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Fernando Horta

Fernando Horta é historiador

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Românticos e Picaretas: as análises furadas da guerra no Oriente Médio

E no fim, como sempre, pagam o preço os que não têm o luxo do romantismo: os que vivem onde as bombas caem

Fumaça sobre Teerã, Irã (Foto: Majid Asgaripour/Agência de Notícias Wana/Reuters)

Existe uma figura recorrente nos debates sobre conflitos internacionais que poderíamos chamar de romântico geopolítico. Ele não é necessariamente mal-intencionado. Às vezes é um intelectual brilhante, um militante dedicado, um jornalista comprometido. Mas sua forma de ler o mundo sofre de um defeito estrutural grave: a incapacidade de realizar cálculos de causa e consequência ancorados na materialidade dos fatos. O romântico opera pela lógica do desejo — ele analisa o que quer que aconteça, não o que pode ou vai acontecer. E o problema mais sério desse traço não é epistemológico, mas ético: o romântico geopolítico, invariavelmente, rifa os corpos, os sonhos e as vontades dos outros — os que estão morrendo de verdade — em nome dos seus próprios projetos de futuro. Ele converte o cadáver alheio em símbolo da sua utopia e, ao fazê-lo, torna-se, sem perceber, um agente da perpetuação do conflito.

Ao lado do romântico existe o picareta analítico — talvez ainda mais perigoso porque ocupa mais espaço na mídia. O picareta é o tudólogo: aquele que fala com a mesma desenvoltura sobre o Hamas, sobre o PIB iraniano, sobre a doutrina militar israelense, sobre as ramificações jurídicas da guerra, sobre petróleo e sobre teoria política islâmica. Ele não tem compromisso com dados, com metodologia ou com qualquer tradição teórica coerente. Sua marca registrada é a platitude — a frase de efeito que o interlocutor já quer ouvir — e seu método secreto é o chute calibrado: escolhe sempre os outcomes com pelo menos 50% de probabilidade de ocorrência, de modo que, quando acerta, reivindica a previsão, e quando erra, muda de assunto sem deixar rastro. Não há accountability no mundo do picareta. Ele existe para ser consumido, não para ser verificado.

É com essas duas figuras em mente que precisamos dissecar algumas das análises mais recorrentes — e mais perigosas — que circulam hoje sobre a guerra no Oriente Médio. 

1. "O Irã está vencendo" (ou "pode vencer")

Poucas afirmações revelam tão claramente o divórcio entre desejo e realidade quanto essa. Dizer que o Irã está vencendo o conflito em curso — ou que tem capacidade real de vencê-lo — não é apenas uma análise equivocada: é uma insanidade metodológica que ignora as condições materiais mais básicas do confronto.

Comecemos pelo óbvio: o Irã perdeu, em tempo relativamente curto, seus ativos mais estratégicos na região. O Hezbollah — décadas de construção, decenas de bilhões de dólares em treinamento e armamento — foi militarmente degradado de forma sem precedentes. O Hamas, enquanto força militar organizada, foi destruído como entidade operacional coerente em Gaza. A Síria de Assad, eixo logístico fundamental da projeção iraniana, colapsou. O próprio território iraniano foi atingido diretamente por Israel em múltiplas ocasiões, com as defesas aéreas mostrando limites reais. O líder supremo Ali Khamenei morreu em circunstâncias que, para dizer o mínimo, não sugerem força e intangibilidade do regime.

Afirmar que nesse quadro o Irã "está vencendo" exige um critério de vitória tão elástico que perderia qualquer sentido analítico. O que resta é uma definição de vitória por sobrevivência — "vencer é não ter sido destruído totalmente" — que confunde resiliência com êxito estratégico. Toda entidade política que sobrevive pode ser chamada, por esse critério, de vencedora. Seria o mesmo que dizer que a Alemanha nazista estava "vencendo" em 1944 porque ainda existia.

