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José Reinaldo Carvalho

Jornalista, editor internacional do Brasil 247 e da página Resistência: http://www.resistencia.cc

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Trump lança manifesto pela tirania global

A retórica de que os Estados Unidos estão “vencendo novamente” expressa uma concepção supremacista das relações internacionais

Trump discursa nos Estados Unidos (Foto: Reuters)

Por José Reinaldo Carvalho - O discurso sobre o Estado da União do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na última quarta-feira (24), foi a reafirmação de um projeto geopolítico que recoloca no centro da estratégia norte-americana a ideia de supremacia política, econômica e militar incontestável.

A retórica de que os Estados Unidos estão “vencendo novamente” expressa uma concepção hegemônica das relações internacionais, segundo a qual a liderança americana deve ser exercida sem amarras institucionais e sem os freios impostos por organismos multilaterais. Trata-se de uma visão que rebaixa o sistema internacional a uma arena de poder bruto, no qual a força substitui a negociação e a imposição substitui o consenso.

Hegemonismo como doutrina

Ao celebrar o ataque militar na Venezuela, seguido do sequestro do presidente legítimo e constitucional Nicolás Maduro e sua esposa, a deputada Cília Flores, reivindicar os bombardeios contra instalações iranianas, reafirmar políticas de bloqueio total contra Cuba e anunciar que será dos Estados Unidos a hegemonia absoluta sobre o hemisfério ocieental, Trump normaliza uma prática que afronta os princípios básicos da autodeterminação e soberania nacionais, da não ingerência, não intervenção e da solução por meios políticos, diplomáticos e do diálogo, dos conflitos internacionais. Esses princípios constituem a espinha dorsal da Carta das Nações Unidas e da governança global para evitar a escalada entre potências.

O hegemonismo defendido no discurso de Trump é uma voz de comando unilateral. A mensagem é que decisões estratégicas continuarão à revelia da comunidade internacional, com base exclusiva nos interesses de Washington. Ao agir dessa forma, os Estados Unidos optam por um modus operandi político arbitrário, visando à concentração e projeção de poder e à imposição dos interesses dos Estados Unidos em detrimento dos demais países.

Quando uma superpotência reivindica para si o direito de desencadear guerras “preventivas”, ações punitivas e intervencionistas, promoção de mudanças de governo sob justificativas próprias, que são na verdade pretextos fabricados, ela fragiliza todos os princípios de convivência internacional que consistem na igualdade soberana entre os Estados. O resultado é um ambiente de insegurança e instabilidade permanentes, o definitivo comprometimento da segurança coletiva e da paz mundial.

O discurso evidenciou, destarte, a ambição de restabelecer a primazia absoluta dos Estados Unidos no sistema internacional. A insistência na ideia de que o país deve ser o centro decisório incontestável revela uma recusa em reconhecer a multipolaridade como fenômeno incontornável. Em vez de adaptar-se a um mundo mais distribuído em termos de poder econômico e político, Trump aposta na restauração de uma ordem centrada exclusivamente em Washington, objetivo impossível porquanto os Estados Unidos, mesmo sendo ainda uma superpotência, vivem um prolongado processo de declínio.

Essa tentativa de impor a supremacia ignora que a estabilidade internacional contemporânea depende de mecanismos de coordenação, de fóruns multilaterais e de respeito a compromissos coletivos. Ao substituir o diálogo por ultimatos e o multilateralismo por suas ações exclusivistas e unilaterais, o presidente dos Estados Unidos enfraquece a já precária arquitetura global que regula comércio, segurança e direitos humanos.

A consequência direta é o aumento da resistência de países e povos que não abrem mão da sua soberania. Assim, o que se apresenta como demonstração de força pode, na prática, acelerar processos de fragmentação e erosão da influência e do poder dos Estados Unidos.

América Latina sob risco

A defesa explícita de hegemonia absoluta no hemisfério ocidental remete a uma tradição intervencionista que marcou profundamente a história do relacionamento dos EUA com a América Latina. Para países como o Brasil, essa perspectiva representa um risco estratégico. A soberania nacional pressupõe autonomia decisória em política externa, econômica e de defesa. Quando uma potência afirma que determinados governos podem ser depostos, isolados ou submetidos a bloqueios totais conforme seus interesses, abre-se um precedente perigoso.

