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Paulo Gala

Paulo Gala é economista e professor da FGV

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Real se valoriza e pode ajudar no controle da inflação

A força do real alivia a inflação, mas expõe fragilidades estruturais da indústria brasileira

Notas de dólar e de real 18/12/2024 REUTERS/Amanda Perobelli (Foto: REUTERS/Amanda Perobelli)

O real voltou a operar abaixo de R$ 5 por dólar, sendo negociado na faixa de R$ 4,95, consolidando um movimento de apreciação relevante observado desde o início do ano. A valorização recente da moeda brasileira ocorre em um contexto de preços elevados de commodities no mercado internacional, o que, historicamente, tende a favorecer moedas de países exportadores, como o Brasil.

Uma análise de longo prazo da taxa de câmbio, com base em séries históricas do Banco Central que cobrem cerca de três décadas, mostra que o nível atual ainda está distante dos períodos de maior valorização do real. Episódios marcantes ocorreram durante o Plano Real, nos anos 1990, e posteriormente entre os governos Lula e Dilma Rousseff, quando a moeda atingiu patamares significativamente mais apreciados. Apesar da recente recuperação, o câmbio ainda se encontra depreciado quando comparado a esses momentos históricos, sugerindo espaço adicional para valorização.

Outro indicador relevante é o índice de commodities do CRB Index, que acompanha preços de energia, metais e produtos agrícolas. Atualmente, o índice se aproxima de máximas históricas, impulsionado principalmente pela alta do petróleo, que voltou a níveis próximos de US$ 100 por barril, além da elevação nos preços de gás natural, metais e alimentos. Em ciclos anteriores, níveis semelhantes do índice estiveram associados a um real mais valorizado, indicando um descolamento entre o câmbio e os fundamentos externos.

Essa divergência sugere que, caso a correlação histórica entre commodities e taxa de câmbio se restabeleça, o real poderia convergir para níveis mais apreciados, próximos de R$ 4,50 por dólar. Esse cenário tem sido considerado por agentes de mercado, com relatos de aumento nas apostas de fundos locais em favor da valorização da moeda brasileira.

Do ponto de vista macroeconômico, a apreciação do real tende a contribuir para o controle da inflação, ao reduzir o custo de bens importados e insumos dolarizados, auxiliando o trabalho do Banco Central. Por outro lado, o movimento traz efeitos adversos para o setor industrial, ao reduzir a competitividade das exportações e pressionar a rentabilidade de investimentos produtivos.

Assim, embora o fortalecimento do real represente um alívio no curto prazo para a dinâmica inflacionária, ele reacende o debate estrutural sobre os impactos do câmbio na indústria brasileira e no padrão de crescimento da economia.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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