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Boaventura de Sousa Santos

Sociólogo português

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Por que Trump não é Napoleão

O atual projeto imperial dos EUA se apoia mais na destruição e na guerra religiosa do que no conhecimento e na estratégia política do passado

Donald Trump (Foto: Reuters/Elizabeth Frantz)

Para entender o salto qualitativo da catástrofe em curso no Oriente Médio e o processo que pode transformá-la numa catástrofe global, é preciso recuar no tempo. Ao dar prioridade ao assassinato de líderes religiosos e, sobretudo, do líder supremo Ali Khamenei, Israel e os Estados Unidos transformaram esta guerra numa guerra religiosa. A guerra é entre o Islã e a versão sionista do judaico-cristianismo global. De todas as religiões derrotadas pelo cristianismo ocidental, o Islã foi a que mais duramente sentiu essa derrota.

O processo começou no século XI com as Cruzadas, continuou com a chamada Reconquista do Al-Andalus nos séculos XIV e XV e culminou com o fim do Império Otomano após a Primeira Guerra Mundial. Tal como o cristianismo está hoje dividido entre catolicismo e protestantismo, o Islã também se divide em vários níveis, sobretudo entre xiismo e sunismo. O poder religioso islâmico é menos concentrado que o poder judaico-cristão. No Islã, ninguém ocupa o lugar ou possui o poder do papa católico.

Por outro lado, o conceito de religião é diferente nos dois mundos em confronto. Desde as guerras religiosas dos séculos XVI e XVII e do Iluminismo ocidental do século XVIII, ocorreu no cristianismo ocidental um processo de secularização. Ao contrário do que geralmente se pensa, o secularismo não significou a separação entre religião e Estado. Antes, aprofundou as relações entre ambos, dando-lhes um novo sentido.

O secularismo foi o processo por meio do qual se sacralizou o poder terrestre ao libertá-lo da sacralidade do poder celestial a que antes estava submetido. Com isso, a religião tornou-se um recurso estratégico para o Estado, um instrumento eficaz de dominação, como o colonialismo bem demonstra.

Este entendimento do secularismo iluminista tem em Napoleão a sua formulação mais completa. Ao iniciar sua expedição ao Egito em 1º de julho de 1798, Napoleão, então um jovem general de 29 anos, fez uma declaração aos egípcios surpreendente em muitos aspectos. Nessa declaração, afirmou: “Qadi, shaykh, shorbagi, dizei ao vosso povo que nós somos verdadeiros muçulmanos. Afinal, não fomos nós que destruímos o Papa que dizia só faltar fazer a guerra com os muçulmanos?”.

Parece uma contradição, mas não é, como demonstra Mohamad Amer Meziane. Para Napoleão, a religião era um recurso estratégico. Se no Egito a religião da maioria era muçulmana, o Estado deveria respeitar isso como política de dominação. O que Napoleão criticava não era o Islã, mas o poder político dos mamelucos — poder que ele pretendia reservar para si.

Os egípcios tinham todo o direito de viver segundo sua religião, um direito que o Estado deveria respeitar. O profeta Muhammad, longe de ser o Anticristo da cúria romana, teria sido apenas um legislador — posição que Napoleão agora poderia ocupar. As relações subterrâneas entre a sharia (lei islâmica) que Napoleão conheceu no Egito e o Code Civil de 1804 merecem um estudo profundo.

A declaração de Napoleão era, portanto, uma mistura de mentira e verdade. Os mamelucos foram derrotados na Batalha das Pirâmides — embora esta tenha ocorrido a cerca de 15 quilômetros das pirâmides — três semanas após Napoleão desembarcar em Alexandria. Mas o verdadeiro objetivo de Napoleão era exercer o poder a partir da compreensão da cultura egípcia, muito mais ampla e antiga que o Islã, tal como no Irã a cultura persa é mais ampla e antiga que o Islã.

Para atingir seus objetivos, Napoleão levou consigo na expedição cerca de 500 civis, a maioria cientistas, incluindo 150 biólogos, mineralogistas, linguistas, químicos e matemáticos. Apesar da derrota que sofreu logo após a vitória na Batalha das Pirâmides — quando sua armada foi destruída pelo almirante inglês Horatio Nelson — Napoleão instruiu seus cientistas, em geral tão jovens quanto ele ou ainda mais jovens, a continuar o trabalho e reconstruir o material perdido com recursos locais.

Foi assim que o artista e engenheiro Nicholas-Jacques Conté inventou o lápis moderno, feito de grafite, o crayon Conté.

Os cientistas instalaram-se no palácio de Hassan Kashef, no Cairo, e o cronista egípcio Abd al-Rahman al-Jabarti, que fez uma crítica contundente à declaração de Napoleão, não deixou de expressar admiração pela imensa biblioteca e pelo ambiente científico criado ali:

“Os administradores, astrônomos e médicos viviam nesta casa, onde guardavam um grande número dos seus livros, com um guardião a cuidar deles e a organizá-los. E os estudantes entre eles reuniam-se todos os dias, duas horas antes do meio-dia, num espaço aberto em frente às prateleiras de livros, sentados em cadeiras dispostas em filas paralelas diante de uma mesa larga e comprida. Quem desejasse consultar algo num livro pedia os volumes que quisesse e o bibliotecário trazia-lhos. Depois, folheava as páginas, examinava o livro e escrevia. Durante todo esse tempo mantinham-se em silêncio e ninguém perturbava o seu vizinho. Quando alguns muçulmanos vinham dar uma vista de olhos, não os impediam de entrar. Na verdade, traziam-lhes todos os tipos de livros impressos, nos quais havia todo o tipo de ilustrações e mapas dos países e regiões, animais, pássaros, plantas, histórias dos antigos, campanhas das nações, contos dos profetas, incluindo imagens deles, os seus milagres e feitos maravilhosos, os acontecimentos dos seus respectivos povos e coisas que confundem a mente”.

Menos de dois meses depois de desembarcar, Napoleão criou o Institut de l’Égypte (22 de agosto de 1798), seguindo o modelo do Institut de France, ao qual pertencia. Na sessão do dia seguinte, propôs os seguintes tópicos de investigação:

  1. Como podem ser melhorados os fornos de pão?
  2. Como pode ser purificada a água do Nilo?
  3. Os moinhos de vento são práticos para o Cairo?
  4. É possível fabricar cerveja no Egito sem lúpulo?
  5. As matérias-primas para pólvora estão disponíveis no Egito?
  6. Qual é o sistema jurídico no Egito e que melhorias desejam os cidadãos?

Assim nascia uma nova área de conhecimento imperial: a egiptologia. Centenas de livros com milhares de ilustrações foram publicados nas décadas seguintes.

Comparação possível entre Napoleão e Trump

Que comparação é possível entre o brilhante jovem militar Napoleão e Trump, um velho político condenado por corrupção e provavelmente atuando sob chantagem da revelação de crimes sexuais constantes dos Epstein files ou refém de sociedades secretas? Estamos num tempo propício às teorias da conspiração.

São evidentes os propósitos imperiais tanto de Napoleão quanto de Trump. Napoleão pretendia destruir as rotas comerciais do Império Britânico com o Extremo Oriente, enquanto Trump quer destruir rotas comerciais e o acesso aos recursos naturais por parte da China. Terminarão aqui as semelhanças?

Penso que não. Embora seja futurologia, é provável que Trump venha a ser derrotado, tal como ocorreu com Napoleão, e que a derrota aconteça igualmente num curto espaço de tempo. No caso de Napoleão, foram três anos.

Mas as diferenças imperiais são mais evidentes. No caso de Napoleão, as rivalidades imperiais ocorriam no seio da Europa, entre França e Inglaterra. Eram duas potências ocidentais com interesses em dominar o Oriente. No caso de Trump, a rivalidade é entre o Ocidente e o Oriente, que entretanto criou condições para rivalizar com o Ocidente e até vencê-lo.

Napoleão simboliza o imperialismo iluminista de uma burguesia europeia ascendente, capaz de aprender com o mundo não europeu a fim de melhor dominá-lo e dominar-se. A secularização do Estado napoleônico no Egito é mais consistente que a do Estado francês.

Trump simboliza o imperialismo reacionário de uma burguesia ocidental decadente que se apercebe de seu irreversível declínio em relação ao Oriente. Por isso, o Oriente só pode ser dominado por meio da destruição. O Ocidente nada tem a aprender com o Oriente; o seu pânico é que o Oriente já tenha aprendido demais com o Ocidente.

