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Silvio Almeida

Ex-ministro dos Direitos Humanos

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Um bom presidente

Trump talvez seja a melhor representação do que são Estados Unidos desde Reagan

Donald Trump - 13/08/2025 (Foto: REUTERS/Kevin Lamarque)

Donald Trump, por vezes, é descrito como uma anomalia política, um corpo estranho que teria violado a tradição liberal e democrática dos Estados Unidos. Essa narrativa é confortável, mas enganosa. Ela permite preservar a imagem mítica do liberalismo americano como horizonte moral da política mundial, transferindo para Trump aquilo que, na verdade, constitui a espinha dorsal do poder norte-americano.

Trump não é uma exceção. Trump é, sob critérios históricos, um bom presidente dos Estados Unidos. Talvez o melhor desde Ronald Reagan, coincidentemente ou não, também um homem oriundo do mundo do espetáculo e do entretenimento. Trump é um bom presidente porque cumpre a função que o sistema político americano exige de seus presidentes em momentos de crise: defender, sem ambiguidades, os interesses nacionais. E esses interesses nunca foram os de um povo abstrato, mas os do grande capital, dos grandes proprietários e do complexo financeiro-industrial-militar que sustenta essa ordem desde a fundação do Estado.

Em suma: ser um bom presidente dos Estados Unidos significa, na maioria das vezes, jogar o restante da humanidade no inferno.

A história americana é pródiga em exemplos.

Thomas Jefferson, celebrado como liberal e iluminista, expandiu o território dos Estados Unidos com a Compra da Luisiana e consolidou uma economia baseada na escravidão, da qual era beneficiário direto. Andrew Jackson, herói popular e símbolo da democracia americana nascente, promoveu a expulsão violenta de povos indígenas para garantir terras aos grandes proprietários do Sul.

No século XX, quando os Estados Unidos se afirmam como potência global, o padrão se torna ainda mais nítido. Woodrow Wilson, frequentemente lembrado como idealista e defensor da autodeterminação dos povos, invadiu o México, ocupou o Haiti, a República Dominicana e a Nicarágua, além de ter instituído a segregação racial formal no funcionalismo federal. O liberalismo internacionalista jamais impediu a violência imperial; apenas a revestiu com uma linguagem moralista.

Franklin D. Roosevelt, talvez o presidente mais celebrado da tradição progressista americana, implementou o New Deal, mas jamais rompeu com o grande capital. O pacto social interno reorganizou o capitalismo americano e foi viabilizado por uma combinação de industrialização acelerada, economia de guerra e projeção internacional de poder. Ao mesmo tempo, Roosevelt autorizou o confinamento em massa de cidadãos japoneses-americanos durante a Segunda Guerra Mundial. Quando a segurança do Estado e os interesses estratégicos estiveram em jogo, o liberalismo cedeu sem hesitação.

No pós-guerra, a lista se alonga. Truman lançou bombas atômicas sobre populações civis. Eisenhower, general respeitado e moderado, patrocinou golpes de Estado no Irã e na Guatemala para proteger interesses petrolíferos e agrícolas. Kennedy autorizou a invasão da Baía dos Porcos. Johnson, enquanto aprovava a legislação dos direitos civis, intensificava a guerra do Vietnã. A política racial interna avançava apenas até onde não ameaçava a estrutura do poder econômico e geopolítico.

Mesmo presidentes recentes, frequentemente apresentados como antítese de Trump, obedeceram à mesma lógica. Bill Clinton aprofundou a financeirização da economia, desmontou políticas de proteção social e apoiou um modelo penal que devastou comunidades negras. Barack Obama, símbolo do liberalismo cosmopolita, expandiu o uso de drones, interveio na Líbia, aprofundou a presença militar no Oriente Médio e manteve intacto o núcleo financeiro associado à crise de 2008. O tom era civilizado; o conteúdo, estruturalmente idêntico.

