Rio de Janeiro: a persistência do passado como projeto de poder
Da “bica d’água” às concessões bilionárias: o clientelismo adaptado como projeto de poder no RJ
Em artigo recente publicado no portal G1, o jornalista do Grupo Globo Octavio Guedes apresentou uma análise sobre o legado do governo Cláudio Castro. Segundo ele, desde a redemocratização, de Brizola a Witzel, nunca houve um político tão semelhante ao governador Chagas Freitas quanto Cláudio Castro.
Trata-se de um tema que me atravessa não apenas como objeto intelectual, mas também como experiência vivida. Minha infância e adolescência transcorreram no subúrbio carioca, em um período marcado pela sobreposição de regimes e práticas políticas: a ditadura militar, o chaguismo e, posteriormente, a abertura democrática. Foram tempos duros, distintos entre si, mas profundamente reveladores das estruturas de poder que ainda hoje moldam o Rio de Janeiro e, em grande medida, ajudam a compreender o Brasil contemporâneo.
Para compreender boa parte das dinâmicas políticas atuais, é indispensável revisitar o passado. O Rio de Janeiro, nesse sentido, constitui um verdadeiro laboratório histórico. Poucos espaços concentram, de forma tão intensa, experiências de autoritarismo, clientelismo, populismo e reorganização democrática. Trata-se de um território onde práticas políticas não apenas se sucedem, mas se acumulam e se sedimentam, reaparecendo sob novas roupagens, muitas vezes mais sofisticadas, mas não necessariamente mais republicanas.
A análise do jornalista do Grupo Globo vai além de uma crítica circunstancial ao governo Cláudio Castro. Ela revela a permanência de um padrão político que atravessa décadas e resiste às mudanças institucionais formais. A comparação com o período de Chagas Freitas, por ele evocada, não deve ser lida como exagero retórico. Ao contrário, trata-se de um paralelo que ilumina continuidades estruturais no uso da máquina pública como instrumento de poder, especialmente no que se refere à construção de bases políticas por meio da distribuição de favores, cargos e recursos.
Essa permanência não pode ser compreendida sem a devida atenção a três marcos históricos fundamentais que, em conjunto, contribuíram para o processo de enfraquecimento do estado do Rio de Janeiro. O primeiro deles foi a transferência da capital federal para Brasília, em 1960, que retirou da cidade do Rio de Janeiro seu protagonismo político e simbólico, afetando, posteriormente, todo o estado após a fusão de 1975. Esse movimento deslocou o centro decisório do país e esvaziou parte significativa de sua relevância institucional.
O segundo marco foi o golpe civil-militar de 1964, que instaurou uma ditadura caracterizada pela centralização do poder, pela repressão política, pela corrupção e pela reorganização das estruturas estatais segundo critérios de controle e segurança. No Rio de Janeiro, esse processo teve impactos particularmente intensos, tanto pela tradição política local quanto pela importância estratégica do estado.
O terceiro marco, frequentemente subestimado, foi a fusão entre o antigo Estado da Guanabara e o Estado do Rio de Janeiro, em 1975. Longe de representar uma reorganização administrativa natural, essa fusão foi uma imposição da ditadura militar, realizada sem consulta popular e orientada por interesses políticos claros. A medida buscava redesenhar o mapa político fluminense, diluindo forças oposicionistas e reorganizando o poder territorial de modo a favorecer o controle central.
Esses três eventos, quando analisados de forma integrada, revelam um processo contínuo de desestruturação institucional e perda de centralidade política. O Rio de Janeiro passou a operar em um ambiente marcado por fragilidades administrativas, disputas internas e crescente dependência de arranjos políticos baseados na negociação de interesses imediatos.
É justamente nesse contexto que o chamado chaguismo encontrou terreno fértil para se consolidar. Sob a liderança do governador Chagas Freitas, eleito duas vezes de forma indireta, primeiro na Guanabara e depois no Rio de Janeiro, desenvolveu-se um modelo político baseado no empreguismo, no clientelismo e no uso intensivo da máquina pública como instrumento de manutenção do poder.
Esse modelo, embora associado a um período específico, não desapareceu com a redemocratização. Ao contrário, adaptou-se às novas regras do jogo democrático, preservando sua lógica fundamental.
