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Oliveiros Marques

Sociólogo pela Universidade de Brasília, onde também cursou disciplinas do mestrado em Sociologia Política. Atuou por 18 anos como assessor junto ao Congresso Nacional. Publicitário e associado ao Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (CAMP), realizou dezenas de campanhas no Brasil para prefeituras, governos estaduais, Senado e casas legislativas

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Quaresma das Alagoas

Aldo Rebelo revisita, à sua maneira, o velho abismo entre patriotismo, ambição e esquecimento político

Quaresma das Alagoas (Foto: Reprodução/X)
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Espero que meu singrar pela literatura não me torne um leitor amador traído pela memória. Ou até mesmo pela compreensão. Contudo, arriscarei. Há um personagem na literatura brasileira que encarna com perfeita fidelidade a trajetória de certos homens públicos: Policarpo Quaresma, o major criado por Lima Barreto. Quaresma era um patriota de carteirinha, um homem que amava o Brasil com a intensidade que só os ingênuos e os obstinados conseguem sustentar até o fim. E, como um bom fanático da pátria, terminou seus dias fuzilado pela mesma ordem que jurara defender. Se Lima Barreto vivesse hoje, talvez não precisasse inventar nenhum personagem novo. Bastaria observar Aldo Rebelo.

Deputado federal por décadas, ex-presidente da Câmara, ex-ministro de três pastas distintas - esporte, ciência e defesa -, Aldo Rebelo construiu uma carreira que começa à esquerda e termina, curioso destino, abraçando causas que fariam corar o jornal A Época de 1900. Como Quaresma, Rebelo diz que nunca perdeu a fé no Brasil. O problema, em ambos os casos, é a definição do que esse Brasil significa.

Quaresma enviou uma carta ao Congresso pedindo que o tupi virasse língua oficial. Rebelo escreveu um manifesto pedindo que o inglês fosse expurgado da vida moderna brasileira. A distância histórica entre os dois é de um século. A distância intelectual, incerta. Policarpo Quaresma, no romance, desafia a racionalidade em nome de um ideal puro, quase infantil, de brasilidade. Ele aprende tupi, defende o Jeca, planta mandioca em terra que não presta. Aldo Rebelo, talvez pelo mesmo impulso protecionista, produziu em 2000 um projeto de lei, que propunha punir o uso de estrangeirismos na língua portuguesa do Brasil - como se tirar o mouse do vocabulário retirasse também a miséria do mapa. O projeto virou piada no exterior e constrangimento silencioso entre linguistas nacionais. Rebelo defendeu-o com a convicção de quem não percebe que o ridículo faz parte do personagem.

Mas é na curva ideológica que a comparação com Quaresma atinge seu ponto mais irônico. O major barretiano começou ordeiro e terminou rebelde; Rebelo começou rebelde - foi um dos fundadores do PCdoB - e terminou, após décadas de filiações sucessivas a diferentes agremiações partidárias de ocasião, crítico do STF, defensor de soberanias seletivas e sendo elogiado publicamente por Jair Bolsonaro, que o chamou de "um cara fantástico em todos os aspectos". É uma viagem e tanto para quem alega ter sido formado pelo marxismo-leninismo e pelo maoísmo.

A coerência de Rebelo, no entanto, sempre lhe foi única. Aplicada com crescente entusiasmo a ideias cada vez mais distantes de sua origem. Rompeu com a esquerda que o formou, migrou por legendas como quem troca de roupa - PCdoB, PSB, Solidariedade, PDT, MDB, e por fim a Democracia Cristã - e em janeiro de 2026 lançou pré-candidatura à presidência da República. Disse querer uma agenda para "transformar o Brasil". O Brasil, em troca, disse nas pesquisas que mal o reconhecia.

E foi então que chegou o desfecho mais barretiano de todos. O próprio partido que lançara sua candidatura - a DC - decidiu trocá-lo por outro nome, ao constatar que Rebelo "tem menos que traço nas pesquisas", nas palavras do presidente da sigla. Em seu lugar, foi lançado Joaquim Barbosa. Rebelo, fiel ao personagem até o fim, recusou-se a aceitar a substituição. "Minha candidatura está mantida", declarou, ameaçando recorrer. Quaresma também não acreditou, até o último momento, que a ordem de fuzilamento era para valer. Ser substituído pelo próprio partido que o lançou, com a justificativa de que é invisível nas pesquisas, é uma forma contemporânea e menos dramática de fuzilamento. Mas é fuzilamento.

Lima Barreto escreveu que Quaresma "queria bem ao Brasil, mas o Brasil não queria bem a ele". Seria cruel aplicar a mesma frase a Aldo Rebelo. Seria cruel, mas não seria inexato. E haveria ainda um acréscimo necessário, que Lima Barreto não precisou fazer: no caso de Rebelo, nem o país o conhece e nem o partido o quer.

Oh, triste fim!

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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