Francis Bogossian avatar

Francis Bogossian

Francis Bogossian preside o Clube de Engenharia – Brasil e o Instituto Brasileiro de Estudos Políticos; foi professor da UFRJ e da UVA; preside o Conselho de Administração das empresas Geomecânica S/A e Geocoba; ex-presidente da Academia Nacional de Engenharia; membro do Conselho Consultivo da Casa Rui Barbosa; ex presidente interino e vice-presidente do CREA RJ.

30 artigos

HOME > blog

Soberania, Inteligência Artificial e o futuro da engenharia brasileira

O futuro do Brasil deve ser construído com tecnologia — e com soberania

Soberania, Inteligência Artificial e o futuro da engenharia brasileira (Foto: Freepik )

Ao longo de sua história, o Brasil só conseguiu afirmar sua autonomia quando foi capaz de projetar, construir e manter seu próprio território.

Estradas, portos, barragens, cidades, ferrovias, redes de energia e saneamento não são apenas obras — são a infraestrutura material da soberania. Quem controla o projeto dessas estruturas controla o desenvolvimento econômico, o ordenamento urbano, a defesa do território e, em última instância, o futuro da nação.

Hoje, esse princípio volta a ser desafiado por uma nova forma de poder: a Inteligência Artificial aplicada à engenharia, à arquitetura e ao planejamento urbano.

Plataformas globais, controladas por grandes corporações de tecnologia, já são capazes de gerar automaticamente projetos arquitetônicos, cálculos estruturais, traçados de infraestrutura, simulações ambientais, orçamentos, cronogramas e análises de risco, dentre outros . Essas ferramentas estão se tornando o núcleo da atividade de projetar. E quem controla essas plataformas passa a controlar, na prática, como cidades e obras são concebidas.

Se o Brasil não estabelecer regras e políticas públicas claras, corre o risco de viver uma nova forma de dependência: projetos concebidos por algoritmos estrangeiros, treinados com dados globais, hospedados fora do país, adaptados localmente por profissionais brasileiros e apenas formalmente assinados por eles. Isso significaria que o país deixaria de ser autor de seus próprios projetos para tornar-se um validador técnico de decisões tomadas em outros centros de poder.

Isso não é modernização.

É colonização digital da engenharia e da arquitetura.

A história brasileira já conhece esse roteiro. No passado, a dependência de tecnologias e capitais externos levou à perda de setores inteiros — da indústria naval à informática, passando por segmentos estratégicos da engenharia pesada. Agora, o risco é ainda mais profundo, porque o que está em jogo não é apenas a produção, mas a própria inteligência que organiza o território.

A engenharia do século XXI não se baseia apenas em concreto, aço e máquinas, mas em dados, modelos digitais, simulações e algoritmos. Os chamados gêmeos digitais, os sistemas BIM e as plataformas de IA passam a concentrar o conhecimento sobre cada obra: seus custos, riscos, impactos ambientais, ciclos de manutenção e decisões de projeto. Quem controla esses sistemas controla a infraestrutura.

Por isso, a Assembleia Permanente pela Soberania Nacional, instalada em setembro de 2025, no Clube de Engenharia do Brasil, defende que a transição tecnológica da engenharia brasileira deve ser conduzida sob uma lógica de soberania, interesse público e autonomia nacional.

Isso significa afirmar que:

  • Os modelos digitais, dados e gêmeos das obras públicas pertencem à Nação, assim como pertencem as estradas, barragens e edifícios que eles representam.
  • As tecnologias usadas com recursos públicos devem operar sob padrões abertos, auditáveis e interoperáveis, evitando a captura do Estado por plataformas privadas.
  • O papel dos engenheiros e arquitetos não pode ser reduzido a meros “assinadores” de decisões algorítmicas, mas deve evoluir para a governança técnica e ética dos sistemas digitais que projetam o país.
  • O Estado brasileiro, por meio de seus bancos, empresas públicas e agências reguladoras, deve usar seu poder de compra e financiamento para fortalecer um ecossistema nacional de engenharia digital.

A Estratégia BIM BR, já instituída pelo próprio governo brasileiro, oferece um ponto de partida importante. Mas ela precisa ser elevada a uma política de soberania tecnológica, incorporando inteligência artificial, infraestrutura de dados, certificação profissional e governança pública dos sistemas de projeto.

O Brasil não pode aceitar que sua engenharia seja transformada em uma atividade subalterna, dependente de algoritmos que não controla e de plataformas que não respondem ao interesse nacional.

Uma nação que perde o controle sobre como projeta seu território perde também a capacidade de decidir seu futuro.

A Inteligência Artificial pode ser uma poderosa aliada do desenvolvimento.

Mas somente se estiver subordinada ao projeto nacional.

O futuro do Brasil deve ser construído com tecnologia — e com soberania.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados