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João Lister

Advogado, graduado pelo UNIUBE – Universidade de Uberaba, Pós Graduado MBA, em Direito Empresarial pela FGV e psicanalista

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Trump, o fanfarrão!

Retórica inflada, distorção de fatos e bravatas militares expõem um estilo de poder que transforma crise em espetáculo e aprofunda o declínio dos Estados Unidos

Presidente dos EUA, Donald Trump 31/03/2026 (Foto: REUTERS/Evan Vucci)

Donald Trump não é apenas um político agressivo, vulgar e autoritário. Ele é, antes de tudo, um fanfarrão. E isso não é mero traço de personalidade, daqueles que se anotam como folclore de um líder histriônico. É um método de poder. Trump governa pela bazófia, pela frase inflada, pelo anúncio espalhafatoso, pela mentira repetida com convicção de vendedor de feira. Sua política externa, sua relação com a verdade e sua prática de governo se organizam em torno dessa lógica: falar grosso, prometer o impossível, reescrever o que aconteceu e tentar converter desastre em façanha.

É assim que ele se apresenta ao mundo: como o homem que vence sempre, que humilha adversários, que “faz a América voltar a ganhar”, que dobra a realidade ao tamanho de seu ego. O problema é que a realidade, mais cedo ou mais tarde, cobra. E cobra em sangue, em desmoralização diplomática, em instabilidade econômica e em erosão da já decadente liderança internacional dos Estados Unidos.

A guerra contra o Irã oferece, neste momento, um retrato quase didático desse padrão. Trump vem tentando vender ao público americano e ao mundo a ideia de que Washington está conduzindo uma campanha irresistível, controlada e vitoriosa. Mas os fatos conhecidos até aqui contam outra história. Os próprios relatos da imprensa internacional mostram que aeronaves americanas foram abatidas, que foi necessária uma complexa operação de resgate em território iraniano, que a guerra já matou militares dos EUA, feriu centenas e espalhou instabilidade por toda a região, com impactos sobre rotas estratégicas, preços de energia e cadeias de abastecimento globais.

Aqui cabe uma precisão importante, para que a crítica não escorregue para o terreno que o próprio trumpismo habita. Não é correto dizer, simplesmente, que Trump inventou o resgate de pilotos abatidos pelo Irã. Houve, de fato, uma tentativa de resgate — Trump anunciou como sucesso consumado uma versão contestada pelo Irã, em meio a uma guerra cercada de propaganda, contrainformação e alegações sem verificação independente. O que se pode afirmar, com segurança, é algo politicamente mais grave: Trump sequestra um episódio militarmente humilhante — o abatimento de aeronave americana em plena guerra — e o reempacota como prova de superioridade absoluta. Ou seja, ele toma um fato real, mas o insere numa narrativa fraudulenta de triunfo, ocultando perdas, riscos, contradições e a ausência de desfecho estratégico claro.

E isso não é “contra-informação” no sentido sofisticado do termo. Guerra de informação existe. Operações de dissimulação existem. Estados manipulam a percepção em conflitos há séculos. Mas o que Trump faz frequentemente passa ao largo até mesmo dessa lógica. Não se trata de uma estratégia coerente para confundir o inimigo; trata-se, antes, de uma compulsão propagandística para consumo interno. Quando ele muda metas, exagera resultados, decreta vitórias antes da hora e infla números sem sustentação, ele não mostra força. Ele passa recibo de que mente. A Reuters mostrou que as metas declaradas de Trump para a guerra foram mudando ao longo do conflito, enquanto a Associated Press registrou novas falas falsas ou enganosas do presidente sobre economia, investimentos, inflação e até os próprios resultados no Irã.

Esse padrão é antigo. Seu primeiro mandato já havia sido marcado por uma avalanche permanente de falsidades e distorções, culminando no delírio golpista sobre a eleição de 2020. O saldo político daquele período foi um país mais polarizado, mais violento e mais desestabilizado. A Reuters resumiu aquele legado como o de uma América mais dividida e de um mundo mais intranquilo. A invasão do Capitólio, estimulada por sua mentira sobre fraude eleitoral, chocou o mundo e corroeu, por dentro, a fantasia americana de superioridade institucional.

