Pressão, contradições e conexões políticas colocam Ibaneis na cena do crime do banco Master
Mensagens, novo depoimento de ex-presidente do BRB e articulações de Temer ampliam suspeitas sobre atuação do ex-governador no plano de socorrer Daniel Vorcaro
Novas mensagens que vieram à tona no âmbito das investigações sobre o caso Master colocam o ex-governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, em uma posição cada vez mais delicada. O conteúdo, revelado pelo jornal O Globo, indica que ele atuou diretamente para pressionar a cúpula do BRB em busca de uma solução para o banco de Daniel Vorcaro.
Em mensagem enviada ao então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, Ibaneis demonstrou incômodo com a demora nas tratativas e afirmou que a operação estava “gerando mais desgaste do que deveria” e que não iria “suportar esse desgaste”. O teor da conversa é analisado pela Polícia Federal, que investiga indícios de fraude envolvendo a negociação.
Embora Ibaneis admita que cobrava um desfecho para o caso, ele nega qualquer tipo de influência externa e sustenta não ter conhecimento técnico do sistema financeiro. Chegou a afirmar, em sua linha de defesa, que “não sabia nem passar um pix”. Essa versão, porém, começa a ruir diante dos próprios depoimentos colhidos pela investigação.
No último depoimento à Polícia Federal, Paulo Henrique Costa afirmou que reportou ao então governador as tratativas envolvendo o Master, o que sugere que Ibaneis estava, sim, a par dos detalhes da operação. Mais do que isso: o ex-presidente do BRB solicitou prestar um novo depoimento, no qual poderá esclarecer que tipo de pressão sofreu durante o processo. O movimento é visto por investigadores como potencialmente decisivo para o caso.
O enredo ganha contornos ainda mais complexos ao envolver o ex-presidente da República, Michel Temer. A operação de venda do Master ao BRB contava com sua consultoria, e a ele se atribui a influência na nomeação tanto de Paulo Henrique Costa para o comando do banco quanto do advogado Gustavo Rocha para a chefia da Casa Civil do Distrito Federal. O próprio Temer relatou ter participado de reunião com Ibaneis para tratar da venda do banco, evidenciando a proximidade entre ambos.
Essa relação política remonta à filiação de Ibaneis ao MDB, articulada com Tadeu Filippelli, ex-assessor de Temer e que chegou a ser preso no âmbito da Operação Panatenaico. O histórico reforça os vínculos políticos que orbitam o caso.
Outro polo de interesse na concretização do negócio envolvia o escritório da advogada Viviane Barsi de Moraes, esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, indicado para o STF por Michel Temer, na vaga aberta com a morte de Teori Zavascki.
A venda do Master para o BRB manteria em vigor um contrato de honorários que garantia ao escritório cerca de R$ 3,6 milhões mensais até 2027. Com a liquidação do banco, em novembro de 2025, esses pagamentos foram interrompidos. O contrato havia sido firmado em fevereiro de 2024.
A menção a Alexandre de Moraes adiciona mais uma camada de sensibilidade ao caso: foi ele o responsável por afastar e, posteriormente, reconduzir Ibaneis Rocha ao comando do Distrito Federal, em 2023, no contexto das investigações sobre os atos de 8 de janeiro.
Os fatos ganham ainda mais relevância quando inseridos na cronologia da crise. À época das mensagens, o Banco Central do Brasil já havia identificado inconsistências graves nas carteiras de crédito do Master adquiridas pelo BRB, o que levantou suspeitas de fraude e levou ao endurecimento da fiscalização. Meses depois, a operação foi vetada, e o banco de Vorcaro acabou liquidado.
A Polícia Federal agora cruza mensagens e depoimentos para reconstruir os bastidores da negociação e apurar se houve interferência política para socorrer a instituição privada. Nesse contexto, o papel de Ibaneis se torna central — especialmente diante das contradições entre seu discurso público e os elementos já reunidos pelos investigadores.
Enquanto isso, a crise financeira do BRB persiste e segue sem solução definitiva. O avanço das investigações, no entanto, indica que o foco pode deixar de ser apenas a crise financeira e se concentrar, cada vez mais, na responsabilidade política por decisões que contribuíram para o colapso do banco, e, nesse ponto, as novas mensagens e conexões políticas colocam em xeque a versão apresentada pelo ex-governador.
Portanto, cada vez mais o BRB deixará de ser assunto das editorias de economia para se transferir para a editoria de notícias policiais.
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PS: O ex-governador Ibaneis Rocha foi procurado por WhatsApp, mas até agora não retornou.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.


