"Quando fui educado vocês não gravaram": pesquisa aponta 8,8% de meninos vítimas de violência sexual
Agressão policial a estudantes dentro de escola expõe crise de proteção
"Quando fui educado vocês não gravaram." A frase é breve, mas desloca o debate inteiro.
Durante a ação policial ocorrida nesta manhã (25.03.2026) no Colégio Estadual Senor Abravanel (antigo Amaro Cavalcanti), no Largo do Machado, um agente afirmou aos estudantes que, "quando foi educado", não havia gravação. A declaração antecede o momento em que dois alunos aparecem sendo agredidos por ele, em imagens que circularam amplamente nas redes sociais.
Não se tratava de um comentário lateral e sem conexão com o próximo episódio, trata-se de uma formulação que reorganiza o sentido dele.
Ao afirmar que teria sido "educado" antes de ser filmado, o policial desloca a interpretação do ocorrido para uma cena anterior que não foi testemunhada coletivamente. A educação a que ele se refere não aparece no registro, o que aparece é a agressão inicial. A legitimidade da ação passa então a depender de um momento ausente, sustentado apenas pela palavra de quem a executou.
Esse deslocamento não é incomum nas narrativas dos autoritários. É como se, por não ter recebido a devida atenção quando foi "educado", isso abrisse as emoções do não reconhecimento. Sem "estrelinha" por uma boa conduta, eu posso virar a ferramenta máxima da péssima conduta.
O fato ocorre justamente no momento em que o país recebe um dado que exige atenção pública. A edição mais recente da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, divulgada também nesta manhã, de 25 de março de 2026 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, mostra que 8,8% dos estudantes brasileiros afirmam já ter sido forçados a manter relação sexual. A pesquisa investiga condições de saúde, segurança e cotidiano de adolescentes matriculados do ensino fundamental ao médio e reúne informações sobre violência, relações familiares, sexualidade, bullying e acesso a políticas de proteção.
O dado não é isolado. O evento reúne diferentes percepções de algo que estamos aprendendo a lidar, ao menos nas últimas décadas desde o ECA — Estatuto da Criança e do Adolescente.
Ele revela a persistência de um ambiente em que a violência contra estudantes permanece estruturalmente distribuída no interior das experiências escolares.
Segundo entidades estudantis, os jovens envolvidos na mobilização do Amaro Cavalcanti — RJ participavam de um abaixo-assinado que solicitava o afastamento provisório de um professor acusado de assédio enquanto as investigações estivessem em curso. Lideranças secundaristas e universitárias afirmam que foram chamadas pelos próprios estudantes e que seus nomes constavam previamente em lista autorizada para entrada na unidade. Ainda assim, a direção acionou a Polícia Militar.
"Apresentamos a Lei do Grêmio Livre, assinada pelo governador Leonel Brizola, que garante a livre circulação das entidades estudantis. Mesmo com a listagem da Secretaria de Educação autorizando nossa entrada, não houve diálogo nenhum. A polícia agiu com truculência e me agrediu com dois tapas, além de atingir outros estudantes." Afirma Marisol, a estudante agredida.
Do lado de fora da escola houve uso de spray de pimenta. No interior da unidade, as imagens registram a agressão a dois estudantes. O fato de uma das vítimas ser uma estudante trans acrescenta camadas importantes à compreensão do episódio, especialmente em um país onde ataques dirigidos ao rosto de pessoas trans não são eventos isolados. Em diferentes registros de violência, a face aparece como alvo recorrente, revelando tentativas de deslegitimação pública, exposição forçada e negação simbólica da identidade, já que é justamente no rosto que se concentra o reconhecimento social mais imediato de qualquer pessoa.
Nesse contexto, a afirmação de que teria havido uma postura "educada" antes do início da gravação adquire outro significado. Ela sugere que o reconhecimento da própria conduta depende justamente da ausência de testemunho público. A autoridade aparece vinculada a um momento que não pode ser verificado coletivamente. Ações policiais sobre LGBTI+ no passado seguiam o mesmo padrão, eles agiam em nome de uma lei, uma ordem, um futuro, uma educação — sempre em nome de todos, em favor da vida de poucos.
Autoridade também é uma forma de presença pública, sobretudo quando ela se constrói diante de quem vê, diante de quem escuta e diante de quem registra.
Quando a narrativa de uma conduta anterior surge apenas depois da circulação das imagens da agressão, estabelece-se um desencontro entre aquilo que foi dito e aquilo que foi visto. É nesse intervalo que o episódio deixa de ser apenas disciplinar e passa a exigir esclarecimento institucional.
A presença policial no interior de uma escola pública já demandaria explicações claras sobre protocolos e responsabilidades. A existência de registros de agressão torna essa necessidade ainda mais urgente.
O dado nacional recentemente divulgado ajuda a compreender por que episódios dessa natureza não podem ser tratados como acontecimentos pontuais. A violência contra estudantes não aparece nas estatísticas como exceção. Ela aparece como padrão recorrente de experiência escolar.
Embora as meninas apresentem maior incidência nos registros de violência sexual, meninos também figuram de forma consistente entre vítimas de diferentes formas de violência institucional e simbólica dentro do ambiente escolar. Esse dado desloca uma percepção ainda persistente de que situações desse tipo pertencem apenas ao campo do excepcional.
Não pertencem e não é incomum. Nas redes sociais, internautas usam de forma irônica frases como, "Caso isolado nº 8.979" — para ilustrar a recorrência.
Em tempos de circulação imediata de imagens, a disputa pública já não se organiza apenas em torno do que aconteceu. Ela se organiza também em torno do que pode ser visto e sobre o que aconteceu.
Quando estudantes registram uma intervenção policial dentro da escola, não produzem apenas um documento circunstancial. Produzem uma versão pública dos fatos, produzem memória e, sobretudo, produzem provas.
É nesse contexto que a frase pronunciada pelo agente permanece como elemento central do episódio.
"Quando fui educado vocês não gravaram."
A afirmação não descreve apenas um momento anterior à filmagem. Ela expressa uma expectativa de autoridade fundada na invisibilidade. E talvez seja justamente essa expectativa que hoje já não se sustenta diante de uma geração que aprendeu a registrar aquilo que durante muito tempo permaneceu fora de quadro e da visibilidade.
Marisol diz que "isso não é pontual. Essa violência é cotidiana com estudantes nas comunidades onde a gente mora e nas próprias escolas."
A Corregedoria, Conselho Tutelar, o Ministério Público e a Secretaria Nacional de Direitos da Criança e do Adolescente, ligada ao Ministério de Direitos Humanos, e a Subsecretaria da Criança e do Adolescente do Estado do Rio de Janeiro, e a Secretaria da Educação do Rio foram notificados e, até o presente momento, não responderam às questões ocorridas no interior da escola.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