A leitura da política fluminense ganha maior densidade quando situada em uma perspectiva histórica de longa duração. O uso de recursos públicos como instrumento de alavancagem política, observado em contextos recentes, não constitui um fenômeno isolado, mas a atualização de uma lógica já consolidada desde os tempos de Chagas Freitas. No período chaguista, essa dinâmica se manifestava de forma mais direta e visível por meio da chamada “política da bica d’água”, em que a instalação emergencial de pontos de abastecimento de água em favelas, frequentemente às vésperas de eleições, operava como moeda de troca eleitoral, tornando-se um símbolo clássico do clientelismo no estado. Tratava-se de uma intervenção pontual, de baixo custo estrutural, mas de alto rendimento político, capaz de produzir relações imediatas de dependência entre a população e o governo.
No presente, essa racionalidade não desaparece; ela se sofistica. A concessão da CEDAE, realizada em 2021, gerou um volume bilionário de recursos para o Estado, posteriormente canalizados para programas e investimentos com elevada visibilidade pública e potencial de retorno eleitoral. A diferença central não reside na finalidade política, mas na forma: se antes o acesso à água era mediado por uma bica instalada na favela, hoje ele é operacionalizado por meio de complexas operações financeiras, contratos de concessão e políticas públicas de larga escala. Em ambos os casos, contudo, observa-se a instrumentalização de um direito básico, o acesso à água, como mecanismo de construção de lealdades políticas.
Essa continuidade histórica evidencia que o chamado “atraso” da política fluminense não decorre da mera permanência de práticas arcaicas, mas, precisamente, de sua capacidade de adaptação. O clientelismo não desaparece com a modernização administrativa; ao contrário, reinventa-se em seu interior. O que se transforma é o grau de sofisticação dos instrumentos, que passam de soluções improvisadas e visíveis, como as bicas d’água, para arranjos institucionais complexos, revestidos de tecnicidade e legitimidade formal. O resultado, entretanto, permanece estruturalmente semelhante: a utilização de recursos públicos e políticas de infraestrutura como instrumentos de reprodução de poder.
Esse padrão ajuda a compreender por que a crise fluminense não pode ser reduzida a um problema conjuntural. Trata-se de uma crise estrutural, que envolve dimensões econômicas, administrativas, políticas e simbólicas. E talvez nenhum indicador seja mais eloquente dessa crise do que a trajetória recente dos governadores do estado.
Nas últimas décadas, o Rio de Janeiro tem sido palco de uma sucessão de escândalos que atingiram diretamente seus chefes do Executivo. Sérgio Cabral foi preso e condenado em diversos processos por corrupção, tornando-se um dos símbolos mais emblemáticos da degradação política no estado. Seu sucessor, Luiz Fernando Pezão, também foi preso sob acusações semelhantes. Na sequência, Wilson Witzel sofreu impeachment e, em decisão posterior do Tribunal Superior Eleitoral, foi declarado inelegível. Mais recentemente, Cláudio Castro também enfrentou investigações e ações que culminaram em sua inelegibilidade pelo TSE, em razão da prática de abuso de poder político e econômico, além de condutas vedadas e captação ilícita de recursos nas eleições gerais de 2022.
Essa sequência não pode ser interpretada como mera coincidência ou fruto de desvios individuais. Ela aponta para a existência de um padrão sistêmico, no qual práticas ilícitas ou eticamente questionáveis se inserem em uma lógica mais ampla de funcionamento político. Trata-se de um ambiente em que a relação entre poder público e interesses privados frequentemente se dá de maneira promíscua, comprometendo a integridade das instituições.
Os efeitos desse processo são profundos. A repetição de escândalos corrói a confiança da população, fragiliza a legitimidade do Estado e dificulta a implementação de políticas públicas de longo prazo. Em um contexto de instabilidade constante, a governabilidade passa a depender de arranjos precários, muitas vezes sustentados por alianças circunstanciais e negociações pouco transparentes.
É nesse cenário que a discussão sobre a sucessão de Cláudio Castro assume centralidade. A possibilidade de uma eleição indireta para a escolha do novo governador revela não apenas uma solução jurídica para uma crise institucional, mas também um sintoma das limitações do sistema político fluminense.
A eleição indireta, prevista na Constituição em situações específicas, ocorre quando há vacância do cargo nos últimos anos do mandato. Nesse caso, cabe à Assembleia Legislativa escolher o novo chefe do Executivo. Embora esse mecanismo tenha respaldo legal, sua aplicação, em um contexto como o do Rio de Janeiro, levanta questionamentos relevantes.
Em primeiro lugar, há um evidente déficit de legitimidade democrática. A substituição de um governador eleito pelo voto popular por outro escolhido por um número restrito de parlamentares tende a reduzir a participação cidadã e a concentrar o poder decisório em um círculo político limitado. Em segundo lugar, há o risco de reprodução das mesmas práticas que contribuíram para a crise atual. Em um ambiente marcado por relações políticas historicamente personalistas e por forte influência de grupos de interesse, a eleição indireta pode se transformar em um espaço privilegiado para negociações e acordos que pouco dialogam com o interesse público.
Nesse sentido, o debate sobre a sucessão não pode ser dissociado de uma reflexão mais ampla sobre a qualidade da democracia no estado. A crise fluminense não é apenas uma crise de gestão, mas uma crise de representação. Trata-se de um cenário em que as instituições formais continuam operando, mas enfrentam dificuldades crescentes para produzir legitimidade e confiança.
O Rio de Janeiro, que já foi capital da República e centro irradiador de decisões políticas nacionais, parece hoje confinado a uma lógica de sobrevivência institucional. Sua perda de protagonismo não é apenas econômica, mas também simbólica. O estado que outrora desempenhou papel central na definição dos rumos do país agora luta para estabilizar suas próprias estruturas políticas e administrativas.
Ainda assim, é importante evitar leituras deterministas. O passado não condena o presente de forma inevitável, mas estabelece condicionantes que precisam ser reconhecidas e enfrentadas. A compreensão crítica dessas continuidades é condição necessária para qualquer projeto de transformação.
O problema, no entanto, é que o Rio de Janeiro tem demonstrado, até o momento, maior capacidade de adaptação de velhas práticas do que de construção de alternativas efetivamente novas. As estruturas políticas se reorganizam, os discursos se atualizam, mas a lógica de funcionamento permanece, em grande medida, a mesma.
Esse quadro revela uma tensão central: a coexistência entre instituições democráticas formais e práticas políticas que, em muitos aspectos, remetem a períodos anteriores. Trata-se de uma democracia que opera, mas que enfrenta dificuldades para se aprofundar e se consolidar plenamente.
Talvez seja por isso que o estudo do passado se torna tão relevante. Não se trata de um exercício nostálgico ou meramente acadêmico, mas de uma ferramenta analítica fundamental. Ao compreender as origens e as transformações das práticas políticas fluminenses, torna-se possível identificar padrões, reconhecer continuidades e, eventualmente, apontar caminhos de ruptura.
A compreensão das conexões entre o presente e o passado é fundamental para esse esforço. A política não se reinventa do zero a cada ciclo eleitoral; ao contrário, carrega consigo heranças, estruturas e lógicas que persistem ao longo do tempo.
No caso do Rio de Janeiro, essa persistência assume contornos particularmente evidentes. O passado não apenas influencia o presente; ele o atravessa de maneira profunda, condicionando escolhas, limitando possibilidades e, muitas vezes, reproduzindo desigualdades.
A superação desse quadro exige mais do que mudanças pontuais. Ela demanda uma transformação estrutural, capaz de alterar os incentivos que orientam o comportamento político. Isso implica fortalecer mecanismos de controle e transparência, ampliar a participação cidadã e, sobretudo, reconstruir a confiança nas instituições.
Trata-se de um desafio complexo, que não se resolve no curto prazo. Mas é um desafio inevitável. Sem enfrentar suas próprias continuidades históricas, o Rio de Janeiro corre o risco de permanecer preso a um ciclo de crises recorrentes, no qual o passado se atualiza continuamente sob novas formas.
Em última instância, a questão que se coloca é se o estado será capaz de romper com esse padrão ou se continuará a reproduzi-lo. A resposta a essa pergunta não depende apenas das instituições, mas também da sociedade, dos atores políticos e das escolhas que serão feitas nos próximos anos.
O futuro do Rio de Janeiro ainda está em aberto. Mas, para que seja diferente do passado, será necessário, antes de tudo, compreendê-lo em profundidade e, sobretudo, ter disposição para transformá-lo.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