A confusão aqui é entre capacidade de suportar custos e capacidade de atingir objetivos. O Irã demonstrou, sem dúvida, grande capacidade de absorver pressão. Isso é relevante. Mas absorver pressão não é sinônimo de projeção de poder — e nenhum dos objetivos estratégicos centrais do regime foi alcançado. Esse tipo de análise não é sofisticada: é romanticismo vestido de geopolítica.

 2. "Os EUA não vão aguentar a guerra"

Essa narrativa costuma se ancorar em indicadores reais — dívida pública americana, custo das guerras, desgaste político interno, fadiga da opinião pública — para chegar a uma conclusão que esses indicadores simplesmente não sustentam. O raciocínio tem uma lógica interna aparente, mas ignora algo fundamental: os Estados Unidos não precisam "aguentar" a guerra no sentido em que as potências envolvidas diretamente precisam. Eles projetam força à distância, com ativos que já foram pagos, e extraem de cada conflito uma forma de dominação que vai muito além do campo de batalha.

Em estudo anterior, analisamos a dimensão energética dessa equação. As forças armadas dos EUA consomem cerca de 300 mil barris de petróleo por dia em tempo de paz — o maior consumidor institucional do planeta. Em um cenário de guerra global, esse número saltaria para aproximadamente 900 mil barris/dia. Parece muito. Mas a Venezuela, sozinha, possui 303 bilhões de barris em reservas comprovadas — o equivalente a sustentar toda a máquina de guerra norte-americana por 922 anos em cenário de conflito total. O Brasil, apenas com o pré-sal, sustentaria essa máquina por mais de 120 anos. Esses números não são acidentais: eles explicam por que a presença militar norte-americana na América Latina não é "intervencionismo ideológico" — é cálculo energético de longo prazo.

Mas o argumento do "os EUA não vão aguentar" falha em nível ainda mais básico: ele projeta para os Estados Unidos a lógica de exaustão que se aplica a potências terrestres com populações mobilizadas em conflitos de alta intensidade. Os EUA perderam mais de 58 mil soldados no Vietnã e continuaram existindo como superpotência. Gastaram mais de 2 trilhões de dólares no Iraque e no Afeganistão e continuaram sendo a maior economia do mundo. A pergunta relevante não é se os EUA vão "aguentar" — é qual o preço que estão dispostos a pagar, e quem pagará por eles. A resposta para essa segunda parte é, quase sempre, outras populações.

 3. "A resistência é uma vitória"

Essa é, talvez, a análise mais moralmente problemática de todas — não porque seja factualmente grosseira como as anteriores, mas porque combina uma certa sofisticação teórica com um romantismo que tem consequências diretas sobre corpos humanos reais.

O argumento funciona assim: mesmo com derrotas militares, a "resistência" vence porque demonstra que o opressor não é invencível, porque inspira futuras gerações, porque redefine o campo do possível, porque "a luta em si já é uma vitória". É uma narrativa que tem raízes nobres — está presente em Fanon, em Gramsci, em tradições anticoloniais legítimas. O problema é quando essa narrativa é aplicada sem critério ao cálculo de vidas humanas concretas.

Gaza é o caso mais brutal. Mais de 50 mil palestinos mortos, segundo estimativas conservadoras. Infraestrutura destruída em escala que levará décadas para ser reconstruída. Uma geração inteira traumatizada ou eliminada. E uma parte da esquerda global — confortavelmente instalada em Brasília, Buenos Aires, Paris ou Nova York — continua produzindo textos sobre como "a resistência não foi derrotada" e como "a luta continua". O que significa essa frase para os pais que enterraram filhos em Gaza? Para os médicos que operaram sem anestesia? Para os professores que perderam suas escolas e seus alunos?

