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Olímpio Cruz Neto

⁠Jornalista e analista de Risco Institucional e Geopolítica. Foi consultor do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) em Xangai, diretor de Relações Institucionais da GAC Brasil e secretário de Imprensa da Presidência da República

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Rubio coloca as cartas na mesa

O Sul Global está aí para ser domado. Washington joga duro e o Brasil está dormindo em pé

Marco Rubio, em 15 de dezembro de 2025 (Foto: REUTERS/Kevin Mohatt/Foto de arquivo)

A fala do Secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, durante a Conferência de Segurança de Munique, em 14 de fevereiro de 2026, não foi um exercício de diplomacia tradicional. Foi um aviso em linguagem cristalina, sem eufemismos: o mundo voltou a operar por blocos, cadeias críticas e hierarquias de poder. A íntegra do discurso dele está aqui.

O “Sul Global” entra no roteiro de Washington como arena de disputa por mercado e fonte de insumos estratégicos — não como parceiro que ajuda a escrever as regras do jogo. Quando Rubio defende “creating a Western supply chain for critical minerals not vulnerable to extortion from other powers” e “a unified effort to compete for market share in the economies of the Global South”, ele descreve uma estratégia de sobrevivência e domínio, não uma agenda de cooperação. Em tradução livre: criar uma cadeia “ocidental” de minerais críticos, imune à coerção de outras potências, e operar de modo coordenado para disputar fatias de mercado nas economias do Sul Global.

O Brasil precisa ouvir isso sem a anestesia dos comunicados oficiais: a fase em que a “boa relação” funcionava como capital diplomático automático acabou. O que emerge em 2026 é uma Guerra Fria tecnológica, industrial e mineral, na qual países que permanecem “neutros por inércia” correm o risco de virar fornecedores baratos e mercados capturados. Rubio embala sua proposta em verniz civilizacional — “We are part of one civilization – Western civilization.” (em tradução: “somos parte de uma civilização — a civilização ocidental”) —, mas o conteúdo é brutalmente funcional: reindustrialização, fronteiras, energia, cadeias críticas e liberdade de ação.

A parte mais reveladora não é o repertório moral; é o método. Rubio desmonta o conforto retórico da “ordem baseada em regras” ao tratar o termo como muleta: “the rules-based global order – an overused term” (em tradução: “a ordem global baseada em regras — um termo usado em excesso”). Na prática, ele pede à Europa uma aliança cujo eixo é o interesse nacional coordenado, com o multilateralismo rebaixado a ferramenta opcional.

E, nessa arquitetura, o Sul Global vira o tabuleiro onde essa coordenação pretende impor padrões tecnológicos, assegurar acesso a insumos e disputar mercados — como se desenvolvimento fosse consequência natural de “integração”, e não fruto de projeto, densidade industrial e poder.

Para o Brasil, que passou décadas tratando geopolítica como cerimônia, o choque deveria ser severo. Segurança econômica, na vida real, é o exercício de poder sobre quem não detém tecnologia, padrão e financiamento. Se a palavra “recolonização” soa forte, é porque o método mudou, mas o objetivo permanece: reconstituir dependências estruturais por contratos, padrões e infraestrutura — e não mais por bandeiras.

A soberania no século XXI é ameaçada pela ocupação invisível das cadeias de minerais críticos, que deixaram de ser commodities para virar alavancas de segurança nacional. Quem não participa da escrita dos padrões de Inteligência Artificial e governança de dados apenas obedece ao código-fonte alheio. É a colonização pós-moderna: não se ocupa o solo — ocupa-se a nuvem, o sistema operacional, a infraestrutura digital e os protocolos que rodam a economia.

Há ainda uma segunda camada: a pedagogia do “acordem”. O discurso foi recebido em Munique como tentativa de reparar a relação transatlântica sem alterar a direção — um tom mais macio para a mesma exigência de alinhamento e reciprocidade. Só que o recado, para quem está fora do clube, é duro: o Ocidente quer voltar a correr junto — e quer correr para não perder tecnologia, indústria e poder. Isso, inevitavelmente, rebaixa a margem de manobra dos países intermediários que vivem de ambiguidade decorativa.

No Brasil, porém, “multipolaridade” virou mantra de autoajuda, como se o mundo multipolar fosse um convite ao descanso. É erro de leitura. Existe margem de manobra, sim — mas apenas para quem tem capacidade de barganha material. Sem densidade industrial, multipolaridade vira nome elegante para o ato de ser cortejado por potências para ceder ativos.

O jogo duro de Washington não é anomalia; é a norma de um sistema que funde tecnologia, energia e minerais. E o Brasil parece acreditar que pode ser mediador global enquanto sua base industrial é desmantelada peça por peça, entre importações baratas, desorganização estratégica e ausência de exigência.

Acordar para essa realidade exige abandonar diagnósticos performáticos e adotar uma agenda mínima de soberania útil. O começo é simples (e incômodo): contrapartida. Investimento estrangeiro sem transferência real de tecnologia, engenharia e P&D local é maquiagem de balanço.

O Brasil deve tratar cada grande projeto — inclusive a reorganização do setor automotivo e a corrida por baterias, refino e química — como negociação de Estado, com metas, prazos, fiscalização e gatilhos. O país não pode aceitar o papel de ser apenas uma “mina com Wi-Fi”. Exportar minério bruto para ser refinado lá fora é financiar a indústria alheia com patrimônio geológico doméstico. É preciso estruturar refino e química fina localmente, impondo reciprocidade explícita: menos “como atrair capital”, mais “qual capital aceita nossas condições de desenvolvimento”.

Essa soberania se estende ao território digital. Dados, IA e semicondutores devem ser tratados com a mesma centralidade com que tratamos energia e defesa. Sem infraestrutura própria, governança e capacidade regulatória com músculo, nossa logística, mobilidade e cadeias produtivas ficam sempre ao alcance de um comando remoto emitido de fora.

O erro recorrente da elite dirigente é achar que ser simpático substitui ter projeto. Os Estados Unidos avisam que vão disputar cada grama de mineral crítico e cada usuário de software no Sul Global; a China disputa isso na prática, por escala industrial, financiamento e ocupação de mercado. O Brasil, no centro dessa tenaz, segue em sonolência estratégica.

Em 1941, Oswaldo Aranha entendeu a urgência dos EUA e extraiu disso base material para a industrialização pesada. Em 2026, a urgência é dupla: Washington quer uma cadeia que não dependa de Pequim; Pequim precisa de mercados que absorvam excedente produtivo e legitimem sua influência.

Se o Brasil não souber usar essa necessidade cruzada para exigir lastro industrial e domínio de código, o veredito será implacável. Teremos sido a geração que trocou a chance de uma “Volta Redonda Digital” por um espelhinho moderno, movido a bateria, cuja chave e cujo cérebro pertencem a outros.

Soberania não é brinde: é o que sobra quando o investimento estrangeiro decide ir embora. E, por enquanto, o que tem sobrado no Brasil é a maquiagem de uma indústria que não fala a nossa língua.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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