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Leopoldo Vieira

Jornalista profissional, pós-graduado em Administração Pública e Ciência Política. CEO da Idealpolitik. Trabalhou como analista sênior de política na Faria Lima (TradersClub) e nos ministérios do Planejamento, Secretaria de Governo e Relações Institucionais nos governos Dilma Rousseff e Lula.

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Pesquisa evidencia resiliência de Lula, que deve manter “química” com Trump

Nesse quadrante histórico delicado, o presidente demonstra capacidade de sustentar a disputa no terreno narrativo

Lula e Trump se reúnem na Malásia 26/10/2025 REUTERS/Evelyn Hockstein (Foto: REUTERS/Evelyn Hockstein)

A nova pesquisa Genial/Quaest, que revelou empate de 41% a 41% entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro, evidencia a resiliência eleitoral do petista em um ambiente informativo adverso — e sob pressão também por fatores sazonais, já que os primeiros trimestres do ano costumam ser mais desfavoráveis para incumbentes, pois os cidadãos sentem com maior intensidade despesas relacionadas à moradia, transporte e educação, segundo especialistas.

No levantamento, 47% dizem ter sido impactados por notícias negativas no último mês, como as relacionadas ao caso do Banco Master. Entretanto, a crise desencadeada pelas fraudes na instituição de Daniel Vorcaro não produziu, até o momento, desgaste mensurável para o petista nas pesquisas, conforme analistas do mercado financeiro.

O Master, porém, não é a única fonte de tensão no horizonte do governo. O pedido da defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro para que ele receba a visita de Darren Beattie, assessor da Casa Branca, somado às informações de que Washington pode classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas à revelia de Brasília, é interpretado como uma atuação do movimento MAGA para desestabilizar a “química” entre Lula e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, visando dificultar um desfecho de ganha-ganha no encontro entre eles, de acordo com interlocutores familiarizados com a dinâmica do entorno do republicano.

A HORA DA “QUÍMICA”

Nesse cenário, o empate entre Lula e o senador Bolsonaro nas pesquisas é utilizado para alterar a percepção de Trump sobre o isolamento do bolsonarismo. Esses interlocutores, todavia, afirmam que o foco do mandatário americano não é estimular turbulências no Brasil, mas avançar em um acordo sobre minerais críticos e terras raras com o país que detém a segunda maior reserva mundial desses recursos. Em troca da agregação de valor em território nacional, os EUA poderiam reduzir sua dependência do predomínio chinês nesse setor, considerado essencial para a revolução tecnológica que sustenta a Nova Guerra Fria.

Para consolidar esse entendimento — avaliam — seria importante que Trump pudesse obter algum tipo de vitória política diante de seu eleitorado doméstico, especialmente em um momento de pressões inflacionárias e de queda de popularidade decorrentes da guerra contra o Irã. Na prática, isso significaria enquadrar a parceria mineral Brasília–Washington como uma relação preferencial em relação à China e, eventualmente, incluir pontos do universo MAGA na cooperação contra o chamado “andar de cima do crime organizado”, desde que possam ser delimitados diretamente por Trump e Lula nas negociações.

Por sua vez, o petista conta com o trunfo de ainda não ter respondido se aceita integrar o chamado “Conselho da Paz”, e pode sair do encontro, agora cogitado para abril, com um saldo semelhante ao de Getúlio Vargas durante a Segunda Guerra Mundial, quando o fundador do trabalhismo nacional negociou com os EUA um acordo que vinculava o apoio brasileiro aos Aliados ao avanço da industrialização do país.

Nesse quadrante histórico delicado, ao manter competitividade mesmo diante de avaliações negativas sobre economia e governo, o presidente demonstra capacidade de sustentar a disputa no terreno narrativo. Contudo, permanecem no radar três desafios centrais para o Palácio do Planalto: elevar a taxa de aprovação do governo acima da desaprovação, ainda que por margem estreita; tornar o receio do retorno de um Bolsonaro ao poder superior ao associado à reeleição de Lula; e manter neutralizada a articulação entre MAGA e bolsonarismo por meio da “química” direta entre os presidentes brasileiro e americano.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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