Paulo Henrique Arantes avatar

Paulo Henrique Arantes

Jornalista há quase quatro décadas, é autor do livro "Retratos da Destruição: Flashes dos Anos em que Jair Bolsonaro Tentou Acabar com o Brasil". Editor da newsletter "Noticiário Comentado" (paulohenriquearantes.substack.com)

481 artigos

HOME > blog

Sem ser convidado, Michel Temer insiste em ser conselheiro da República

Os males que Temer causou ao país ainda persistem

Michel Temer (Foto: Reuters)
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

Eis Michel Temer de novo, do alto da arrogância de quem se sente o consultor-mor da República, a liderar um documento denominado “Estrada para o Futuro”, carta que almeja tornar-se fonte de consulta para candidatos a presidente da República. Não lhe bastou a constatação de que o modelito original, a peça golpista pretensamente consensual “Uma Ponte para o Futuro”, de 2015, fracassou completamente por alinhamento ao neoliberalismo moribundo que encontrou guarida em Henrique Meirelles e Paulo Guedes.

Na nova obra, Temer recorre a figuras como Gabriel Chalita, Coronel José Vicente, Blairo Maggi, Moreira Franco, Nelson Jobim, José Pastore, Marcos Lisboa e outras para dar pitacos governamentais nas áreas de economia, educação, agronegócio, segurança pública e saúde. O material será exaltado pela elite de sempre, a qual encontra no ex-presidente ilegítimo o representante perfeito dos seus interesses.

Já se pode vislumbrar Michel Temer efetuando a entrega solene do documento, a título de colaboração propositiva para o desenvolvimento do Brasil, aos candidatos Flávio Bolsonaro, Ronaldo  Caiado e Romeu Zema. Não será surpresa se receber aplausos de Luciano Huck. Será exaltado o caráter “apartidário” da peça neoliberal, bem como seu teor “modernizante”. A obra natimorta ecoará  todos os mantras que causam o regozijo dos “empreendedores”. Os trabalhadores e seus direitos constitucionais, muito provavelmente, serão escanteados nos debates subsequentes. 

Atribuem-se a Temer talentos diplomáticos e habilidades conciliadoras. Este jornalista contudo, enxerga-o como um vaselina, aquele sujeito que escorrega de um lado para outro sem se machucar, que se vale de superficial erudição jurídica para encobrir a verdadeira razão da contratação dos seus serviços de consultoria: a gigantesca capacidade lobística de alguém que presidiu a Câmara, foi vice-presidente e presidente, ilegítimo, da República.

Notoriamente, seu forte são os conchavos. Michel Temer articulou a derrubada da presidenta da República e surrupiou-lhe o cargo. Na Presidência, patrocinou uma reforma trabalhista que quase destroçou a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), levando a cabo uma “modernização” das relações de trabalho que respondeu por uma legião de trabalhadores informais, precarizados, sem direito a nada.

Os males que Temer causou ao país ainda persistem. Abraçado a Henrique Meirelles, suas iniciativas no Planalto foram cirúrgicas contra as classes mais vulneráveis - o teratológico teto de gastos é o melhor exemplo disso, algo inédito mesmo nas piores praças neoliberais do mundo.

A reforma da Previdência que Jair Bolsonaro impingiu ao país, com ajuda de um dos Congressos mais vis da História da República, foi concebida pelo governo de Temer, só não tendo emplacado naquele mandato porque o incumbente perdeu qualquer condição de negociar com os parlamentares, denunciado que fora por corrupção após o vazamento daquela famigerada conversa com Joesley “Friboi” Batista.

Michel Temer encarna a elite do atraso, como bem definida pelo sociólogo Jessé Souza. Uma elite piegas, usuária de uma falsa oratória conciliadora, de um discurso liberalizante hipócrita, que mal disfarça a volúpia por privilégios, com um pé na academia e outro em regabofes com doleiros e congêneres, como já escrevemos mais de uma vez neste espaço. A tal “Estrada para o Futuro” é mais um arroubo demagógico desse farsante.

Esqueletos no armário

Os indignados seletivos contra a corrupção estão pouco ligando para a capivara do “conciliador” Michel Temer, que nunca foi condenado, mas cujo armário está cheio de esqueletos. A coluna faz questão de prezar pela memória.

Michel Temer foi preso preventivamente em março de 2019 por acusações de corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. A suspeita era de desvios nas obras da usina nuclear de  Angra 3. A prisão ocorreu no âmbito da  Operação Descontaminação, um desdobramento da Lava Jato.  

O Ministério Público Federal acusou Temer de liderar uma organização criminosa que desviou cerca de  R$ 1,8 bilhão  em contratos da estatal Eletronuclear.  Paralelamente, o dono da empreiteira Engevix revelou ter-lhe pago  R$ 1,1 milhão em propina  em 2014 a pedido do Coronel João Baptista Lima Filho, amigo pessoal de Temer, com o consentimento do ex-presidente.  Os crimes teriam ocorrido enquanto Temer era vice-presidente. Ao deixar a Presidência da República no início de 2019, ele perdeu o direito de ser julgado apenas pelo Supremo Tribunal Federal, permitindo que a primeira instância atuasse.  Uma ordem de prisão preventiva foi expedida pelo juiz federal  Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro. Além de Temer, aliados próximos, como o ex-ministro Moreira Franco, também foram detidos.  Michel Temer foi solto poucos dias depois por meio de  habeas corpus. 

Em abril de 2021, o STF entendeu que o juiz Marcelo Bretas, do Rio de Janeiro,  não tinha competência jurídica  para julgar o caso de Angra 3. O processo foi integralmente enviado para a Justiça Federal do Distrito Federal, resultando na  anulação das decisões anteriores  coletadas na capital fluminense.  

Em fevereiro de 2022, o juiz Marcus Vinícius Reis Bastos, da 12ª Vara Federal do DF,  absolveu Michel Temer, Moreira Franco e outros seis réus.  O magistrado apontou que a denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal era "ampla e genérica". A decisão sublinhou que a acusação se baseou puramente nas palavras de um delator premiado, sem apresentar provas documentais que sustentassem o crime de corrupção ou lavagem de dinheiro. A decisão foi mantida pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região  no final de 2023.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados