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Genoino: “Brasil precisa romper lógica perversa”

Genoino defende fim da escala 6x1 e mobilização por direitos trabalhistas

José Genoino (Foto: Mario Agra/Câmara dos Deputados)

247 - A defesa do fim da escala 6x1, apresentada por José Genoino, foi associada por ele a um debate mais amplo sobre direitos, jornada de trabalho, renda e a estrutura social brasileira. Ao comentar a proposta em discussão, o ex-presidente do PT e ex-deputado constituinte afirmou que a redução da jornada precisa ser entendida como parte de uma disputa histórica entre direitos sociais e a resistência de setores que, segundo ele, atuam para preservar privilégios e impedir mudanças no país.

As declarações foram dadas por Genoino em entrevista ao Bom Dia 247, na qual ele relacionou a luta contra a escala 6x1 à necessidade de enfrentar o que chamou de “lógica perversa” da classe dominante brasileira. Na avaliação dele, a reação à proposta repete movimentos já vistos em outros momentos da história nacional, quando medidas de ampliação de direitos passaram a ser tratadas como ameaça à ordem econômica.

Ao tratar do tema, Genoino recuperou o debate da Assembleia Constituinte para situar a discussão atual dentro de uma trajetória mais longa de disputas em torno do trabalho. “Eu me lembro dessa disputa quando, na Constituinte, a gente aprovou 44 horas, porque eram 48 horas”, afirmou. Em seguida, destacou que a resistência de setores empresariais e conservadores já se manifestava naquele período com o argumento de que o país não suportaria a ampliação de garantias sociais. “Quando a Constituição foi promulgada, o que a classe dominante e setores reacionários diziam? ‘O Brasil tem direito demais, não tem deveres. O Brasil promete isso, isso e isso. E como viabilizar?’ Quer dizer, sempre apostam no caos.”

Na leitura de Genoino, a reação ao fim da escala 6x1 segue exatamente esse padrão. Para ele, a ampliação de direitos trabalhistas continua sendo enfrentada com o discurso do medo, como se qualquer mudança voltada à proteção da maioria da população levasse automaticamente à desorganização econômica. “É a mesma campanha que fizeram contra a libertação dos escravos”, disse. “Sempre é assim. A classe dominante aposta no medo do caos para manter a situação como está.”

O ex-deputado argumentou que a discussão sobre a jornada de trabalho não pode ser reduzida a uma questão administrativa ou legislativa. Segundo ele, trata-se de um debate sobre o direito ao tempo, à dignidade e à vida para além da sobrevivência imediata. “O Brasil não construiu ainda uma cultura de direitos, direitos que são básicos: o direito a viver, o direito ao trabalho, o direito a ter a vida acima do trabalho, o direito a uma segurança”, declarou. Para Genoino, é justamente essa ausência de uma cultura sólida de direitos que permite que pautas como o fim da escala 6x1 encontrem tanta resistência.

Ao aprofundar essa análise, ele sustentou que a precarização do trabalho está ligada a um modelo econômico e político mais amplo, que combina concentração de renda, desigualdade tributária e bloqueio de reformas estruturais. “Quando você fala em Bolsa Família, o direito ao emprego, direito a uma jornada civilizada, democrática, fim da jornada 6 por 1, botar o rico no imposto de renda... o Brasil é o país que tem a maior concentração de renda do mundo em questão tributária”, afirmou. Na mesma linha, acrescentou: “A classe dominante aqui não paga imposto. Ela dá sempre um jeito.”

Genoino também vinculou o debate trabalhista à pressão exercida por juros elevados, benefícios concentrados e mecanismos que, segundo ele, aprofundam o desequilíbrio social. “Se você considerar os juros altos, que produzem 1 trilhão, se você considerar os 51 bilhões de emendas impositivas, se você considerar os penduricalhos e se você considerar as isenções, quer dizer, o Brasil tem que romper com essa lógica perversa de uma classe dominante que quer tudo, não tem limite”, disse. Nesse ponto, o ex-parlamentar enquadra o fim da escala 6x1 não como tema isolado, mas como uma das frentes de disputa por redistribuição de renda, reorganização do tempo de trabalho e redefinição das prioridades do Estado.

Segundo ele, a vida da maioria da população se tornou cada vez mais difícil, e isso amplia a urgência do debate. “A vida está muito difícil e precarizada”, afirmou. Para Genoino, essa precarização não se limita ao mundo do trabalho formal, mas alimenta um ambiente social mais amplo de desproteção, violência e desesperança. “Aí vem o vale-tudo. A violência, o machismo, o racismo, a misoginia, o feminicídio trazem no bojo de uma injustiça histórica autoritária os males do senso comum.”

Dentro desse diagnóstico, Genoino defende que a pauta do fim da escala 6x1 exige mobilização política e social, e não apenas tramitação institucional. Ele afirmou que o enfrentamento da resistência no Congresso depende de pressão popular organizada e de disputa política aberta junto à sociedade. “Nós temos que fazer um grande movimento para levantar a consciência popular, chamar o povo para uma ordem, fazer um debate franco e sincero”, declarou. Mais adiante, reforçou: “Nós temos que fazer um grande movimento de levante político popular para discutir temas da vida do povo e esses temas vinculados com um projeto de futuro do país.”

Para o ex-deputado, a mobilização em defesa da redução da jornada precisa articular presença nas ruas, debate público e enfrentamento da narrativa contrária aos direitos trabalhistas. Na entrevista, ele classificou como reveladora a campanha feita contra a proposta de acabar com a escala 6x1. “Veja bem a campanha que esses caras estão fazendo contra a PEC da jornada 6 por 1 para acabar”, afirmou. Em sua avaliação, essa ofensiva explicita o alinhamento entre setores conservadores e interesses econômicos que se opõem a qualquer medida voltada à proteção do trabalhador.

Genoino também situou essa disputa dentro de um quadro mais amplo de impasse nacional. “O Brasil está diante de uma encruzilhada enorme”, afirmou. “Ou vamos fazer mudanças profundas para garantir uma vida digna para a maioria da população, ou vamos cair numa desorganização caótica do país.” Nessa formulação, a luta contra a escala 6x1 aparece como parte de um projeto que ele descreve como civilizatório, voltado à reconstrução de direitos e à superação de um modelo que, segundo ele, naturaliza desigualdades.

Ao final, Genoino voltou a defender que a sociedade trate o tema como uma questão central da vida cotidiana da maioria dos brasileiros. “Nós temos que arregaçar as mangas, ir para o combate político democrático”, disse. E concluiu com a síntese do que considera estar em jogo: “Não podemos conviver como natural com essas bandalheiras que estão acontecendo aí. O sentido é discutir o sonho, a esperança e o otimismo.”

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