Lula.


