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Sara York

Sara Wagner York (também conhecida como Sara Wagner Pimenta Gonçalves Júnior) é bacharel em Jornalismo, doutora em Educação, licenciada em Letras – Inglês, Pedagogia e Letras Vernáculas. É especialista em Educação, Gênero e Sexualidade, autora do primeiro trabalho acadêmico sobre cotas para pessoas trans no Brasil, desenvolvido em seu mestrado. Pai e avó, é reconhecida como a primeira mulher trans a ancorar no jornalismo brasileiro, pela TV 247

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Suspeição ontológica

A colunista Sara York analisa como a legitimidade de certas presenças é questionada antes mesmo do argumento, em instituições que herdam hierarquias silenciosas

Duda Salabert (Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados)

Há uma experiência recorrente entre pessoas dissidentes em espaços institucionais de escuta que raramente aparece com esse nome, embora seja facilmente reconhecível por quem já passou por ela. Trata-se de algo anterior ao desacordo e é diferente de uma crítica. Chamamos isso de suspeição ontológica.

Não se questiona apenas o argumento apresentado. Questiona-se a legitimidade de quem fala simplesmente por ocupar um lugar que ainda não foi plenamente reconhecido como pertencente aos marcos da cena institucional.

Esse tipo de situação reapareceu com nitidez ontem, durante um concurso público. 

Enquanto a responsável pela condução do processo mantinha o ritmo e a formalidade esperados de sua função, um participante sem atribuição prevista no edital insistia em atravessar sua fala de maneira reiterada. Não era uma divergência técnica. Era um gesto repetido de deslocamento de autoridade, ala sustentou o equilíbrio necessário ao ambiente. Ele insistiu na interrupção como forma de disputa simbólica autorizada pela própria cultura institucional que ainda hesita diante de certas presenças.

A cena não é incomum. Em contextos formais, especialmente quando atravessados por questões de gênero ou por posições consideradas dissidentes, como pessoas trans, travestis, negras, mulheres ou pessoas com deficiência, a autoridade precisa ser reafirmada continuamente por quem a exerce. Não basta ocupar o lugar institucional, é preciso defendê-lo a cada frase. É também nesse terreno que tantas feministas lembram diariamente que a democracia não é um dado estável, mas uma prática cotidiana.

Essa dinâmica ajuda a compreender por que processos de reconhecimento social costumam ser tão desgastantes para determinados sujeitos. Mesmo quando estão dentro das regras, mesmo quando ocupam funções legitimadas por concursos, títulos ou cargos, permanece uma espécie de ruído de fundo. O reconhecimento existe, mas não se estabiliza completamente. A escuta acontece, porém sob tensão.

Recentemente, outro episódio tornou essa estrutura ainda mais visível. As deputadas Duda Salabert e Erika Hilton denunciaram que suas imagens estavam sendo utilizadas em álbuns policiais de reconhecimento de suspeitos. Esses materiais são instrumentos usados para que vítimas identifiquem possíveis autores de crimes. A presença de duas parlamentares eleitas democraticamente nesse tipo de lista não é um detalhe técnico, mas um sinal grave de como identidades dissidentes ainda podem ser deslocadas simbolicamente para zonas de suspeição institucional.

Não se trata apenas de um erro administrativo, trata-se de um gesto que comunica algo mais profundo sobre quem continua sendo percebido como pertencente e quem permanece sendo tratado como exceção. A pesquisadora Matheux Shwartzmann (UNESP) afirma que "nossas experiências […] fornecem um contexto valioso para compreender a dinâmica de poder e da diversidade humana."

Quando a palavra é interrompida de modo recorrente, quando a autoridade precisa ser reafirmada a cada intervenção, quando imagens públicas legitimadas pelo voto aparecem associadas a circuitos de suspeição policial, o que se revela já não pertence ao plano estritamente individual. Estabelece aqui um padrão relacional que atravessa instituições e produz efeitos concretos sobre a experiência democrática.

Diante de situações assim, reconheço em mim uma escolha consciente. Prefiro recuar para não ferir na maioria dos casos. Afinal, até para reiterar nossos direitos, esse movimento ainda é feito sob culpa. É como se meu direito de me defender fosse menor que do outro em me atacar com sua ação passiva-agressiva. Mas, para mim, esse gesto preserva uma forma de equilíbrio possível e responsável. A insistência de um homem em atravessar a fala de uma mulher em posição institucional, sobretudo em ambientes regulados por regras claras, não pode ser reduzida a um problema de etiqueta. O que se manifesta ali é uma resistência ao reconhecimento de determinadas posições como legítimas. Esse tipo de gesto produz efeitos cumulativos. Desgasta, fragiliza os ambientes de escuta e desloca situações técnicas para o terreno de disputas simbólicas expostas, muitas vezes constrangedoras para todos os envolvidos.

Talvez seja por isso que tantas pessoas descrevem as lutas por reconhecimento como experiências longas e exaustivas. Não se trata apenas de conquistar espaço, de ter a porta aberta, de sustentar a permanência nesse espaço diante de pequenas interrupções repetidas e, às vezes, diante de enquadramentos institucionais que ainda insistem em transformar presença em suspeita.

Reconhecer alguém, afinal, não é apenas permitir que fale. É aceitar que sua palavra tenha lugar , que sua forma e caminhada é e pode ser diferente da minha. E esse continua sendo um dos aprendizados mais difíceis para instituições que ainda carregam hierarquias silenciosas herdadas de outras épocas.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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