Napoleão enviou cientistas; Trump envia bombas. Napoleão quis conhecer; Trump quer destruir. Napoleão sabia que não sabia (era um ignorante esclarecido); Trump não sabe que não sabe (é ignorante da sua própria ignorância). Os cientistas de Napoleão maravilhavam-se com a grandeza dos monumentos que encontravam; os comparsas de Trump veem nas Trump Towers o apogeu da grandeza.

Napoleão representa a maior afirmação da secularização imperial. Significa uma mudança de regime (regime change) que visa fomentar a compatibilidade do governo eurocêntrico com a crença religiosa da maioria da população. Por isso, era necessário conhecer a cultura e a história do Egito, muito mais antigas e brilhantes que as ocidentais.

No caso de Trump, o regime change implica lutar contra as crenças religiosas não apenas da maioria da população do Irã, mas da maioria da população de todo o Médio Oriente. É por isso que a guerra assume caráter religioso. E ninguém pode protagonizar melhor essa guerra do que um Estado religioso, o Estado judeu sionista de Israel, e seus aliados do sionismo judaico-cristão global.

Esse sionismo vê-se como o legítimo herdeiro das Cruzadas. Tal como então, o Islã, na sua origem, é tão ocidental quanto o cristianismo ou o judaísmo. O Islã é o Ocidente que o Ocidente judaico-cristão orientalizou. Por isso, o Islã é hoje uma pequena parte do Oriente.

O Oriente corresponde às culturas ancestrais em relação às quais a cultura ocidental é não apenas recém-chegada, como também profundamente enraizada nelas — na Pérsia, em Alexandria e na Casa da Sabedoria de Bagdá do século IX.

Guerras por procuração (proxy wars) e mudança de regime (regime change)

Por estarmos perante uma guerra religiosa, a estratégia das guerras por procuração inverteu-se. A guerra entre EUA e Irã tornou-se agora a guerra por procuração com vista à criação do Grande Israel. Virou-se o feitiço contra o feiticeiro.

Mas, como o Grande Israel só pode nascer das cinzas do pequeno Israel, é de prever que o desastre em curso ainda tenha de se agravar. Note-se que, desde 2024, já saíram de Israel mais de 170 mil pessoas. Com a intensificação da guerra, o pequeno Israel (com menos de dez milhões de habitantes) tornou-se demasiado grande para os israelenses que o abandonam.

A farsa do regime change revela-se agora com extrema crueldade. Não conhecemos nenhum caso de êxito dessa política em termos de aumento do bem-estar das populações — o propósito proclamado do regime change. Em vez disso, temos visto destruição, fragmentação territorial e pilhagem de recursos naturais.

Afinal, que regime change houve na Venezuela, se a “ditadura chavista” foi mantida no poder? O regime change foi apenas o disfarce para confiscar a política petrolífera da Venezuela. Uma vez obtido o confisco mediante a prisão do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, mantidos como reféns, a “ditadura chavista” desapareceu.

Mas o Irã não é a Venezuela. Como a guerra foi concebida por Israel como guerra religiosa com vista à criação do Grande Israel, não faria sentido prender o aiatolá Ali Khamenei e levá-lo para Nova Iorque. Era necessário assassiná-lo, assim como os líderes religiosos que estavam com ele.

O confisco de recursos naturais e o bloqueio da China estarão sempre no horizonte, mas os caminhos para chegar até lá tendem a ser muito mais destrutivos.

Além disso, qualquer intenção mais credível de regime change implicaria tropas em terra. Considerando a população de Israel e a resistência do povo norte-americano em envolver a vida de seus soldados em guerras distantes contra países que não percebem como ameaça à sua segurança, é possível prever que essa guerra seja perdida por Israel e que, em consequência, isso signifique o fim do Estado de Israel.

Mas, dado que a potência militar mais poderosa do mundo está envolvida nessa proxy war, existe a possibilidade de que a guerra regional evolua para um conflito global. Se ainda haverá império norte-americano — ou mesmo mundo — depois dessa guerra, é uma questão em aberto.

Conclusão

Diante disso, angustia-me não poder concordar com a proposta de um grande historiador que muito admiro, Ilan Pappé. No seu último livro, Israel on the Brink (2025), ele admite a possibilidade da descolonização da Palestina e de uma nova coexistência entre o mundo judaico e o mundo muçulmano nas próximas décadas.

Para que isso seja possível, seria necessário travar imediatamente Netanyahu e Trump e todos os que se escondem atrás deles. Resta saber se isso ainda é possível.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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