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Paola Jochimsen

Paola Jochimsen é doutoranda em Filosofia pela Universidade de Coimbra, Mestre em Romanistik pela Albert-Ludwigs-Universität Freiburg (Alemanha). Membro do Coletivo Brasil-Alemanha pela Democracia.

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Para uma América nossa: 135 anos de “Nuestra América” de José Martí

O ensaio de José Martí usa a imagem do “tigre de fora” para falar dos Estados Unidos e de uma dominação que não pede licença

Para uma América nossa: 135 anos de “Nuestra América” de José Martí (Foto: Prensa Latina)

Em 10 de janeiro de 2026, “Nuestra América”, de José Martí, completa 135 anos. O ensaio saiu na Revista Ilustrada de Nueva York em 10 de janeiro de 1891 e, depois, em El Partido Liberal do México em 30 de janeiro de 1891. Este texto instigante não envelheceu como uma peça de arquivo qualquer. Ele continua funcionando como provocação, porque descreve um padrão político que a América Latina ainda repete depois de séculos: pensar com ideias alheias, governar para poucos e só notar o perigo externo quando ele já está instalado.

Martí escreveu para uma América hispânica e, ainda assim, o Brasil entra com naturalidade nessa conversa. Apesar de não falarmos o mesmo idioma, nossa formação é semelhante. Temos uma mesma herança colonial, a mesma desigualdade, o mesmo impulso de parte das elites de se olhar no espelho de fora antes de encarar o próprio rosto. Mudam os nomes, mudam as bandeiras, mas a engrenagem que nos faz funcionar é bem familiar.

O ensaio de Martí começa desmontando uma vaidade que atravessa séculos: a ideia de que o “nosso mundo” é só o nosso bairro, desde que o cargo esteja garantido, o rival seja humilhado e o cofre engorde. Essa caricatura do “aldeão vaidoso” não ficou em 1891. Ela reaparece ainda hoje em versão atualizada. Às vezes é o político que governa para o aplauso do grupo e chama isso de “nação” ou o tecnocrata que fala do país como se fosse um projeto de planilha.

O centro do texto é um recado simples e severo: governar exige conhecimento. Não é “conhecer” como quem decora dados, mas conhecer no sentido de entender de que gente, trabalho e conflitos formam um país. Sem isso, o governo vira uma encenação barata. Não basta apenas copiar o modelo estrangeiro, se no final das contas a realidade interna continua outra.

Martí usa a imagem do “tigre de fora” para falar dos Estados Unidos e de uma dominação que não pede licença. Em 1891, ele enxergava um poder em ascensão e uma região que se fragmenta com facilidade. O tigre continua mais ativo que nunca. Ele está aí há décadas, como presença política e militar. Está aí quando intervém, quando apoia e instala ditaduras, quando ajuda a derrubar governos, quando transforma o continente em zona de influência, quando não respeita a soberania alheia. E está aí quando convém ignorar ou contornar acordos e regras internacionais, como se fossem válidos apenas para os outros. Isso não ficou no passado. A forma muda, mas o padrão se repete: dependência econômica, sanções como política externa permanente e o controle de uma infraestrutura digital e informacional concentrados fora da região.

O que Martí escrevia para o nosso continente no passado, hoje se projeta também para fora dele. O ponto não é demonizar o estrangeiro, pois a cooperação entre países existe e pode ser virtuosa. O problema, que Martí identificou com precisão, é a submissão mental e institucional. Quando a gente internaliza que o que vem de fora é automaticamente “melhor”, a conversa termina antes mesmo de começar. E quando isso vira um hábito, é como se nós entregássemos o volante do nosso carro nas mãos do outro e ainda agradecemos a carona.

O Brasil conhece bem esse roteiro. Há uma tentação antiga de viver entre duas fantasias: ser “quase Europa” ou ser “quase Estados Unidos”. Em ambas, o país real atrapalha. O povo, o território e a desigualdade viram detalhes incômodos. Martí, ao insistir numa América feita de mistura e de conflito, está lembrando que a região não é o que a elite gostaria de apresentar num folheto.

Mas não existe só o “tigre de fora” como se a culpa fosse sempre externa, como se fôssemos vítimas passivas de um jogo inevitável. Só que o “tigre de fora” entra melhor quando alguém de dentro abre a porta. A dependência não é apenas imposta, ela também é negociada. Ela se alimenta da desigualdade que aceita ser permanente, do racismo que se disfarça de “mérito”, do privilégio que se chama de “ordem”, do autoritarismo que se vende como “solução”. Esse é o nosso tigre doméstico, e ele trabalha em silêncio, com terno, com sobrenome e com boa rede de contatos.

Por isso “Nuestra América” permanece tão atual. Ele nos obriga a perguntar de maneira incômoda: por que é tão sedutor copiar, mesmo quando dá errado? Copiar dá menos trabalho, dá menos conflito e preserva hierarquias. Ao contrário de construir, que exige escolhas, escolhas que mexem com interesses. E há sempre alguém que perde quando a maioria ganha voz. Martí não nos deixou uma fórmula mágica. Ele nos deixou um texto incômodo, e talvez seja exatamente isso que o faz durar até hoje. “Nuestra América” não nos conforta. Ele nos obriga a pensar. E o simples ato de pensar, na nossa região, ainda é o primeiro ato de resistência.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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