Sabesp privatizada busca o lucro, não a qualidade do serviço
Desde a privatização conduzida pelo governo Tarcísio de Freitas, a Sabesp passou a operar sob uma lógica simples e conhecida do mercado: maximizar lucros
No final do ano passado, a Sabesp completou 500 dias sob controle da iniciativa privada. Tempo mais do que suficiente para tirar conclusões. E, ao contrário do que prometia a propaganda oficial da privatização, o balanço é claro: a desestatização não se mostrou um bom negócio para a população de São Paulo. Para o mercado financeiro, no entanto, a história é outra.
Desde a privatização conduzida pelo governo Tarcísio de Freitas, a Sabesp passou a operar sob uma lógica simples e conhecida do mercado: maximizar lucros. E, nesse objetivo, tem sido extremamente eficiente.
Nos nove primeiros meses de 2025, a companhia registrou um lucro líquido de aproximadamente R$ 5,7 bilhões. Os números do quarto trimestre ainda não foram divulgados, mas a tendência é de crescimento. O dinheiro flui como água, mas não para as torneiras da população.
Enquanto os acionistas comemoram, o que se vê nas ruas são velhos problemas, agora agravados. O ano de 2026 mal começou, e a Baixada Santista enfrentou um longo período de falta de água. A crise ocorreu no pior momento possível: férias, cidades lotadas de turistas e temperaturas próximas dos 40 °C.
E não se trata de um episódio isolado. A ventania que deixou milhares de famílias sem energia elétrica no fim do ano passado também provocou interrupções no abastecimento de água em diversas regiões da Grande São Paulo. Em vários bairros da Capital e de Santo André, por exemplo, moradores passaram dias com as torneiras secas, reféns de um serviço instável.
Esse episódio expôs um contraste. Diante das falhas reiteradas da Enel, o presidente Lula determinou a abertura de um processo que pode culminar na quebra do contrato, com o Estado exercendo seu papel de defesa do interesse público. Já o governo Tarcísio de Freitas optou pelo silêncio diante das falhas da Sabesp. E, quando falou, foi para defendê-la.
Foi assim no início deste ano, quando a população foi surpreendida por um aumento de 6,11% na tarifa de água, um reajuste acima da inflação acumulada do período e em total contradição com a promessa feita pelo governador durante o processo de privatização, quando garantiu que não haveria aumento nas contas.
Em nota distribuída para a imprensa, o governo Tarcísio afirmou que o reajuste “seguiu o previsto em contrato” e ainda avisou que novas altas podem vir, agora amparadas pela chamada “tarifa de equilíbrio”. Traduzindo: a conta tende a ficar ainda mais salgada.
Esse é o risco de transformar a água em mercadoria. O lucro passa a se sobrepor à qualidade do serviço, e o consumidor paga a conta sem qualquer possibilidade de escolha. O saneamento básico é um monopólio. Não há concorrência. Não há alternativa. Quem depende da Sabesp não pode simplesmente trocar de fornecedor.
Se os consumidores fossem prioridade, a companhia estaria investindo em ações estruturais para enfrentar o agravamento da crise hídrica, como a recuperação da rede de distribuição, por onde se perde cerca de 30% de toda a água potável produzida.
Poderia também, agora que controla a Emae, tirar do papel os antigos projetos de despoluição da represa Billings, cujo volume é comparável ao do sistema Cantareira, mas não pode ser aproveitado para abastecimento por receber há anos lançamentos do rio Pinheiros.
Talvez esses projetos não avancem porque o contrato firmado após a privatização com a URAE-1, que reúne 372 municípios paulistas, garante à Sabesp compensações financeiras em caso de prejuízos causados pela crise hídrica. Ou seja: mesmo quando a água falta, o lucro está protegido. O risco do negócio foi transferido para a população.
Esse foi o presente do governo Tarcísio para o tal mercado financeiro, hoje seu grande aliado, talvez à espera de outros “bons negócios”.
O investimento da Sabesp que se vê é em ações como a troca de hidrômetros em cidades da Grande São Paulo, como Franco da Rocha, Francisco Morato e Caieiras. Após a “modernização”, moradores passaram a receber contas até três vezes mais altas. Quem não consegue pagar tem a água cortada. E, sem água, a vida para. O Ministério Público já foi acionado e deve tomar providências. Essa foi a expectativa quando fiz a denúncia junto com o deputado federal Kiko Celeguim.
A experiência da Sabesp privatizada expõe os limites e os riscos de tratar direitos essenciais como ativos financeiros. Quando o acesso à água passa a obedecer à lógica do mercado, o interesse público deixa de ser prioridade. O contrato blinda o lucro e transfere o risco do negócio à população, enquanto o governo Tarcísio de Freitas abre mão do seu papel fiscalizador para garantir um serviço digno.
Essa é uma escolha política. O governo Tarcísio escolheu proteger os investidores, mesmo diante do agravamento da crise hídrica, da precarização do serviço e do peso crescente das tarifas sobre o orçamento das famílias. Escolheu o silêncio quando era necessário enfrentamento.
Um modelo que naturaliza torneiras secas, contas impagáveis e lucros bilionários não pode ser tratado como sucesso, por mais que agrade ao mercado. Ao contrário: ele precisa ser debatido, questionado e, sobretudo, corrigido. Antes que seja tarde e tenhamos em São Paulo uma nova Enel.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



