Brasil cresce como destino de investimentos estrangeiros
Distância de zonas de conflito, abundância de recursos naturais e mercado consumidor forte fazem do Brasil um destino estratégico para investidores
247 - O agravamento das tensões geopolíticas no mundo, somado à perda de força do dólar e à busca por oportunidades em mercados emergentes, tem ampliado o interesse de investidores estrangeiros pelo Brasil, que passa a ser visto como destino estratégico para aportes e aquisições. O movimento, ainda difuso, inclui desde operações na Bolsa até negociações de longo prazo em setores como energia, tecnologia e infraestrutura, relata o jornal O Globo.
O país se beneficia de fatores como distância de zonas de conflito, abundância de recursos naturais e um mercado consumidor relevante, o que tem levado grupos internacionais — especialmente da Europa e da Ásia — a intensificar sondagens e negociações no mercado brasileiro. Ainda assim, analistas apontam que o fluxo de investimentos segue abaixo do potencial da economia nacional.
O sócio-fundador da Seneca Evercore, Isaias Sznifer, afirma que há uma retomada no interesse por ativos brasileiros, inclusive em empresas de menor porte. “Estamos vendo um nível de transações melhor que o do ano passado, com maior interesse por ativos brasileiros, inclusive (empresas) de tamanho menor, sobretudo nas áreas de tecnologia, serviços financeiros, energia renovável, alimentação e também industrial”, disse. Ele acrescenta: “É um ano que se desenha para ser bom em transações”.
Apesar do cenário positivo, Sznifer pondera que ainda é cedo para prever um crescimento consistente dos investimentos estrangeiros em projetos de longo prazo. Segundo ele, o ambiente interno, marcado por juros elevados e incertezas políticas, segue como fator de cautela. “Os múltiplos de transações no Brasil têm desconto na comparação com as do mercado desenvolvido justamente pelos riscos envolvidos. Isso não mudou”, afirmou.
Entre os setores que mais atraem capital externo está o de energia renovável, além de concessões de infraestrutura, consideradas investimentos mais estáveis. Um exemplo recente foi o leilão do aeroporto do Galeão, arrematado pela espanhola Aena por R$ 2,9 bilhões, valor 210% superior ao mínimo exigido.
Outro indicativo do apetite estrangeiro é o lançamento do terceiro fundo estratégico do Mubadala Capital voltado ao Brasil. O Brazil Special Opportunities Fund III já reúne mais de US$ 900 milhões, superando a meta inicial de US$ 750 milhões. O objetivo é adquirir controle de empresas em situações complexas, como já ocorreu com redes de alimentação operadas pela Zamp.
Internamente, o ambiente de juros elevados também impulsiona negociações, ao pressionar o caixa de empresas brasileiras e levar à venda de ativos ou reestruturações financeiras. Esse contexto tem atraído investidores interessados em oportunidades com preços mais baixos.
Para o economista-chefe do Goldman Sachs para a América Latina, Alberto Ramos, o atual momento internacional favorece o Brasil mais por contraste com o cenário global do que por méritos internos. “A oportunidade aumentou. Isso não tem muito a ver com o brilho e a luz da história macroeconômica do Brasil, mas com a escuridão que nos rodeia. Seja o que for, a vantagem está aí. Só que, neste momento, esse sentimento positivo é muito circunstancial”, avaliou.
O país também se beneficia de sua posição como exportador de commodities, o que gera ganhos comerciais em meio à instabilidade global. Além disso, possui um sistema financeiro considerado mais desenvolvido que o de outros emergentes e instituições democráticas estáveis, fatores destacados por especialistas.
O estrategista-chefe da GCB Investimentos, Roberto Dumas, ressalta, no entanto, que o cenário não representa uma mudança estrutural. “Não é que viramos vitrine nem a capa da The Economist, com o Cristo decolando de novo. É que o mundo está muito ruim. O Brasil ainda tem uma baita lição de casa para fazer”, afirmou.
Dados recentes indicam crescimento econômico de 2,3% em 2025, enquanto o Fundo Monetário Internacional (FMI) revisou a projeção para 2026 de 1,6% para 1,9%. Ao mesmo tempo, o organismo alerta para o avanço da dívida pública, que pode atingir 100% do PIB até 2027, além de pressões inflacionárias.
Especialistas apontam que entraves como insegurança jurídica, fragilidade regulatória e desafios fiscais continuam limitando o potencial de atração de investimentos. Welber Barral, sócio da consultoria BMJ, destaca a importância de regras claras, especialmente em setores estratégicos como minerais críticos. “Não é que o Brasil esteja barato. O país tem um enorme potencial, mas não é mais bem aproveitado pela fragilidade institucional e jurídica”, disse. “Regulação frágil gera desconfiança. E tudo isso acaba sendo precificado”.
Mesmo em áreas promissoras, como a exploração de terras-raras, dificuldades regulatórias e logísticas restringem projetos. Marcio Sette Fortes, professor do Ibmec, observa que o país precisa avançar na cadeia de valor. “Os EUA têm grande interesse por terras-raras, é algo muito promissor, de demanda em diversos setores. Mas não é só extrair, é negociar processamento. O diferencial da China é a capacidade de processamento. Isso abre a possibilidade de exportar um bem com maior valor agregado”, afirmou.
O cenário atual indica que o Brasil está em posição favorável para atrair capital externo, mas o aproveitamento pleno dessa oportunidade dependerá da capacidade de superar desafios internos históricos, como a elevada taxa de juros e a necessidade de maior segurança regulatória.