Além disso, sanções e bloqueios unilaterais têm efeitos humanitários e econômicos profundos, muitas vezes penalizando populações inteiras. A utilização desses instrumentos como ferramentas políticas amplia a instabilidade regional e compromete iniciativas de integração e cooperação sul-americana.

Por uma nova governança global

A estratégia de Trump evidencia a agonia da ordem internacional e objetivamente põe na ordem do dia para aqueles que não se submetem, a tarefa urgente de soerguer uma nova. O uso da força, seja por meio de bombardeios ou de sanções e bloqueios, enfraquece mecanismos de solução pacífica de controvérsias. Ao priorizar demonstrações de poder militar como instrumento de política externa, a administração Trump desloca o centro da diplomacia para o campo da coerção.

Ao celebrar ações unilaterais como provas de eficiência e ao desconsiderar instâncias coletivas de decisão, o discurso de Trump sinaliza uma visão de mundo em que a força substitui o direito. Em um contexto global marcado por tensões regionais, disputas comerciais e desafios transnacionais, a aposta na supremacia absoluta e na hegemonia incontestada não apenas isola os Estados Unidos, mas amplia o risco de confrontos prolongados.

O pronunciamento de Donald Trump no Congresso, ao reafirmar ambições de domínio e ao negar os princípios da governança global, expõe uma visão estratégica que privilegia a imposição sobre a cooperação. Em vez de fortalecer a estabilidade internacional, esse caminho tende a aprofundar divisões, enfraquecer instituições multilaterais e colocar em xeque a própria ideia de uma ordem internacional regida por regras compartilhadas.

Realidade contradiz otimismo econômico

No plano interno, Trump dedicou parte significativa do pronunciamento à economia, prometendo prosperidade, redução de preços e expansão do emprego. Ele citou indicadores como o desempenho do mercado de ações, a produção de petróleo e a queda pontual de determinados produtos para sustentar a narrativa de sucesso.

Contudo, dados oficiais mostram que a inflação subiu no último ano, que a geração de empregos foi modesta e que setores industriais perderam postos de trabalho. Pesquisas indicam que a maioria dos eleitores desaprova a condução da economia. O custo de vida segue elevado, afetando principalmente famílias que não se beneficiam diretamente dos ganhos do mercado financeiro.

A discrepância entre o discurso triunfalista e a percepção popular revela uma desconexão crescente entre a retórica presidencial e a realidade cotidiana. O crescimento econômico, quando concentrado em indicadores financeiros, não se traduz automaticamente em melhoria das condições sociais.

Política anti-imigrantes

Trump também reafirmou com ênfase uma agenda dura contra a imigração, destacando crimes cometidos por estrangeiros e associando imigração à insegurança. Ele omitiu controvérsias e conflitos envolvendo operações de agentes federais e críticas às deportações em massa.

A política anti-imigrantes, além de dividir a sociedade, contribui para a estigmatização de comunidades inteiras e ataca princípios fundamentais de direitos humanos. A exploração de casos individuais para justificar medidas generalizadas amplia a polarização e enfraquece o debate racional sobre reformas migratórias.

Polarização e fragilidade institucional

O tom do discurso evidenciou ainda o grau de polarização política nos Estados Unidos. Ao classificar adversários como “loucos” e acusar adversários de destruírem o país, Trump aprofundou a retórica de confronto interno.

Este cenário aponta para riscos de crises institucionais e conflitos políticos internos, sobretudo em um contexto eleitoral sensível. A retórica que questiona adversários como inimigos da nação corrói a confiança nas instituições.

O discurso sobre o Estado da União expôs um projeto de poder que combina ambição hegemônica externa com polarização interna. Ao apostar na força como instrumento central de política externa e na confrontação como método de política interna, o presidente dos Estados Unidos aprofunda incertezas em um momento em que o mundo demanda cooperação, estabilidade e respeito às normas internacionais.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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