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César Fonseca

Repórter de política e economia, editor do site Independência Sul Americana

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Sucessão presidencial: China e EUA disputam Brasil em 2026

A luta entre as duas potências para atrair o Brasil já está em curso

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Os presidentes dos Estados Unidos e da China, Donald Trump e Xi Jinping, respectivamente, evidenciaram suas prioridades geopolíticas estratégicas na América Latina, que buscarão implementar em 2026, pelo que prenunciaram ao longo de 2025: ambos desejam o Brasil como parceiro preferencial por se tratar do país latino-americano mais forte economicamente, dotado de riquezas potenciais das quais nem China nem Estados Unidos podem abrir mão para continuar sua luta pela hegemonia internacional.

A luta entre as duas potências para atrair o Brasil já está em curso.

Washington, com sua nova estratégia de segurança nacional, reaviva a Doutrina Monroe para ter maior poder de influência sobre o gigante brasileiro; o tarifaço trumpista demonstrou que os americanos, conforme flexibilidade adotada pelo titular da Casa Branca, cuidam de tratar o Brasil com luvas de pelica, enquanto, por exemplo, baixa o cacete na Venezuela e na Colômbia, com discurso radical, seguido de mobilização militar no Caribe e no Pacífico, para ampliar controle sobre petróleo na região.

O pragmatismo trumpista, ao que se vê, abandonou aquele que esperava ser seu aliado: Jair Bolsonaro; a firmeza da Justiça brasileira, afirmando sua soberania, sintonizada pelo discurso de Lula, nesse sentido, cujo resultado prático é Bolsonaro na cadeia, com pena de 27,3 anos, convenceu Trump de que o líder brasileiro é Lula.

Trump, como denotaram notícias da Casa Branca, explicitou sua realpolitik: disse que gosta de ganhadores, não de perdedores; os Bolsonaro são os perdedores; Lula é o vencedor e, pela realpolitik trumpista, a Casa Branca, com o presidente americano, fez a sua escolha, como os fatos indicam: Lula pode ser o candidato de Trump, com um Congresso dominado pela direita e ultradireita, favorecidas pelas emendas parlamentares de R$ 61 bilhões, de modo a evitar supremacia da esquerda no Legislativo e afogar o presidencialismo constitucional com semipresidencialismo inconstitucional.

Nesse sentido, Trump clarifica a verdade histórica que segue os dois principais partidos americanos – Democrata e Republicano –, em matéria de política externa; o ex-presidente Joe Biden, democrata, apostou em Lula em 2022, barrando tentativa golpista bolsonarista, porque o lulismo, aliado dos democratas nos Estados Unidos, não radicalizou contra as políticas neoliberais emergentes pós-golpe neoliberal pró-americano de 2016, que consolidou políticas privatistas e reformas trabalhistas conservadoras, adequadas aos interesses do capital americano e dos seus sócios no Brasil.

Trump, vitorioso sobre Biden em 2024, embora não tenha dialogado naquele ano com Lula, não se viu ameaçado pelo petismo quanto à retomada da estatização prometida – mas não cumprida – por Lula em campanha eleitoral; esse detalhe, certamente fruto de pressões de Washington, ajudaria na química política que se estabeleceria entre Lula e Trump durante a última reunião anual da ONU, quando ambos levantaram a bandeira branca para discutir o tarifaço; a flexibilidade do protecionismo trumpista produziu novo modus operandi político entre os dois presidentes, cujos resultados, por enquanto, são uma Pax Brasil-EUA, que pode ou não se ampliar, a depender das relações Brasil-China a partir de 2026, pois a prioridade de Trump é afastar a América Latina do BRICS, algo que, certamente, está incomodando o presidente chinês, Xi Jinping.

TENSÃO NO AR: CHINA NÃO ABRE MÃO DA AMÉRICA LATINA - A disputa Xi Jinping–Trump pela América Latina é feroz e tende a se desembocar na disputa presidencial de 2026.

Assim que Trump divulgou a nova Doutrina Monroe, a estratégia de Washington para o século 21, a China publicou também seu documento geopolítico estratégico para a América Latina, reafirmando suas posições das quais não pretende se afastar; Xi Jinping, para tanto, reforçou sua proposição de ampliar a Rota da Seda – projeto chinês de abarcar o mundo com paciência confuciana – e renovou convite a todos para se aproximarem mais da China, inclusive os Estados Unidos, em favor de maratona de cooperação global multilateral.

