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Carlos Carvalho

Doutor em Linguística Aplicada e professor na Universidade Estadual do Ceará - UECE.

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Por que Carol Solberg não pode falar?

Atleta é punida pela FIVB após celebrar prisão de Bolsonaro e reacende debate sobre liberdade de expressão no esporte

Jogadora de vôlei Carol Solberg (Foto: Reprodução)

Lendo as notícias no pós-carnaval descobri que a atleta de vôlei de praia, Carol Solberg, foi punida pela Federação Internacional de Voleibol – FIVB, por ter comemorado a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). As declarações que motivaram a punição de Solberg ocorreram durante o Circuito Mundial, no dia 23 de novembro de 2025, na Austrália. Na ocasião, a atleta acabara de conquistar a medalha de bronze. Por curiosidade, fui dar uma olhada no perfil da atleta na Wikipédia. Se a contagem do site não estiver errada, Solberg tem 16 medalhas de bronze, 15 de prata e 14 de ouro. Em uma situação normal, Carol Solberg teria uma estátua em uma praça, seria nome de rua ou, no mínimo, receberia um título de Doutor Honoris Causa. Mas para a FIVB o que ela merece mesmo é uma punição. E assim seguimos, como dizia o professor Darcy Ribeiro, aos trancos e barrancos.

Se Solberg, mediante recurso, não conseguir reverter a punição, não poderá participar da primeira etapa do Circuito Mundial de 2026, o chamado Beach Pro Tour Elite 16, que deverá ocorrer no mês de março. Conforme a FIVB, a punição da atleta encontra respaldo no artigo 8.3 do Regimento Disciplinar da Federação Internacional de Voleibol. Parafraseando Ednardo, pergunto: você já leu o artigo 8.3 ou sabe a história da galinha pedrês? Pois é! O tal artigo deve ter lá sua “importância”, mas nem de longe é tão importante quanto o posicionamento político de uma mulher, cuja indignação não é só sua, mas da maioria da população brasileira que também comemorou/comemora a prisão do facínora. Tentar silenciar Carol Solberg é, no mínimo, vergonhoso. A punição aplicada à atleta diz mais sobre a Federação do que sobre Solberg. Professores, artistas e atletas não devem nunca se calar diante das ignomínias de pessoas públicas. Comemorar a prisão de Bolsonaro, como fez Carol Solberg, foi um mero exercício de cidadania comum nas sociedades democráticas.

Mas por qual razão Carol Solberg não pode falar? A quem interessa silenciá-la? Em uma busca rápida pela Internet, caro leitor/cara leitora, você encontrará registros de atletas do voleibol fazendo arminha e divulgando, à época, o famigerado número 17. Você também identificará atletas do futebol em encontros com o ex-presidente, atual presidiário. Um deles, inclusive, foi presenteado com a medalha “imbrochável, imorrível e incomível”. Quem foi punido? Ninguém. Mas Carol Solberg tem que ser punida por exercer seu direito constitucional de se manifestar politicamente?

Ao proferir sua fala, Carol Solberg acertou uma medalha bem no meio do peito dos fascistas, quando disse: “Esse é um dia incrível para mim. E também é um dia incrível para o mundo. Ontem, no Brasil, colocamos na prisão o pior presidente da história do Brasil. Bolsonaro está na prisão e é muito importante que celebremos. Estou muito orgulhosa de ter essa bandeira agora. Jamais poderia acreditar que teríamos um presidente assim. É algo que temos que celebrar”. E por essa fala ela foi punida. Caso Solberg não consiga jogar em março, na Paraíba, a derrota não será sua, mas do voleibol, do esporte e da democracia brasileira. Carol Solberg não é o tipo de pessoa que se permite dobrar pela censura. Ela é, acho eu, como a água daquela canção do Oswaldo Montenegro, que desce a cachoeira e não pergunta se pode passar. Fala mais, Carol!

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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