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Esmael Morais

Jornalista e blogueiro paranaense, Esmael Morais é responsável pelo Blog do Esmael, um dos sites políticos mais acessados do seu estado

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PF alcança Castro na semana dos áudios de Flávio Bolsonaro

A direita que apostou em blindagem moral agora enfrenta um roteiro ruim: o dinheiro virou personagem principal

O governador do Rio, Cláudio Castro, fala à imprensa com os secretários de Polícia Militar, coronel Marcelo de Menezes, de Polícia Civil, Felipe Curi, e de Segurança Pública, Victor dos Santos, após a morte de três pessoas baleadas na Avenida Brasil, próximo do Complexo de Israel, onde acontecia uma operação da Polícia Militar, na Zona Norte (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)
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O ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) virou alvo da Polícia Federal (PF) nesta sexta-feira (15), em uma operação sobre suspeitas de fraude fiscal, ocultação de patrimônio e evasão de recursos no setor de combustíveis, no mesmo momento em que o PL tenta conter a crise aberta pelos áudios de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com o banqueiro Daniel Vorcaro.

A Operação Sem Refino cumpriu 17 mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro, em São Paulo e no Distrito Federal. A ordem partiu do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), no âmbito da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) das Favelas, processo que discute a atuação do Estado contra o crime organizado no Rio.

Além de Castro, a PF alcançou Ricardo Magro, dono do Grupo Refit, antiga Refinaria de Manguinhos. A Justiça determinou o bloqueio de cerca de R$ 52 bilhões em ativos financeiros e a suspensão de atividades econômicas de empresas investigadas. Também foram determinadas sete medidas de afastamento de cargos públicos.

Segundo a PF, a investigação apura a suspeita de que o conglomerado do setor de combustíveis tenha usado estrutura societária e financeira para ocultar patrimônio, dissimular bens e enviar recursos ao exterior. A apuração tem apoio técnico da Receita Federal do Brasil.

O caso tem peso político porque a antiga refinaria de Manguinhos obteve, em 2023, no governo Cláudio Castro, incentivo fiscal para ampliar sua atuação no mercado de óleo diesel. A PF ainda não divulgou conclusão sobre eventual contrapartida política, e Castro não foi condenado nesse caso.

O advogado Carlo Luchione, defensor de Castro, disse que ainda não tinha conhecimento da motivação da busca e apreensão. Essa resposta delimita o ponto central: há uma operação autorizada pelo STF, há alvos definidos, mas ainda não há sentença.

Castro já estava fora do governo. Ele renunciou em 23 de março, um dia antes de o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) retomar o julgamento que o tornou inelegível por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022. O Rio passou a viver uma crise institucional sobre a escolha de um governador-tampão.

A nova busca contra o ex-governador ocorre na mesma semana em que outro político fluminense do PL, o senador Flávio Bolsonaro, foi atingido por áudios e mensagens ligados a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Segundo reportagem do The Intercept Brasil, Flávio Bolsonaro negociou US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões, para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro.

Flávio Bolsonaro confirmou ter buscado investidores privados para o filme “Dark Horse” e negou ter oferecido qualquer vantagem em troca. A produtora GOUP Entertainment nega ter recebido dinheiro de Vorcaro ou de empresas dele, enquanto documentos citados pela reportagem apontam que o banqueiro teria prometido bancar parte da produção.

O problema político para o PL é a sequência. Primeiro, Flávio Bolsonaro negou vínculo com Vorcaro e depois admitiu ter tratado do financiamento do filme. Em seguida, aliados do próprio PL tentaram reduzir o estrago, enquanto adversários da direita passaram a tratar o caso como risco real para a candidatura presidencial do senador.

Há ainda uma frente mais sensível. A PF suspeita que recursos ligados a Vorcaro possam ter custeado despesas do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos, onde ele mora desde fevereiro de 2025. A linha investigativa é suspeita, não conclusão: a PF apura se dinheiro enviado para o filme teve outro destino.

A operação contra Castro não é parte, até aqui, do caso Banco Master. A conexão entre os dois episódios é política. Em uma semana, o PL viu um ex-governador do Rio virar alvo da PF, um pré-candidato presidencial do partido ter de explicar áudio com banqueiro preso e o sobrenome Bolsonaro voltar ao centro de uma investigação financeira.

Essa crise respinga nos estados porque o bolsonarismo depende de palanques regionais para 2026. No Paraná, qualquer candidatura apoiada pelo PL passa a carregar o custo de explicar por que a legenda que se apresenta como dona da moralidade pública aparece cercada por casos envolvendo banco liquidado, refinaria investigada, filme milionário e suspeitas sobre dinheiro no exterior.

Entretanto, não há, até aqui, operação contra dirigentes paranaenses ligada à Refit ou ao Banco Master. Mas há uma consequência eleitoral concreta. Flávio Bolsonaro, tratado pelo PL como nome nacional competitivo, entra na fase decisiva da pré-campanha tendo de responder sobre Vorcaro antes de falar de programa de governo.

A direita que apostou em blindagem moral agora enfrenta um roteiro ruim: o dinheiro virou personagem principal. A PF bateu à porta de Castro no Rio; os áudios empurraram Flávio Bolsonaro para a defensiva; e os palanques estaduais terão de decidir se seguram a fotografia ou procuram outra moldura para 2026.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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