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Maria Luiza Falcão Silva

PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England.

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Operação Compliance Zero e o retrato de um poder sem freios

Nesse ambiente, a proximidade entre política e finanças deixa de ser exceção. Passa a ser parte estrutural do modelo

Ciro Nogueira seria 'destinatário central' de vantagens indevidas de Vorcaro, diz PF (Foto: Reprodução)

O Brasil acostumou-se a tratar escândalos financeiros como episódios isolados. Um banco aqui, um operador ali, uma fraude contábil acolá. Mas há momentos em que determinados casos deixam de ser apenas crimes econômicos e passam a revelar algo mais profundo: a própria forma como o poder se organiza.

A chamada Operação Compliance Zero parece caminhar nessa direção.

O nome da operação já carrega uma ironia devastadora. “Compliance” tornou-se, nas últimas décadas, uma das palavras favoritas do capitalismo contemporâneo. Bancos, fundos de investimento, grandes empresas e instituições financeiras passaram a vender a ideia de que sistemas internos de controle seriam suficientes para impedir corrupção, lavagem de dinheiro e fraudes estruturadas.

Na prática, porém, o que frequentemente se viu foi outra coisa: o compliance transformado em linguagem corporativa de autoproteção institucional.

A operação da Polícia Federal expôs justamente esse paradoxo.

As investigações envolvendo o Banco Master, fundos financeiros, operadores de mercado, suspeitas de influência política e possíveis conexões dentro do aparato estatal sugerem que o problema não está apenas em indivíduos desviantes. O problema pode estar na própria lógica de funcionamento de um sistema financeiro que acumulou poder demais, fiscalização de menos e proximidade excessiva com estruturas políticas.

Esse é o ponto central que torna a Compliance Zero tão relevante.

Não se trata apenas de um caso policial. Trata-se de um retrato da financeirização extrema da vida econômica brasileira.

Durante décadas, o Brasil construiu uma economia em que o sistema financeiro passou progressivamente da condição de intermediador para a condição de centro organizador do poder econômico. Bancos, fundos e estruturas financeiras deixaram de apenas financiar a produção. Passaram a influenciar políticas monetárias, decisões fiscais, comportamento cambial e até a própria dinâmica política nacional.

Ao mesmo tempo, criou-se uma blindagem simbólica em torno do setor financeiro.

Empresários industriais podem ser presos. Políticos podem cair. Funcionários públicos podem ser expostos. Mas o universo financeiro frequentemente se apresenta como um espaço técnico, sofisticado, quase inacessível à compreensão pública. É como se operações bilionárias fossem complexas demais para serem questionadas politicamente.

Essa blindagem produziu um efeito perigoso: a naturalização de mecanismos financeiros opacos.

A Operação Compliance Zero rompe parcialmente esse véu.

Quando surgem suspeitas envolvendo créditos sem lastro, fundos utilizados para ocultação de recursos, lavagem de dinheiro e relações políticas de proteção institucional, o que aparece não é apenas um crime eventual. Surge um modelo de acumulação baseado na capacidade de transformar proximidade com o poder em rentabilidade financeira.

Essa opacidade não nasce do nada. Ela é produzida por uma engenharia financeira internacional altamente sofisticada.

Nos últimos anos, diferentes investigações no Brasil passaram a revelar o papel de holdings, offshores, fundos financeiros e empresas registradas em jurisdições de baixa transparência corporativa, como Delaware, nos Estados Unidos. Embora formalmente legais, essas estruturas frequentemente dificultam a identificação dos verdadeiros controladores dos ativos e tornam extremamente complexa a rastreabilidade dos fluxos financeiros.

O setor de combustíveis tornou-se particularmente sensível nesse processo. Trata-se de uma atividade que movimenta volumes gigantescos de recursos, combina tributação complexa, circulação interestadual e operações internacionais, criando um ambiente historicamente vulnerável a fraudes fiscais, ocultação patrimonial e lavagem de dinheiro.

É nesse contexto que operações como Carbono Oculto e outras investigações recentes começam a dialogar com o ambiente revelado pela Compliance Zero. Não necessariamente porque envolvam exatamente os mesmos personagens, mas porque expõem uma mesma lógica estrutural: a transformação crescente da economia em uma rede de intermediações financeiras difíceis de rastrear, onde a fronteira entre legalidade formal, engenharia tributária agressiva e ocultação patrimonial torna-se cada vez mais difusa.

