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Alex Solnik

Alex Solnik, jornalista, é autor de "O dia em que conheci Brilhante Ustra" (Geração Editorial)

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O talentoso Vorcaro

Ele culpa “concorrentes” e “algumas pessoas” do BC

O talentoso Vorcaro (Foto: Divulgação)

O talentoso Vorcaro  

Ele culpa “concorrentes” e “algumas pessoas” do BC

No interrogatório de três horas que prestou à Polícia Federal, a 30 de dezembro de 2025, o banqueiro Daniel Vorcaro revelou possuir um outro talento além do de como virar bilionário em apenas sete anos; é um extraordinário frasista.

   “Se eu tenho (sic) tantas relações políticas como estão dizendo e se eu tivesse pedido a ajuda desses políticos, eu não estaria com a operação do BRB negada e não estaria aqui de tornozeleira”.

   Ele cometeu um pequeno erro gramatical. Em vez de “se eu tenho”, deveria ter dito “se eu tivesse”. Mas a afirmação é incorreta, em parte. Está em prisão domiciliar, de tornozeleira, mas não está na Papuda.

    A certa altura ele admitiu oferecer dividendos aos clientes muito acima dos do mercado sem se preocupar em ressarci-los, pois os pequenos investimentos, até R$250 mil, estavam garantidos pelo Fundo Garantidor de Crédito do Banco Central:

   “O plano de negócios do Banco Master era 100% baseado no FGC e não havia nada de errado nisso, essa era a regra do jogo. Quando se muda a regra do jogo, a gente precisa se adequar, a gente vai para outros meios de captação e aí inicia-se uma campanha contrária, reputacional, contra o banco, que já foi por várias vezes provado que não é a realidade, pelos mesmos veículos de mídia que são de propriedade de concorrentes”.

    Vamos aos fatos.

    “O Estado de S.Paulo” pertence ao Grupo Estado, que é controlado pela família Mesquita, a principal acionista e detentora do controle do conglomerado, integrado pelo jornal, pela Rádio Eldorado, pela Agência Estado e outras operações de mídia. Em 2024, o grupo captou recursos via dívida e aporte da própria família Mesquita para reforçar o caixa, mas não há indícios de perda de controle por parte da família. Não há evidências confiáveis ou fontes jornalísticas reputadas que indiquem participação acionária relevante ou controle por parte dos bancos Bradesco e Itaú, alegações que circulam em contextos de teorias conspiratórias ou de desinformação, mas não se sustentam em fatos públicos sobre a estrutura societária.

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O Pag Bank do Grupo Folha e

o Banco Inter, da CNN Brasil

não eram seus concorrentes

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   O fundador do Grupo Globo, Roberto Marinho, foi um dos proprietários do Banco ABC Brasil (antigo Banco Roma de Investimentos, nos anos 1980, mas o grupo atual não possui nem controla bancos. O grupo já teve conselheiros com experiência no setor financeiro (como ex-executivos de bancos, o que se enquadra como governança corporativa, não propriedade. Há apenas parcerias comerciais, patrocínios e financiamentos, mas nada que indique ser o Grupo Globo dono de algum banco. 

   O PagBank, fundado em 2006, e a partir de 2019 um banco digital completo, faz parte do Grupo UOL, que é controlado pelo Grupo Folha, o conglomerado de mídia da família Frias. O controlador principal é Luiz Frias, presidente do conselho de administração do Grupo Folha. Listada na bolsa (NYSE), não é 100% de propriedade privada de um único dono. O Grupo UOL/Folha detém o controle acionário majoritário, mas há outros sócios/ investidores no capital aberto. É considerado um player relevante no segmento de fintechs, é um dos maiores bancos digitais do Brasil, competindo com Nubank, Inter, C6 e outros, mas não está entre os cinco maiores bancos tradicionais (Itaú, Banco do Brasil, Bradesco, Caixa e Santander). 

   Rubens Menin, sócio controlador e principal dono da CNN Brasil (chegou a deter 100% em 2021 após compra de cotas) é o fundador e presidente do Conselho de Administração da Inter&Co (holding que controla o Banco Inter, fundado em 1994, digital desde 2017), mas o banco é uma empresa de capital aberto (listada na B3 e na Nasdaq), com vários acionistas, inclusive o SoftBank, que detém uma participação relevante e outros acionistas institucionais minoritários. É um dos maiores bancos digitais do país, mas atrás de gigantes tradicionais como Itaú, Bradesco, BB, Caixa e Santander. 

