PT deveria apoiar Guilherme Boulos e fortalecer aliança de esquerda para 2022

Jornalista Aquiles Lins, editor do 247, faz um paralelo com as eleições de 2018 e defende que o PT declare apoio à candidatura Boulos-Erundina na capital paulista já no 1ª turno. “Por que não se juntar agora e apoiar Guilherme Boulos, ajudando a consolidar uma frente de esquerda na maior cidade do País?”, questiona

(Foto: Ricardo Stuckert)
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Por Aquiles Lins

Nas eleições presidenciais de 2018, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva deteve a liderança nas intenções de voto durante boa parte do processo eleitoral. Na pesquisa Datafolha publicada em 22 de agosto de 2018, Lula aparecia com 39% de intenções de voto. O segundo colocado, Jair Bolsonaro, aparecia 20 pontos atrás, com 19%. Se deixassem, Lula poderia até vencer o pleito no primeiro turno, numa retomada democrática após o Golpe de 2016, algo semelhante com o que aconteceu com a Bolívia nesta semana. Mas Lula teve seus direitos políticos cassados e impedido de se candidatar pelo Tribunal Superior Eleitoral, após ter sido condenado em segunda instância por corrupção e lavagem de dinheiro no caso do triplex do Guarujá, e encontrar-se preso em Curitiba, em cumprimento da pena, na maior perseguição política já praticada pelo Estado contra um líder popular na história do País. São os fatos.  

Mesmo consciente do lawfare contra Lula, e sabendo aonde sua candidatura terminaria, o PT optou por levá-la às últimas consequências e manteve o ex-presidente como candidato do partido entre 8 de junho de 2018, quando lançou Lula oficialmente em um ato em Contagem (MG), e o dia 11 de setembro, quando Lula foi substituído por Fernando Haddad, então candidato a vice na chapa, tendo Manuela D'Ávila (PCdoB) como candidata a vice-presidente. Ao que se sabe, o PT decidiu segurar a candidatura Lula com o objetivo de manter, pelo máximo de tempo possível, o capital eleitoral acumulado em torno do ex-presidente. Capital eleitoral este que, com a esperada negativa da Justiça Eleitoral ao nome de Lula nas urnas, seria transferido para Fernando Haddad, dando-lhe assim competitividade diante de Jair Bolsonaro e da extrema-direita que estava em franca ascensão. Muito se questionou se esta era a estratégia correta a ser adotada pelo partido. Se não teria sido mais competitivo para Haddad figurar mais cedo na cabeça de chapa, tendo assim mais tempo para se tornar conhecido além do Sudeste e herdar o espólio eleitoral de Lula.  

Na primeira pesquisa Datafolha como o candidato do PT, em 10 de setembro de 2018, Haddad apareceu com 9% de intenções de voto, tecnicamente empatado em segundo, junto de Geraldo Alckmin (10%), Marina Silva (11%) e Ciro Gomes (13%), considerando a margem de erro de dois pontos percentuais.  

Como se sabe, Fernando Haddad terminou o primeiro turno em segundo lugar, com 29,28% dos votos, enquanto Jair Bolsonaro ficou com 46,03%. Com sua estratégia de postergar a troca na chapa, o PT conseguiu transferir para Haddad 75% das intenções de voto em Lula, verificadas pelo Datafolha em agosto de 2018. Isso com Haddad sendo alvo de uma fortíssima campanha da fake news nas redes sociais e com disparos em massa de mensagens pelo WhatsApp financiados por empresas e que manipularam a opinião de milhões de brasileiros acerca do ex-prefeito de São Paulo e ex-ministro da Educação. No segundo turno, sem o apoio do candidato Ciro Gomes, que ficou em terceiro lugar no primeiro turno e preferiu viajar para Paris, Haddad foi derrotado por Bolsonaro por 55,13% a 44,87%.  

2020, um novo dilema  

Dois anos depois, na disputa pelo maior colégio eleitoral do País, a cidade de São Paulo, uma nova questão crucial se coloca para o Partido dos Trabalhadores. Talvez mais complexa e candente. Numa chapa puro sangue, o partido lançou e mantém como candidato a prefeito o ex-deputado Jilmar Tatto, atuante secretário de Transportes na gestão de Haddad na capital paulista. Ele tem como candidato a vice o deputado federal Carlos Zarattini. Faltando 22 dias para o primeiro turno das eleições municipais, Jilmar Tatto tem 4% de intenções de voto, segundo pesquisa Datafolha publicada na quinta-feira, 22 de outubro. Ele creceu 3 pontos em relação à pesquisa Datafolha publicada uma semana antes. No mesmo levantamento, o candidato do PSOL, Guilherme Boulos, aparece em terceiro lugar, com 14% de intenções de voto, oscilando 2 pontos para cima. Boulos tem a deputada federal e ex-prefeita de São Paulo Luiza Erundina como candidata a vice-prefeita, também do PSOL. A pesquisa mostra ainda uma queda de sete pontos do candidato bolsonarista Celso Russomanno (Republicanos), de 27% para 20%, empatado com o prefeito Bruno Covas (PSDB), que oscilou de 21% para 23%.  

