Trump e a imoralidade do poder sem limites
A doutrina da força total expõe a verdadeira face do imperialismo estadunidense
Por José Reinaldo Carvalho - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a escancarar o caráter autoritário de sua visão de mundo ao declarar que o exercício de seu poder só poderia ser contido por sua própria “moralidade”. A “moralidade” do imoral.
A afirmação, carregada de arrogância e desprezo por qualquer limite institucional ou jurídico, traduz a pretensão de um governante que se coloca acima das leis, das nações e da própria ordem internacional, como se fosse o árbitro supremo do destino dos povos.
A fala surge em um contexto de agravamento da ofensiva imperialista, marcado por ações e ameaças que incluem a agressão militar à Venezuela, o sequestro do presidente legítimo e constitucional do país, intimidações dirigidas à Colômbia, ao México e Cuba, tentativa de anexação da Groenlândia, ameaça de incorporação do Canadá e de expropriação do Canal do Panamá. O confisco de uma embarcação em águas internacionais que transportava petróleo à Rússia e o anúncio da retirada dos Estados Unidos de dezenas de organismos internacionais, compõem o quadro de ações abusivas dos últimos dias. O fio condutor é inequívoco: a substituição do direito pela força bruta, da democracia do multilateralismo pelo poder total imperialista.
A escalada de Trump está longe de ser episódica ou retórica. Ela expressa uma orientação estratégica que tende a se aprofundar, impondo às forças progressistas do mundo a necessidade de abandonar qualquer ilusão alimentada pela demagogia eleitoral e enfrentar a política externa efetivamente em curso. É dessa análise concreta que devem emergir as estratégias e táticas capazes de responder às grandes batalhas políticas e sociais que se anunciam.
No centro dessa ofensiva está a camarilha imperialista instalada na Casa Branca, no Pentágono e no Departamento de Estado, que atua guiada pela mais recente Estratégia de Segurança Nacional. Nesse documento, os objetivos de hegemonia global aparecem sem disfarces, sustentando uma doutrina baseada no unilateralismo, na ação militar direta e no desprezo sistemático pelos mecanismos multilaterais. Não há ambiguidades. Ao contrário, é explícita a decisão de impor os desígnios estadunidenses pela coerção.
A marca central da atuação internacional de Trump é a agressividade permanente. O Direito Internacional é tratado como obstáculo descartável; a soberania nacional, como inconveniente a ser violado; e as relações entre Estados são reduzidas à lógica da pressão máxima e da ameaça constante. O uso da força passa a ser apresentado como método regular de política externa.
Embora essa postura possa produzir ganhos imediatos e ocupações momentâneas de espaço geopolítico, ela carrega em si contradições profundas. O isolamento crescente dos Estados Unidos, a ampliação da oposição, ainda que em diferentes intensidades, por parte da maioria dos países e o acirramento de divisões internas são consequências inevitáveis. Essas fissuras atravessam tanto a sociedade civil democrática quanto os próprios setores da ultradireita que compõem o movimento MAGA, revelando a instabilidade do projeto trumpista.
Ao afirmar que seu poder encontra limite apenas em sua própria “moralidade”, Trump reafirma uma concepção autoritária de governança nacional e global, ignorando deliberadamente os freios e contrapesos do sistema político. Não por acaso, no mesmo dia dessa declaração, sofreu uma derrota no Senado, que aprovou resolução restringindo novas ações militares contra a Venezuela. O voluntarismo autocrático esbarra, ainda que parcialmente, em resistências institucionais.
A política do poder ilimitado colide frontalmente com os interesses da maioria das nações, especialmente das grandes e médias potências, e contraria a tendência histórica objetiva de afirmação da multipolaridade. O mundo real já não comporta um centro imperial incontestado, ainda que Washington insista em agir como se isso fosse possível.
Esse poder total, desprovido de qualquer fundamento ético e apartado da realidade, é resultado de um processo prolongado de erosão da governança internacional construída no pós-guerra. Desde a era Bush, com a proclamação de uma “novíssima ordem mundial”, passando pelos governos democratas e seu chamado “multilateralismo assertivo”, o que se viu foi a instrumentalização das instituições internacionais para legitimar guerras, sanções e violações contra povos soberanos.
Agora, sob Trump, essa trajetória atinge um novo patamar. O multilateralismo é abandonado sem subterfúgios, enquanto se combinam sanções econômicas, coerção diplomática e uso seletivo da força, mesmo que isso não implique ocupações militares prolongadas. Princípios elementares como igualdade entre Estados, soberania e não intervenção tornam-se letra morta. O resultado previsível é um período prolongado de instabilidade, marcado por conflitos e choques de grandes proporções.
Diante desse cenário, o contraponto à política de força total de Trump não reside nas ilusões de adaptação à política do imperialismo, sob a falsa concepção de que é possível a moderação deste. A saída para a encruzilhada histórica e o transe em que se encontra a humanidade está na intensificação da luta anti-imperialista em cada país, respeitando suas próprias peculiaridades históricas e sociais, articulada aos esforços pela construção de uma nova governança global baseada na multipolaridade, na soberania dos povos e na cooperação entre as nações.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