A imagem clássica da corrupção baseada apenas em malas de dinheiro já não descreve plenamente o capitalismo contemporâneo. O poder hoje circula através de fundos, derivativos, holdings, créditos estruturados, empresas em múltiplas jurisdições e cadeias societárias internacionais que tornam a própria arquitetura financeira um instrumento de invisibilização.

E isso ajuda a compreender por que o caso rapidamente ultrapassou a esfera econômica e alcançou o núcleo político brasileiro.

A inclusão de figuras centrais da política nacional no radar das investigações — entre elas o senador Ciro Nogueira — amplia enormemente o alcance institucional da crise. O caso deixa de aparecer apenas como uma disputa envolvendo operadores financeiros e passa a tocar diretamente o sistema de alianças que estrutura o poder em Brasília. Isso é particularmente relevante porque o atual modelo político brasileiro depende crescentemente da intermediação de grandes interesses econômicos, fundos financeiros e redes empresariais capazes de influenciar decisões regulatórias, tributárias e fiscais.

A entrada de figuras centrais do Congresso Nacional no radar das investigações revela algo importante: no capitalismo contemporâneo, especialmente em economias altamente financeirizadas, a fronteira entre poder financeiro e poder político torna-se cada vez mais difusa.

Não é coincidência.

O sistema financeiro moderno depende profundamente do Estado. Depende de regulações, acesso privilegiado, política monetária, proteção institucional, gestão da dívida pública e decisões do Banco Central. A retórica do “mercado independente” muitas vezes esconde uma realidade bastante diferente: a de uma estrutura que necessita permanentemente de influência política.

No caso brasileiro, isso se torna ainda mais delicado porque convivemos historicamente com um dos sistemas de juros mais elevados do planeta.

Taxas elevadas ampliam extraordinariamente o poder do setor financeiro. Transformam a dívida pública em mecanismo permanente de transferência de renda. Estimulam operações especulativas. Fortalecem fundos financeiros. E reduzem o peso relativo da economia produtiva.

Nesse ambiente, a proximidade entre política e finanças deixa de ser exceção. Passa a ser parte estrutural do modelo.

É justamente aí que a Operação Compliance Zero se torna politicamente explosiva. Porque ela emerge num momento em que cresce no Brasil uma sensação difusa de perda de legitimidade institucional. O Congresso enfrenta desgaste crescente. O Judiciário tornou-se alvo permanente de disputas políticas. O Banco Central vive sob pressão pública inédita. E parte da população passou a perceber que há uma enorme distância entre o discurso oficial de austeridade e os mecanismos reais de circulação do poder econômico.

A operação toca exatamente nesse nervo exposto.

Mais do que punir indivíduos, ela levanta uma pergunta desconfortável: até que ponto o sistema político brasileiro tornou-se excessivamente dependente do poder financeiro?

Essa talvez seja a verdadeira dimensão do caso.

Porque o problema não é apenas corrupção. O problema é quando estruturas econômicas passam a adquirir capacidade de captura institucional.

E esse fenômeno não é exclusivamente brasileiro.

Após a crise financeira de 2008, o mundo inteiro passou a discutir os limites da financeirização. Nos Estados Unidos, bancos considerados “grandes demais para quebrar” receberam socorros trilionários. Na Europa, fundos financeiros ampliaram influência sobre políticas fiscais nacionais. Em várias economias periféricas, o capital financeiro passou a exercer poder crescente sobre moedas, juros e políticas públicas.

O Brasil não escapou desse processo. Ao contrário: tornou-se um dos ambientes mais rentáveis do mundo para o capital financeiro.

A Compliance Zero talvez esteja revelando o custo político dessa transformação.

Ainda é cedo para saber até onde as investigações chegarão. Operações desse tipo frequentemente enfrentam bloqueios, disputas internas e pressões políticas enormes. Parte das denúncias pode não se confirmar. Algumas conexões talvez jamais sejam totalmente esclarecidas.

Mas o estrago institucional já começou.

Porque certas operações deixam de ser apenas investigações criminais. Elas se transformam em momentos de revelação histórica.

 A Compliance Zero pode estar mostrando ao país algo que durante muito tempo permaneceu protegido pela linguagem técnica dos mercados: a extraordinária concentração de poder produzida pela financeirização da economia brasileira.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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