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Denise Assis

Jornalista e mestra em Comunicação pela UFJF. Trabalhou nos principais veículos, tais como: O Globo; Jornal do Brasil; Veja; Isto É e o Dia. Ex-assessora da presidência do BNDES, pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e CEV-Rio, autora de "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" , "Imaculada" e "Claudio Guerra: Matar e Queimar".

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Por Kleber Mendonça e Wagner Moura, o Brasil e sua história estão nas telas

'É preciso trazer essa memória pela arte, porque seus ecos e concretudes continuam a nos assombrar. O Brasil está nas telas e sua história também'

Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho (Foto: Divulgação)

O ator Wagner Moura, ao receber o seu Globo de Ouro, na noite de ontem (11/01/2026), enchendo de orgulho à Nação brasileira, disse que “a ditadura é uma ferida aberta” e que os seus ecos deram concretude a Bolsonaro, fazendo o Brasil sofrer com esse período fascista.

Moura fez pela história, o que os estudiosos estão tentando durante os últimos 10 anos, desde que as articulações da caserna, nas pessoas do general Eduardo Villas Bôas e do general Sergio Etchegoyen, se juntou ao então vice-presidente Michel Temer e levaram ao impeachment a então presidente Dilma Rousseff, unindo, dessa forma, passado e presente.

Ao fazer o link entre a ditadura e o período Bolsonaro, apontando que um tinha sido consequência do outro, o ator realizou, enfim, a cristalização do que vimos falando ao longo desses anos. A impunidade da ditadura nos legou 2016. Com isso, Wagner Moura mais uma vez elucidou o verdadeiro papel da cultura na vida de um país: dar conta de levar ao público o que a academia e os historiadores não conseguem, porque o público tem mais acesso ao cinema do que aos bancos das universidades.

E, de quebra, ainda mandou recado para a ultradireita no Brasil, que diante do veto justo e altivo do presidente Lula, ao estapafúrdio projeto de anistia (dosimetria), no ato do dia 08 de janeiro, esperneou e dobrou a aposta, encaminhando – por iniciativa do senador Espiridião Amin -, um projeto ainda mais ambicioso e ante povo, o da anistia total. No palco, um reluzente Wagner Moura deixou a nu a gravidade do que se passou com o país, sendo aplaudido vigorosamente por uma plateia que agora encara um absolutista (Donald Trump), vaiado à simples menção do seu nome, pelo veterano e carismático Robert De Niro.

Só esse momento já teria valido todo o percurso feito por Wagner Moura até se abraçar com o merecido troféu “Globo de Ouro”. Mas ele fez muito mais. Escancarou, com a sua brilhante atuação, com a densidade do seu personagem Marcelo, um Brasil que todos sabemos que existe, mas ainda não nos foi dado consertar, (haja pressão da elite), desde aquele desmantelamento de 21 anos de ditadura.

O olhar de espanto e estranhamento de Moura, logo na primeira cena, diante de um corpo miserável coberto de papelão, traduz e conduz o espectador a uma realidade arrebatadora. A de um país onde se você não tem onde cair morto – era o caso -, o Estado não te alcança. Você nem sequer vira estatística, porque não pertence ao Estado. Provavelmente nem possui registro de nascimento. Ficou pelas bordas da sociedade e não vai entrar nela nem na hora da morte.

É o que dão a entender os dois policiais que, indiferentes ao corpo largado no chão, estão mais interessados, como até hoje continuam estando, em arrancar “algum” do cidadão comum que para com o seu carro no lugar errado. É o Brasil real reproduzido nas cores chapadas do cinema de Kleber Mendonça, que não pede licença para falar da ditadura à sua maneira. Ao estilo nordestino, de modo sutil, mas que se torna tão ou mais violento do que se estivesse contando sua história com cenas de palmatórias e paus-de-arara.

A dupla Kleber e Wagner tocam de ouvido um Brasil que conhecem de perto. A lenda urbana da “perna cabeluda” entra na história da mesma maneira que o “mão branca”, nos áureos tempos dos “desaparecimentos”. Quem sumiu, foi vítima do “mão banca”, ou da “perna cabeluda”, e não do sistema, que usava desses subterfúgios para desviar a atenção, confundir a sociedade, de modo a que os desaparecidos políticos fossem vítimas desses “fenômenos”, e não de um estado que de tão violento atravessou os anos e se meteu sob os holofotes do palco do Globo de Ouro.

Mas dessa vez, para ser desnudado e levado além-fronteira com o justo apelo, tanto de Kleber quanto de Moura: é preciso trazer essa memória pela arte (fica mais palatável), porque seus ecos e concretudes continuam a nos assombrar. O Brasil está nas telas e sua história também. Obrigada, Kleber Mendonça e Wagner Moura.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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