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Francisco Calmon

Ex-coordenador nacional da Rede Brasil – Memória, Verdade e Justiça; membro da Coordenação do Fórum Direito à Memória, Verdade e Justiça do Espírito Santo. Membro da Frente Brasil Popular do ES

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Um ano de governo imperial

O mundo ainda não encontrou o combustível ou a arma eficaz para frear a máquina de guerra e de expansionismo de Donald Trump

Donald Trump (Foto: Daniel Torok/Casa Branca)

A multiplicação da força pela velocidade (\(P=F\cdot v\)) gera Potência. É a fórmula que faz o mundo tremer. Pois, força os Estados Unidos da América do Norte têm, e o trumpismo é a velocidade acelerada.

A lei do mais poderoso é a lógica implementada pelo imperialismo fascista do Trump. O teatro de faz de contas das regras internacionais e a peça bufa da ONU acabaram. A hipocrisia e o cinismo foram desmoralizados. A equação é simples: força mais velocidade, igual a potência

O ególatra narcisista completou um aninho no comando da plutocracia estadunidense. 

Mereceria, no rigor simbólico, um bolo de enxofre e um espumante de sangue para compor a mesa que foi este um ano de barbárie projetada sobre o mundo.

A verdade cruel é de que, quem cede, se flopa. Quem resiste, negocia. Esta é a lição que a realidade vem impondo diante da megalomania fascista do autocrata que se assenhoreou do Salão Oval. 

O primeiro ano de seu segundo mandato consolida uma administração de agressão contínua, onde a diplomacia tradicional é desprezada em favor da força bruta e

de rituais de humilhação imposto às nações alheias. 

Isto ficou escancarado no episódio do sequestro do presidente Nicolás Maduro, um ato de agressão gravíssimo contra a soberania de um Estado. As grandes potências limitaram-se a declarações tímidas, sem contundência.

 O mundo ainda não encontrou o combustível ou a arma eficaz para frear a máquina de guerra e de expansionismo de Donald Trump, seja para negociar com ele, seja para detê-lo antes de novos sequestros ou anexações, como as propostas abertamente feitas sobre a Groenlândia e a Venezuela.

Sua proposta de um "Fórum da Paz" é, na verdade, mais uma etapa do seu projeto de domínio global unilateral. Em vez de reformar e fortalecer a Organização das Nações Unidas, organismo que, como qualquer ser vivo, precisa de fortalecimento quando enfermo, a estratégia é matá-la por asfixia. 

É uma jogada calculada para desmantelar o multilateralismo e conter, sobretudo, o avanço econômico e político da China. 

O simbolismo degradante desse poder foi exposto cruamente na reunião de agosto passado, quando diversos líderes mundiais foram postados à mesa como subordinados, não como chefes de Estado, ouvindo "orientações" do autoproclamado chefe maior – Heil Trump!

 A Europa ajoelhava-se aos seus pés. A imagem de presidentes e chanceleres enfileirados na Sala Oval foi humilhação pública para agradar o ego de Trump. 

Aproveitando-se da inoperância da ONU, Trump manipulou uma resolução do Conselho de Segurança para criar um protetorado pessoal sobre Gaza, a ser chefiado por ele até 2027. Esse foi o pretexto para oficializar seu "Conselho de Paz", um órgão destinado a substituir as Nações Unidas e institucionalizar a “moralidade” estadunidense como lei global.

A gestão trumpista está forçando ao mundo a sua “lei do mais forte”.

Este conselho, cujas regras internas são secretas, já conta com a adesão de mais de vinte países. As principais potências, até então, resistem. O Brasil declinou do pedido e não participará, diminuindo a naturalização desse esdrúxulo grupo.

O desafio que se coloca para o mundo é justamente como construir um sistema de cooperação capaz de fazer frente a essa força bruta fascista institucionalizada, enquanto os governos hesitam entre a repulsa e o medo das retaliações.

Por outro lado, dentro dos próprios Estados Unidos, o descontentamento fermenta e explode para as ruas. O primeiro ano deste mandato tem sido marcado por políticas de perseguição a imigrantes e de desmonte social, que gerou uma onda de protestos, cuja atuação das policiais mais e mais se assemelham as milicias nazistas. 

Mobilizações como a "Liberdade para a América" e os históricos "No Kings" são a resposta civil à ascensão da barbárie institucional. O assassinato de cidadãos como Renee Good por agentes do ICE é a materialização do intuito destrutivo e assassino da política da gestão Trump.

Pesquisas indicam que 59% da população desaprova o seu governo, sentindo o agravamento concreto de suas condições de vida.

 Ameaças vagas de invocar a Lei de Insurreição contra manifestantes mostram até onde pode ir a escalada autoritária. Mas Trump esquece que no momento que o povo decidir dar o basta final, a guerra civil pode vir a ser vai ser instaurada nas terras estadunidenses, guerra essa que a sua ignorância não o permite enxergar que, cedo ou tarde, irá perder.

O mundo está diante de um paradoxo perigoso. 

Enquanto as lideranças globais se mostram incapazes de construir freios efetivos ao projeto hegemônico e predatório de Trump, cedendo à teatralidade da submissão, a resistência popular ganha corpo. Ainda é incipiente e não deveria se restringir aos estadunidenses, a juventude e os amantes da paz carecem de formar uma corrente contra o imperialismo fascista do trumpismo.

Em 1968 conseguimos um feito internacionalista, oxalá em 2026 a juventude de hoje com a de ontem consiga novo feito.

Quanto ainda da soberania dos povos e da paz mundial precisarão ser sacrificadas no altar desse imperialismo narcisístico antes que uma reação multilateral, verdadeiramente forte e coordenada, surja? 

Quem pode parar o Trump?

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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