Diante deste cenário eleitoral, com queda acentuada de Russomanno (fenômeno já observado em eleições anteriores) e consolidação de Boulos em terceiro, o PT está sendo instado a retirar a candidatura de Jilmar Tatto e apoiar Guilherme Boulos na disputa. Manifestações neste sentido ocorrem dentro e fora do partido. Em entrevista à TV 247, o ex-senador e candidato a vereador do Rio Lindbergh Farias defendeu uma troca de apoios entre PT e PSOL, com o PT apoiando Boulos na capital paulista e o PSOL retirando a candidatura de Renata Souza a prefeita do Rio e passando a apoiar a candidatura de Benedita da Silva. Nesta semana, o teólogo e escritor Leonardo Boff fez um apelo ao ex-presidente Lula para que ele apoie o nome de Boulos. O mesmo pedido foi feito pelo jornalista Mino Carta. Uma carta intitulada “São Paulo precisa de Boulos e Erundina”, assinada por cerca de 250 pessoas, reúne nomes historicamente ligados ao PT na defesa da candidatura de Boulos, como a filósofa petista Marilena Chauí, o cantor e compositor Chico Buarque, as atrizes Marieta Severo e Sônia Braga, o ex-ministro da Educação Renato Janine Ribeiro, entre outros.  

O candidato Jilmar Tatto nega que vá desistir da candidatura e destaca que sua campanha está crescendo. Em resposta ao pedido de Leonardo Boff, o professor Valter Pomar, membro da Executiva Nacional do PT, defende Tatto e argumenta que se o objetivo é derotar a direita, seria melhor manter o candidato petista desidratando votos de Celso Russomanno, especialmente na periferia. 

O debate político está a todo vapor. Como maior partido de esquerda da América Latina, como o mais estruturado e enraizado no Brasil, o PT sempre carrega peso importante nos cenários eleitorais. Em 2018, o dilema da legenda era trocar de candidato dentro do seu próprio partido. Ali, se tratava de um caso excepcional, pois sua maior estrela, Lula, estava preso, e poderia ser substituído por um quadro petista consolidado, Fernando Haddad. O PT optou foi fazer esta mudança aos 40 minutos do segundo tempo. Foi derrotado.  

Em 2020, a situação aparenta ser mais complexa para o PT. Teria que desistir de sua candidatura própria. Mas seria em prol de um aliado que tem se mostrado fiel à luta travada pelo PT dentro do campo popular. Em 2018, o PT tinha certeza que estaria no segundo turno, substituindo Lula por Haddad. A questão diante do partido em 2020 é: o PT acredita que Jilmar Tatto irá ao segundo turno? Por que não se juntar agora e apoiar Guilherme Boulos, ajudando a consolidar uma frente de esquerda na maior cidade do País?  

O PT afirma que em 2018 não teve apoio de um (suposto) aliado no campo progressista no segundo turno, o que contrubuiu para a derrota de Fernando Haddad. Em 2020, embora tenha uma candidatura legítima, mas não competitiva, o não apoio do PT à candidatura Boulos-Erundina pode levar a esquerda a ficar fora do segundo turno em São Paulo. Até onde a legitimidade da candidatura Tatto-Zarattini é mais importante do que a união de forças para colocar a esquerda no comando do maior PIB municipal do País, de um orçamento de R$ 69 bilhões?  

Diante de um quadro de absoluta destruição do País pelo governo de Jair Bolsonaro, ante todos os retrocessos provocados pelos governos do PSDB na capital e no estado de São Paulo, o PT pode mudar a estratégia utilizada em 2018, não demorando tanto a tomar uma decisão, e apoiando Guilherme Boulos já no primeiro turno. Seria um gesto de grandeza política que eliminaria as recorrentes acusações de hegemonismo do partido. Além disso, vitaminaria um projeto que tem chances reais de ir ao segundo turno e derrotar o tucanismo ou o bolsonarismo. O PT tem condições de construir este acordo, incorporando inclusive suas principais propostas para São Paulo no plano de governo de Boulos. O PT governaria São Paulo junto com o PSOL, num ensaio de união e coesão para a maior disputa que se avizinha: a da presidência em 2022. 

O PT deveria apoiar Guilherme Boulos já agora.

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