Xi destacou que os chineses não desistirão da América Latina, e as armas que Pequim utilizará, no plano econômico, já estão dadas: ampliação da oferta monetária global de moeda chinesa, jogando a taxa de juros abaixo de zero, graças à força financeira de que dispõe mediante bancos públicos chineses, comerciais e de investimentos; os EUA não aguentam essa competição; em 2025, a China cresceu 5%, prometendo repetir a façanha, ainda mais ousada, em 2026, com planejamento e projetamento revolucionários, ocupando a América Latina; os chineses, nesse campo, não têm competidores, quando o capitalismo americano está envolvido pelas desconfianças generalizadas decorrentes das formações de bolhas especulativas nos setores de inteligência artificial; o assunto domina as bolsas internacionais no Ocidente em instabilidade aguda, a mobilizar Trump para guerras na América Latina, embora tenha prometido, em campanha eleitoral, não agir mais nesse sentido; certamente, o clima global instável refletirá no Brasil, que está desembolsando R$ 1 trilhão/ano para pagar juros Selic de 15% sobre a dívida pública, com reflexos explosivos no cenário da financeirização especulativa em tempo eleitoral, com virulência desconhecida.

XI ABALA AGRONEGÓCIO NO AMBIENTE DA FINANCEIRIZAÇÃO - Neste início de ano novo, o agronegócio treme de medo com a decisão da China de adotar salvaguardas comerciais quanto à importação da carne brasileira; trata-se de pressão meramente econômica ou aí guarda-se algum conteúdo político, como pressão da China para que o Brasil não se transforme em refém de Washington?

Pequim fixou cota de importação de 1,16 milhão de toneladas anuais, sendo que o que ultrapassar esse limite pagará tarifa de 55%; somada à tarifa normal já existente para exportar carne à China, de 12%, a partir de 2026 até 2028 o agronegócio brasileiro sofrerá tarifa acumulada de 67% (55% + 12%), como preço para continuar exportando 40% da sua produção ao gigante asiático; com a decisão, na virada do ano, imposta pelo Ministério do Comércio da República Popular da China (MOFCOM), o agronegócio perde anualmente 3 bilhões de dólares.

Os agricultores estão abalados diante da retração forçada das performances extraordinárias que se registram na comercialização da carne: em 2025, segundo a ABIEC (Associação Brasileira das Indústrias de Carnes), o Brasil exportou 18 bilhões de dólares, sendo 55% para o mercado chinês, obtendo receita de 9 bilhões de dólares; os números demonstram a dependência do agro em relação à China: em 2024, receita de 5,4 bilhões de dólares; em 2025, 8,02 bilhões de dólares, crescimento de 48%; em toneladas, 1.212.721 para 1.499.508 (+23,6%); isso significa 48% do faturamento total e 42,7% do volume total.

GOVERNO CHINÊS AGITA BRASÍLIA - Xi Jinping, à moda chinesa – paciência confuciana –, dá o seu recado: como Trump, também não abre mão da América Latina e, especialmente, do Brasil, mas faz o seu jogo nada disfarçado, ou seja, avisa, com o tarifaço sobre a carne, que Lula deve ser mais explícito em sua política externa a partir deste ano; o agronegócio, diante da elevada tarifa chinesa, teria à sua disposição, como compensação, abertura do mercado americano à carne brasileira, para evitar prejuízo de 3 bilhões de dólares/ano?

E se Xi Jinping, caso continuem indefinições do governo brasileiro quanto ao BRICS, que Trump quer detonar, resolvesse também diminuir, relativamente, as compras de soja, que começa a ser plantada em toda a região do Oeste, mobilizando bilhões de reais em financiamentos do Banco do Brasil, principalmente?

A dialética de Xi Jinping, que embute também o desejo de que o presidente brasileiro defenda a entrada da Venezuela no BRICS, fica clara: se os Estados Unidos pressionam Lula para deixar o BRICS e a China de lado, Pequim, por sua vez, dá xeque-mate no agronegócio, que representa perto de 35% do PIB nacional.

Em cena, portanto, a disputa do Brasil pelos Estados Unidos e China no ambiente da crise capitalista em que os americanos perdem para os chineses na disputa do mercado global; essa queda de braço, inquestionavelmente, desembocará na disputa eleitoral de 2026.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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