O romantismo da "resistência vitoriosa" é, em sua estrutura profunda, um mecanismo pelo qual intelectuais distantes atribuem sentido à morte dos outros. "Eles não morreram à toa — morreram pela causa." É uma violência simbólica de primeira ordem: ela priva os mortos até do direito ao luto simples, transformando seu sofrimento em combustível narrativo para quem sobrevive a distância. E o pior: ela frequentemente funciona como desincentivo à negociação e ao pragmatismo — porque assumir que a resistência "já venceu ao resistir" torna qualquer acordo, qualquer cessar-fogo, qualquer compromisso, uma traição ao sacrifício dos que morreram.

 4. O picareta conspiracionista: toda derrota é uma traição

O quarto perfil é talvez o mais fácil de identificar e o mais difícil de combater, porque opera com uma lógica internamente irrefutável. Quando os fatos contradizem a narrativa do "campo do bem", a explicação nunca é a superioridade material, estratégica ou institucional do adversário. É sempre a traição. A entrega. A conspiração.

As forças venezuelanas que não lutaram contra a pressão norte-americana? Traição do alto comando corrompido pela CIA. A Guarda Revolucionária Iraniana que não protegeu Khamenei? Entrega dos quadros infiltrados pelo Mossad. O Hamas que aceitou cessar-fogo? Capitulação dos líderes que vivem em Doha enquanto o povo morre. Cada derrota é explicada não pela análise das correlações de força, mas pela identificação de um traidor.

Esse modo de raciocinar revela duas ausências teóricas simultâneas e igualmente graves. A primeira é a ausência de conhecimento das relações causais que a teoria das relações internacionais, a economia política e a história nos ensinam: que potências com ampla superioridade em capacidade de fogo, recursos financeiros, tecnologia de inteligência e projeção logística tendem a vencer conflitos diretos contra forças irregulares ou Estados periféricos, não porque o outro lado traiu, mas porque a assimetria material é real e determinante. A segunda ausência é ainda mais profunda: é o não-reconhecimento do papel da aleatoriedade, da contingência e do erro humano na história. Khamenei morreu — ou foi morto — porque a história não obedece a roteiros. Maduro foi pressionado a ceder porque as correlações de força na Venezuela de 2025 não eram as de Cuba em 1961. Aceitar isso não é capitulação intelectual: é honestidade analítica.

A teoria da conspiração universal tem, além disso, uma funcionalidade política perversa: ela dispensa o campo derrotado de qualquer autocrítica estratégica. Se a derrota é sempre traição, nunca há necessidade de repensar táticas, alianças, objetivos ou métodos. O derrotado permanece moralmente impecável — e estrategicamente estagnado.

 Conclusão: um problema da esquerda que custa vidas

Seria confortável encerrar dizendo que românticos e picaretas existem em todos os espectros políticos. E é verdade — existem. Mas seria intelectualmente desonesto não nomear onde esse tipo de análise causa dano mais sistemático hoje: na esquerda global, e particularmente na esquerda latino-americana.

Não é por acaso. A esquerda herdou tradições analíticas riquíssimas — marxismo, teoria da dependência, pedagogia crítica freireana, estudos decoloniais — que deveriam imunizá-la contra o romantismo e o charlatanismo. Mas essas tradições foram, em muitos casos, substituídas por uma cultura de pertencimento identitário ao campo, onde o critério de uma boa análise não é sua aderência à evidência mas sua fidelidade ao time. Nesse ambiente, o romântico que embala mortos em narrativas de vitória é aplaudido, e o analista que aponta contradições materiais é acusado de "fazer o jogo do inimigo".

O resultado é que a esquerda — que deveria ser a voz mais rigorosa na denúncia das guerras imperialistas e na defesa concreta das populações vulneráveis — frequentemente produz análises que, ao confundir normatividade com evidência e sonho com realidade, prolongam conflitos, desincentivam negociações e constroem consensos baseados em ilusões.

E no fim, como sempre, pagam o preço os que não têm o luxo do romantismo: os que vivem onde as bombas caem.

 As pessoas reais continuam morrendo. Merecem análises reais.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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