Tarcísio terá com a Sabesp o pulso firme que Lula teve com a Enel?
A crise com a Enel não expôs apenas a fragilidade do sistema elétrico
No apagar das luzes de 2025, o Governo Lula tomou uma decisão firme e necessária: iniciar o processo de extinção do contrato de concessão com a Enel. A medida veio após mais uma crise grave protagonizada pela companhia, quando um forte vendaval atingiu a cidade de São Paulo, derrubou árvores sobre a fiação aérea e deixou milhares de pessoas sem energia elétrica por dias seguidos. Mais uma vez, famílias ficaram no escuro, com alimentos estragando em geladeiras que não funcionavam. O comércio parou e serviços essenciais foram comprometidos.
A decisão do governo federal mostrou pulso firme e reafirmou um princípio básico que vem sendo sistematicamente atacado no Brasil: o interesse público deve estar acima do lucro privado. A extinção de um contrato de concessão não é um gesto trivial. Trata-se de uma medida extrema, prevista em lei, adotada apenas quando a concessionária descumpre reiteradamente suas obrigações e demonstra incapacidade de prestar um serviço adequado à população.
No caso da Enel, os fatos falam por si. Falhas recorrentes, respostas lentas, ausência de investimentos estruturais e uma incapacidade crônica de lidar com eventos previsíveis, como chuvas intensas durante o Verão, compõem um histórico difícil de contestar.
Mas a crise não expôs apenas a fragilidade do sistema elétrico. Na mesma semana em que milhares de paulistanos ficaram sem luz, multiplicaram-se os relatos de moradores que também estavam sem água. A Sabesp, responsável pelo abastecimento de água e saneamento, também enfrenta problemas graves. A diferença é que, neste caso, a responsabilidade direta recai sobre o Governo do Estado de São Paulo, hoje comandado por Tarcísio de Freitas.
Desde a privatização da Sabesp feita pelo próprio Tarcísio, em julho de 2024, os sinais de deterioração do serviço se acumulam em ritmo acelerado. A lógica do lucro passou a orientar decisões que deveriam ter como eixo central a garantia de um direito básico: o acesso à água e ao saneamento.
Funcionários de carreira, com décadas de experiência e conhecimento técnico acumulado ao longo de mais de 50 anos de trabalhos prestados, foram demitidos. No lugar, proliferaram contratos terceirizados e temporários, fragilizando a estrutura técnica da empresa e comprometendo a capacidade de resposta a emergências.
Os efeitos dessa política já são visíveis. Vazamentos de esgoto sem tratamento foram registrados em diferentes regiões do Estado, expondo falhas graves na manutenção do sistema, na fiscalização e no controle ambiental. São problemas que não surgem do nada: são consequência direta da redução de equipes, do enfraquecimento da engenharia interna e da priorização de cortes de custos em detrimento da qualidade do serviço.
As promessas de universalização do saneamento até 2029, repetidas como mantra pelos defensores da privatização, escondem riscos evidentes. Onde o investimento não se paga rapidamente, a tendência é o abandono ou a prestação precária. Comunidades periféricas, áreas rurais e regiões afastadas dos grandes centros correm o risco de ficar em segundo plano. Justamente quem mais precisa de saneamento público pode ser deixado para trás.
Tudo isso se soma ao próprio escândalo que foi o processo de privatização da Sabesp. O governo Tarcísio abriu mão do controle da empresa. A partir desse momento, decisões estratégicas passaram a ser tomadas pela iniciativa privada: cortes de pessoal, planos de expansão, definição de tarifas e prioridades de investimento passaram a obedecer à lógica do mercado, não às necessidades da população.
Agora estamos diante de um risco real de crise hídrica, com os reservatórios operando nos níveis mais baixos dos últimos 10 anos. E a Sabesp tem lidado mal com mais esse problema, impondo uma redução diária de pressão na distribuição da água que chega nas casas. Uma medida que não resolve a crise e, de quebra, penaliza a população mais vulnerável, que vive nas periferias e nas partes mais altas da cidade, onde o abastecimento leva mais tempo para se normalizar.
Fato é que a Sabesp precisa estar preparada para contingências, como o aumento do consumo provocado pelas altas temperaturas ou a redução das chuvas nos reservatórios. Assim como o governador Tarcísio cobra da Enel eficiência no enfrentamento de eventos extremos, como ventanias e chuvas intensas, a Sabesp deve ser igualmente responsabilizada.
Diante desse cenário, a pergunta é inevitável: o governo Tarcísio terá a mesma coragem demonstrada pelo Governo Lula no caso da Enel? Ou seguirá assistindo, de longe, à degradação de um serviço essencial, enquanto a população paga a conta?
O contraste não poderia ser mais evidente. Enquanto o governo Tarcísio de Freitas constrói um discurso coalhado de promessas de eficiência e modernidade, mas age para atender aos interesses do mercado financeiro e da Faria Lima, o presidente Lula demonstra, na prática, compromisso com a população.
Quando a Enel falhou reiteradamente, Lula não hesitou em enfrentar o capital privado e iniciar o rompimento de um contrato que já não servia ao interesse público. Já em São Paulo, diante do colapso da Sabesp, Tarcísio prefere proteger a lógica do lucro e se omitir. Um governa para garantir direitos; o outro governa para agradar investidores . A história, mais uma vez, deixa claro de que lado cada um escolheu estar.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