   O Banco Master, criado em 2018, era uma instituição financeira tradicional e não uma fintech, portanto não concorria com PagBank nem com o Banco Inter. Embora tenha adquirido o Will Bank, uma fintech digital em 2024 (liquidado na semana passada), o Master não era classificado como fintech. Com cerca de R$86,4 bilhões em ativos totais em março de 2025, era um dos maiores bancos médios do país, com tamanho comparável ao BRB, Banrisul, Banco Pan e Banco Daycoval. Sua carteira de depósitos a prazo (como CDBs) era a 11a maior do Brasil em junho de 2024, com R$45,6 bilhões e 800 mil investidores. Daniel Vorcaro era o acionista majoritário, detinha o controle, mas não era o único dono e o banco não tinha ações listadas em bolsas de valores.

   Prosseguindo com o interrogatória na Polícia Federal, a delegada Janaína Palazzo pergunta:

   “O senhor fala muito da questão do Banco Central, da atuação do Banco Central que, de certa forma, o senhor considera que foi prejudicial, a sua atuação, mas, ao mesmo tempo, a gente precisa pontuar aqui a questão de R$12 bilhões em CCBs falsas. O senhor falsificou, o banco do senhor emitiu esses títulos e conseguiu fazer dinheiro com base nessa atuação que é criminosa”.

   Daniel Vorcaro responde:

   “Desculpe, mas não concordo. Esse negócio não foi realizado. E eu não sei quais créditos são bons ou ruins, têm documentos ou não. Eu não tenho como saber que não foi o banco que originou. Então, não existiu ação criminosa minha em nenhum momento, e nem do banco. Se existisse alguma ação criminosa o banco tinha que ter tido alguma vantagem e alguém tinha que ter tido algum prejuízo, o que não aconteceu”.   

   Aí aparece o talento de Vorcaro para mentir. Criminoso algum, de fato, jamais admite ter cometido algum crime. 

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“Algumas pessoas do

Banco Central

falharam muito”

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  Mais adiante, ele nega interferência política na negociação com o BRB, embora não seja normal que um banco tenha cacife para comprar outro do mesmo tamanho:

   “Não teve facilitação política. Eu estive com o governador, sim, algumas vezes, porque ele era um controlador indireto, mas não teve nenhum tipo de questão tratada, nesse caso do BRB, que não fosse técnica”.

   Difícil acreditar que, em reuniões com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, um político, tenham sido tratadas “questões técnicas”.

   A delegada aborda a questão da falta de liquidez:

   “Então o senhor reconhece que havia, de certa forma, uma crise de liquidez na instituição financeira do senhor?”

   “Existia uma crise, não era de hoje, mas o Banco Master sempre foi solvente, sempre teve muito mais ativo que passivo e sempre honrou todos os compromissos até o dia 17 de novembro de 2025”.

   No dia seguinte, o Master foi liquidado e Vorcaro, preso.

   A delegada pergunta se o Banco Central “falhou em seu dever de supervisão prudencial”.

   “Não”, responde ele. “Na verdade, eu acredito que a área de fiscalização presidida pelo senhor Ailton até o momento do dia 17 atuou com a diligência normal. Eu acho que o grande problema é que dentro do Banco Central existiam pessoas que queriam uma solução de mercado e existiam outras pessoas que queriam que acontecesse o que aconteceu e acabaram vencendo. O Banco Central como um todo não falhou, mas eu acho que algumas áreas e algumas pessoas falharam muito, não só comigo mas com o sistema financeiro”. 

   A delegada não pede para ele citar as pessoas que “falharam muito”. Falha da delegada. 

   Ela continua:

   “O senhor confirma que o Banco Master vendeu ao BRB créditos cuja documentação sequer possuía?”

   “Não. Na verdade, a gente fez uma cessão, como várias outras que a gente tinha feito, que ainda careciam de documentação completa”.

   “Mas o senhor cedeu antes de receber a documentação completa?”

   “Correto, sim. Fazia parte do negócio”.

   “Se o senhor fosse presidente do BRB tentaria comprar um banco que já lhe havia vendido, mais de uma vez, carteiras de crédito falsas?”

   “Primeiro, novamente, o banco não vendeu carteiras falsas para o BRB. E, sim, se eu fosse o BRB, compraria. E foi uma pena o negócio ter sido negado. Uma pena para o mercado brasileiro, não só para o BRB. Pela transação que seria feita seria possível ter mais lucro, mais resultado, crescer e acabou não acontecendo. Então, sim, eu faria, sim, esse negócio”.

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“Não consigo nominar aqui

individualmente quem 

frequentava a minha casa”

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A delegada coloca em foco o Dia D.