No plano doméstico, o fanfarrão sempre precisou da mentira como oxigênio. Mentiu sobre a gravidade da pandemia em seu primeiro mandato. Mentiu sobre a eleição. Mentiu reiteradamente sobre economia, imigração, tarifas e violência política. Já em seu novo mandato, voltou a produzir discursos recheados de alegações falsas ou enganosas, segundo checagens da AP, insistindo numa retórica de feitos extraordinários e vitórias totais que os dados não confirmam. Seu estilo não é o do governante que presta contas; é o do animador de auditório que precisa manter a plateia em estado permanente de excitação.

Na política internacional, isso se torna ainda mais perigoso. Um presidente falastrão, à frente da maior máquina militar do planeta, não produz apenas ruído; produz cadáveres. Porque a bravata, quando acoplada ao poder imperial, converte-se em bombardeio, sanção, desestabilização regional e chantagem diplomática. Na guerra contra o Irã, as consequências já aparecem de maneira brutal: milhares de mortos, risco de crimes de guerra, ataques à infraestrutura civil, desorganização humanitária, alta do petróleo, encarecimento de alimentos e remédios e tensão crescente entre Washington e aliados tradicionais. AP e Reuters relatam que a guerra vem afetando rotas essenciais, agravando a crise humanitária e produzindo o maior choque recente de oferta de petróleo, enquanto a própria retórica de Trump tem inquietado parceiros e aprofundado o isolamento dos EUA.

É aqui que entra o pano de fundo histórico mais amplo: o declínio dos Estados Unidos como potência imperial incontestada. Trump não inventou esse declínio. Ele é seu sintoma mais escandaloso. A antiga hegemonia americana, que combinava força militar, influência diplomática, centralidade econômica e capacidade de produzir consenso ideológico, já vinha se rachando havia anos. Guerras fracassadas, financeirização predatória, desigualdade brutal, crise de legitimidade interna e emergência de novos polos de poder corroeram o mito do império benevolente. Trump aparece como o bufão de fim de festa dessa ordem em decomposição: grita mais alto justamente porque já não consegue convencer como antes.

Seu fanfarronismo é, nesse sentido, a linguagem política do império cansado. Quando os fatos não correspondem à retórica de supremacia, dobra-se a aposta na retórica. Quando a autoridade real encolhe, infla-se a encenação. Quando aliados vacilam, ameaça-se mais. Quando o mundo percebe a perda de comando, intensifica-se a propaganda. O problema é que esse expediente acelera aquilo que pretende esconder. Um presidente que ofende aliados, ameaça infraestruturas civis com palavrões em rede social, muda objetivos de guerra ao sabor do noticiário e vende bravata como doutrina estratégica não reafirma a liderança global dos EUA; ele a corrói por dentro.

Há ainda um dano moral profundo. O trumpismo transforma morte em espetáculo. Toda tragédia vira oportunidade para autopromoção. Todo conflito vira palanque. Todo sofrimento alheio vira cenário para posar de “comandante decisivo”. Esse mecanismo desumaniza o debate público e empurra o mundo para uma zona em que a guerra deixa de ser apresentada sequer como horror necessário e passa a ser comercializada como performance de macho alfa. O presidente não fala como um estadista que mede consequências humanas; fala como um apresentador de reality show que precisa entregar audiência.

Por isso, chamar Trump de fanfarrão não é xingamento vazio. É definição política. Fanfarrão é aquele que alardeia poder acima de sua real capacidade, que vende coragem para esconder imprudência, que troca responsabilidade por teatro. E, no caso de Trump, a fanfarronice não é risível: é letal. Ela mata no Oriente Médio, desorganiza economias, incentiva extremismos, sabota a diplomacia, absolve golpistas e rebaixa ainda mais a qualidade moral da vida pública americana. Em janeiro de 2025, por exemplo, ele concedeu clemência em massa a mais de 1.500 envolvidos nos crimes de 6 de janeiro — a invasão do Capitólio —, corroendo ainda mais a mensagem de que a violência política contra a democracia deve ser contida, e não premiada.

O mundo já conhece esse personagem. No primeiro mandato, ele espalhou mentiras em escala industrial e deixou para trás um país mais dividido, mais violento e mais descrente de si mesmo. No segundo, com ainda menos freios e mais apetite por confronto, ele reedita a mesma lógica em escala ampliada: exagera vitórias, falseia números, simplifica guerras complexas e vende morte como demonstração de força. Não é líder de uma América grandiosa. É o animador histérico de um império em desgaste.

Trump é, sim, um fanfarrão. Mas não daqueles que apenas envergonham um salão. É dos que arrastam povos inteiros para a conta de suas mentiras.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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