Por que os países ainda não anunciaram boicote à Copa do Mundo nos EUA?
A resposta não está na ingenuidade dos governos, mas na perda de autonomia do futebol enquanto fenômeno cultural
O futebol é, sem dúvidas, uma das maiores invenções da cultura moderna. Nascido na Inglaterra vitoriana, já dava demonstrações de que não seria apenas um jogo. Tornou-se expressão da sociedade matematizada. O tempo e o espaço do futebol moderno traduzem a ideia de igualdade dentro de campo. Já fora dele, as desigualdades são uma essência da modernidade capitalista.
O futebol serviu de instrumento de disciplinamento social, de pacificação das classes trabalhadoras e de reorganização simbólica de uma sociedade atravessada por conflitos profundos produzidos pela industrialização.
Ao longo do século XX, o futebol se expandiu como linguagem universal e conquistou todos os continentes. Em 1928, Jules Rimet compreendeu que o jogo já não cabia mais nos limites das Olimpíadas modernas, retomadas em 1896. A criação da Copa do Mundo, em 1930, consolidou o futebol como espetáculo global e como projeto político-cultural. Não por acaso, o Uruguai foi escolhido como sede inaugural. A celeste olímpica, apelido que recebeu pela conquista do bicampeonato olímpico (1924 e 1928). Além disso, estava celebrando o centenário de sua independência, o que simbolizava uma modernidade possível fora do eixo europeu.
Cem anos depois, às vésperas da Copa do centenário de 2030 — que será sediada por Portugal, Espanha e Marrocos — o futebol encontra-se profundamente transformado. Ou melhor, capturado. Em 2026, a Copa será realizada nos Estados Unidos, Canadá e México, inaugurando um novo patamar de fragmentação territorial do torneio, já ensaiado em 2002 por Japão e Coreia do Sul. A dispersão das sedes não é só um detalhe logístico. É reflexo do sintoma de um futebol cada vez mais subordinado à lógica do capital global e menos enraizado em territórios, culturas e povos.
É nesse contexto que se impõe a pergunta incômoda: por que os países que têm sido humilhados, ameaçados ou diretamente afetados pelas políticas do governo Donald Trump ainda não anunciaram boicote à Copa dos EUA?
Os Estados Unidos, sob Trump, intensificaram a perseguição a imigrantes, promovem deportações em massa e fortalecem uma polícia migratória — a ICE — que opera com práticas de criminalização, violência institucional e violação sistemática de direitos humanos. Trata-se de uma política de Estado, não de um desvio episódico. Ainda assim, o futebol internacional segue como se nada estivesse acontecendo.
A resposta não está na ingenuidade dos governos, mas na perda de autonomia do futebol enquanto fenômeno cultural. O futebol já não pertence aos povos nem sequer aos Estados nacionais. Hoje, ele pertence a uma engrenagem transnacional comandada pela FIFA e por interesses corporativos, financeiros e geopolíticos. Boicotar uma Copa hoje não é apenas um gesto simbólico, como ocorreu aos Jogos Olímpicos durante a guerra fria. Significa enfrentar sanções esportivas, retaliações econômicas, isolamento institucional e custos políticos que poucos governos, sobretudo os periféricos, estão dispostos a pagar.
Além disso, os EUA não são apenas sede da Copa. Ainda são o centro do sistema financeiro internacional, eixo do dólar, potência militar e ator decisivo em organismos multilaterais. A humilhação diplomática promovida por Trump convive, paradoxalmente, com uma dependência estrutural. Engole-se o insulto em nome da estabilidade.
Soma-se a isso o velho mito da neutralidade esportiva. Repete-se que “esporte não é política”, quando, na prática, isso significa apenas que a política dos poderosos não pode ser questionada pelo esporte. Perseguir imigrantes não “politiza” a Copa. Questionar a sede, sim. A neutralidade opera sempre a favor da ordem vigente.
Esse silêncio não é novidade histórica. Em 1936, os Jogos Olímpicos foram realizados em Berlim, já sob o controle do regime nazista. Muitos países sabiam o que estava acontecendo. Sabiam da perseguição, da violência, do autoritarismo. Ainda assim, prevaleceu a ideia de que era melhor “ir e ver de perto”. O resultado foi a legitimação internacional do nazismo, o uso do esporte como propaganda e a normalização do horror. Três anos depois, eclodiu a Segunda Guerra Mundial.
A história não se repete mecanicamente. Hoje, o que se naturaliza não é o nazismo clássico, mas o autoritarismo de mercado, o racismo institucional, a criminalização da migração e a violência estatal travestida de política de segurança. A Copa nos EUA funciona como uma vitrine. Quer exibir diversidade, festa e espetáculo, enquanto expulsa, encarcera e humilha populações inteiras.
O futebol, que já foi projeto nacional, linguagem popular e espaço de pertencimento coletivo, converteu-se em mercadoria global. O torcedor virou consumidor. O estádio virou arena. O clube virou marca. O jogador virou ativo financeiro. E o jogo — o jogo mesmo — tornou-se secundário.
Ao se aproximar de seu centenário, a Copa do Mundo não celebra apenas uma história de glórias esportivas. Ela expõe, de forma cristalina, o sequestro do futebol por uma ordem que transforma tudo em espetáculo rentável e silencia qualquer dissenso em nome do lucro.
Diante disso, a pergunta permanece e se torna ainda mais incômoda: se nem a perseguição explícita a imigrantes, o racismo institucional e a humilhação diplomática são suficientes para provocar um boicote, o que ainda seria?
Ou talvez a pergunta mais dura seja outra: o futebol ainda é capaz de dizer “não” ou já perdeu definitivamente essa possibilidade?
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.