   “Em 17 de novembro de 2025, entre 13h30 e 14h10, o senhor participou de uma reunião por videoconferência com Ailton de Aquino Santos, diretor de fiscalização do Banco Central. Quem solicitou essa reunião, o senhor ou o Banco Central?”

   “Eu.”

   “Qual foi o assunto tratado?”

   “Foi a continuidade das reuniões que a gente já vinha fazendo e um desfecho de um plano de solução que eu tinha apresentado logo após a negativa da transação com o BRB. Um desfecho que, tecnicamente, seria feliz, com a venda das três instituições, cada uma para um grupo de investidores”.

   “O senhor comunicou ao diretor de fiscalização que viajaria ao exterior no dia seguinte?”

   “Com certeza, não.”

   “O senhor tinha algum pressentimento de que havia um mandado de prisão expedido contra si?”

   “De maneira nenhuma. Nem nos meus piores pesadelos eu achei que poderia”.  

   O governador Ibaneis Rocha e outros políticos entram na linha de tiro.

   “O senhor conversou com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, sobre a proposta de aquisição do Banco Master pelo BRB?”

   “Conversei em algumas oportunidades, sim.”

   “Quantas vezes o senhor se encontrou ou conversou com o governador Ibaneis Rocha entre janeiro de 2024 e novembro de 2025? O governador foi até à sua casa aqui em Brasília?”

   “Já foi à minha casa, se não me engano, uma vez. Eu já fui à casa dele e a gente se encontrou poucas vezes. Conversas institucionais.”

   “Quais os outros políticos, deputados, senadores que o senhor costumava convidar para ir até à sua casa?”

   “Pergunta se eu tenho alguns amigos de todos os poderes. Não consigo nominar aqui individualmente quem frequentava a minha casa. Também não vejo qual a relação com o caso.”

   “A gente está estudando as suas relações políticas. Por isso eu perguntei.”

   “Sim, estudando as relações políticas, mas não tem nada a ver com esse caso específico do BRB.”

   “O senhor conversou com outras autoridades públicas - ministros, políticos, secretários de estado, diretores de órgãos públicos - sobre a aquisição do Banco Master pelo BRB? Caso afirmativo, indique quem, quando e qual foi o teor das conversas.”

   “Além do governador que já mencionei e das autoridades do Banco Central, nenhum.”

   “O senhor ou outra pessoa a seu mando solicitou a intervenção de autoridades políticas junto ao Banco Central do Brasil em favor do Banco Master?”

   “Não.”

   “O senhor conversou com o senhor Ailton Aquino Santos nos cinco dias anteriores à liquidação do Banco Master?”

   “Sim.”

   “Houve alguma interferência política na supervisão do Banco Central?”

   “De forma alguma.”

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“Não consigo me recordar de 

todas as contas que possuo. Eu 

possuo a holding do 

banco nas Ilhas Cayman”

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   “O senhor ou outra pessoa a seu mando solicitou a intervenção de autoridades políticas junto ao BRB para que a aquisição do Banco Master fosse aprovada ou para que as operações de cessão de carteiras continuassem?”

   “Não.”

   “O senhor ou o Banco Master fizeram doações eleitorais, contribuições a partidos políticos ou patrocínios de eventos ligados a autoridades do Distrito Federal entre 2022 e 2025?”

   “Doações eleitorais, nenhuma. A gente patrocinou alguns eventos de discussão institucional do Brasil, que eu não me recordo se tinham autoridades do Distrito Federal.”

   “O BRB transferiu ao Banco Master aproximadamente R$16,7 bilhões entre julho de 2024 e outubro de 2025. Qual foi o destino desses recursos?”

   “Atividades normais do banco, ali de resgate de investidores”.

   “Alguma parcela desses recursos foi utilizada para remunerar pessoalmente o senhor, seus familiares ou empresas a eles vinculadas?”

   “De forma alguma. Ao contrário. Nos últimos seis meses, comprovadamente pelo próprio Banco Central, eu fiz cessão de ativos pessoais, integralizei, aprovado também pelo Banco Central, esses recursos no banco. Então, eu estive na tentativa forte de trazer a solução definitiva para o banco.”

   “Alguma parcela foi transferida para o exterior?”

   “Não, do Banco Master, não”.

   “O senhor possui bens, contas ou investimentos no exterior. Em caso afirmativo, peço que os discrimine.”

   “Eu não consigo me recordar de todas as contas que possuo. Eu possuo a holding do banco, que era a proprietária do banco, nas Ilhas Cayman. E algumas contas correntes. Não me recordo de outra coisa”.

   Daniel Vorcaro tem muitos talentos. Mas não o da memória.   

 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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