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Paulo Gala

Paulo Gala é economista e professor da FGV

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PIB mais fraco, inflação resiliente: o dilema do Fed em 2025

Com a economia desacelerando e a inflação resistente, o Fed enfrenta um dilema: cortar juros para estimular o crescimento ou manter a cautela para conter preços

Notas de dólar (Foto: REUTERS/Rick Wilking)

Saiu agora a divulgação do PIB americano, que veio abaixo do esperado. O crescimento anualizado do quarto trimestre foi de 1,4%, enquanto no terceiro trimestre havia sido de 4,4%. O mercado projetava algo em torno de 1,9%; portanto, o dado surpreendeu negativamente.

Esse resultado reforça a leitura de que o número muito forte do terceiro trimestre foi, em alguma medida, exagerado. Crescimentos acima de 4% não parecem ser sustentáveis para a economia americana neste momento.

Por outro lado, o PCE de dezembro — o índice de inflação preferido do Federal Reserve — subiu 0,4% no mês, levemente acima do esperado (0,3%). No acumulado do ano, a inflação fechou em 2,9%, praticamente em linha com as expectativas (2,8%). Ou seja, a inflação está próxima da meta, mas ainda exige cautela.

O núcleo do PCE também avançou 0,4% no mês e encerrou o ano em 2,9%, ligeiramente abaixo do esperado (3%). Já os gastos com consumo cresceram 0,4%, em linha com as projeções.

Um ponto relevante nos dados do PIB foi a queda expressiva dos gastos do governo, que recuaram cerca de 5% — a maior retração desde 2020. Isso sugere que políticas recentes de contenção fiscal já começam a produzir efeito.

Além disso, a ata do Fed divulgada nesta semana mostrou um debate interno bastante dividido. Alguns diretores defendem cortes de juros ainda este ano, enquanto outros demonstram preocupação com a inflação e até mencionam a possibilidade de manter os juros elevados por mais tempo.

O que isso significa?

Temos um quadro misto. De um lado, o crescimento mais fraco aumenta a probabilidade de cortes de juros entre junho e julho. De outro, a inflação um pouco mais resistente reforça a postura cautelosa.

O mercado atualmente aposta em pelo menos um corte de 0,25 ponto percentual no meio do ano. A grande dúvida é se teremos um, dois ou até três cortes até o final de 2025 — o que levaria os Fed Funds a algo entre 3% e 3,25%.

Minha leitura é que ainda está em aberto. O dado não tem força suficiente para alterar drasticamente o cenário-base de cortes graduais. Mas o debate dentro do Fed está longe de ser trivial — há divergências reais sobre o rumo da política monetária.

Encerramos, portanto, a semana com dois dados centrais: crescimento mais fraco do que o esperado e inflação ainda ligeiramente pressionada. Um cenário típico de transição, com a política monetária caminhando em terreno delicado.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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