Os ex-querdistas estão entre nós
O ressentimento como motor da guinada se torna um elemento psicológico importante
Há anos o campo da esquerda evita um confronto direto com personagens que abandonaram os valores de esquerda e migraram para o campo contrário. O que nós aparentemente não entendemos até hoje é que estas pessoas podem até circular pela esquerda, mas não fazem realmente parte dela. Por vezes nem chegam a se declarar de esquerda, é muito mais um desejo nosso que elas façam parte do nosso lado. No momento que essas pessoas “viram a casaca”, o choque vem porque ninguém quis ver os sinais antes, mas eles estavam evidentes o tempo todo.
E nem quero personificar alguém em especial. Observem e tirem suas próprias conclusões. Estes indivíduos estavam à esquerda por conveniência, não por convicção. Na prática, eles defendiam pautas progressistas, mas viviam valores totalmente contrários, ou seja, mérito individual acima de tudo, ascensão pessoal, status, e claro, o reconhecimento.
O ressentimento como motor da guinada também se torna um elemento psicológico importante. Muitos desses sujeitos não chegaram tão longe quanto achavam que mereciam: perderam espaço, foram criticados por novos movimentos (identitários ou não), deixaram de ser o centro das atenções. E é aqui que a extrema direita (principalmente a neopentecostal brasileira) oferece algo muito sedutor: a absolvição moral, inimigos claros, narrativa simples e uma sensação de protagonismo. É mais valioso um ex-querdista “convertido” do que dez conservadores consistentes.
Na era do diagnóstico de redes sociais, onde problemas mentais são o salvo conduto para eximir qualquer um do erro, deixamos passar um narcisismo ferido, intolerância à perda de status, misoginia, incapacidade de lidar com crítica estrutural. Não adianta dizer que alguém “surtou” ou “está desequilibrado”, isso só serve para evitar o confronto político, manter o mito do intelectual progressista e transferir a culpa para o outro, em vez de assumirmos nossa própria incapacidade de avaliação. Nós, aparentemente, também temos carência de figuras que agreguem em nosso campo.
Outro ponto que merece nossa atenção é que quando uma mulher de esquerda é flagrada em contradição, ela vira um exemplo imediato do que “não pode ser”. Textos, análises, exposições públicas que não visam entender o ocorrido, mas sim disciplinar. Com homens o debate se esvazia bem mais rápido, chega a ser tratado como um caso isolado. Mesmo quando uma mulher se torne uma referência intelectual, ela é atacada em várias esferas que variam desde o questionamento de sua capacidade intelectual até a desqualificação pessoal. Sempre vale lembrar que homofobia, machismo, misoginia, racismo e xenofobia, também existem dentro da própria esquerda e nós também não discutimos sobre isso. Não é apenas um desvio individual, mas uma prática tolerada quando convém. A diferença nem é se elas existem ou não, mas sim quem pode ser protegido do julgamento coletivo.
A parte incômoda para nós, além de não sermos tão autocríticos, é que nós frequentemente fetichizamos esses porta-vozes como símbolos agregadores de conhecimento, confundimos o alinhamento retórico com compromisso e, pior, evitamos críticas internas por medo de racha interno.
Então, que fique claro, falar bem não é ser de esquerda, criticar injustiça não é ser de esquerda, denunciar desigualdade não é ser de esquerda. Ser de esquerda implica em algo mais profundo, implica aceitar limites ao próprio poder e ego. Se a pessoa não está disposta a perder privilégios ou status, a mudança de lado é apenas uma questão de tempo.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