Jimmy Carter foi, possivelmente, o único presidente dos Estados Unidos que tentou levar a sério a agenda dos direitos humanos como princípio efetivo da política externa, e não apenas como retórica instrumental. Ao buscar condicionar alianças, ajuda econômica e apoio militar ao respeito a direitos fundamentais, Carter introduziu limites reais à ação imperial americana. O resultado foi imediato: passou à história política interna como um presidente fraco, moralista e incapaz de liderar o país em um mundo hostil, não foi reeleito e saiu do poder derrotado. Sua experiência funcionou como advertência. Não por acaso, o governo que se seguiu foi o de Ronald Reagan, marcado pela restauração explícita da linguagem da força, pelo apoio a ditaduras “amigas” e pela reafirmação do excepcionalismo americano. Nos Estados Unidos, preocupar-se genuinamente com direitos humanos costuma ser interpretado não como virtude, mas como fraqueza, sobretudo quando essa preocupação ameaça os interesses estratégicos do grande capital e do poder global americano.

É nesse contexto que a política externa de Trump deve ser compreendida. A escalada contra a Venezuela não tem relação substantiva com narcotráfico, criminalidade organizada ou defesa da democracia, a não ser como linguagem pública instrumental. Se esse fosse o critério, os Estados Unidos teriam de intervir em inúmeros países aliados.

Em janeiro de 2026, essa lógica foi levada ao paroxismo. Como reportado por veículos de referência, o governo Trump autorizou uma ofensiva militar contra a Venezuela e vinculou a operação à narrativa penal de “narcoestado”, culminando no sequestro de Nicolás Maduro e em sua transferência aos Estados Unidos para responder a acusações de narcotráfico perante a jurisdição federal em Nova York. Não é necessário sequer discutir aqui o quanto a acusação é ou não “plausível” em termos probatórios, porque o ponto político é anterior: a “guerra às drogas” aparece como gramática seletiva para enquadrar inimigos, produzir legitimidade doméstica e reorganizar a coerção imperial como ato de governo, sem as mediações diplomáticas e sem o verniz multilateral que costumava amortecer o gesto.

O caso de Juan Orlando Hernández expõe a outra face do mesmo mecanismo: a absolvição política de aliados úteis. Ex-presidente de Honduras, extraditado aos Estados Unidos em 2022 e condenado em 2024 por envolvimento direto com o tráfico internacional, acusado de utilizar o próprio Estado hondurenho como plataforma logística do narcotráfico, Hernández recebeu indulto presidencial anunciado em novembro de 2025 e foi libertado em dezembro de 2025. O dado decisivo não é apenas o indulto, mas a mensagem estatal que o acompanha: a acusação de narcotráfico não é um padrão moral universal, e sim um dispositivo estratégico, acionado para punir adversários e neutralizar governos incômodos, enquanto protege e recicla aliados quando convém. O fato foi objeto de análise oficial e controvérsia no próprio Congresso, como registra um Insight do Congressional Research Service sobre o perdão presidencial e suas implicações. (CRS: https://www.congress.gov/crs-product/IN12621)

A Venezuela é alvo não por aquilo que faz, mas pelo que vale. O país concentra as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, ocupa posição estratégica no Caribe e na América do Sul e se tornou ponto sensível na disputa global entre Estados Unidos, China e Rússia. O que está em jogo é energia, controle de recursos naturais, recomposição da hegemonia regional e bloqueio de áreas de influência rivais.

Do ponto de vista jurídico, estamos diante de violação aberta ao direito internacional. A Carta das Nações Unidas, em especial seu artigo 2º, parágrafo 4º, restringe o uso da força a casos de legítima defesa ou a ações autorizadas pelo Conselho de Segurança. Nada disso se aplica à Venezuela. Mas a legalidade internacional jamais foi limite real ao poder americano; sempre funcionou como instrumento seletivo, mobilizado conforme a conveniência do capital e do Estado.

Essa lógica externa se articula organicamente com a política interna de Trump. Aqui também ele não rompe com a tradição; ele elimina suas mediações. Durante décadas, os Estados Unidos sustentaram uma contradição administrada: um capitalismo profundamente desigual convivia com universidades críticas, políticas de diversidade, imprensa relativamente plural e direitos civis formais. Esse arranjo funcionava como amortecedor, permitindo crítica controlada sem ameaça estrutural.

Em momentos de crise hegemônica, esse equilíbrio se torna disfuncional.

A política interna de Trump é um freio de arrumação autoritário. O ataque às universidades, às políticas de ação afirmativa, às minorias raciais e sexuais, à imprensa e à produção científica não é desvio cultural nem capricho ideológico. É engenharia política. Reduzem-se focos de contestação, enfraquece-se a produção de pensamento crítico e constrói-se um bloco interno mais homogêneo, racialmente hierarquizado e politicamente disciplinado.

Trump compreende algo que os liberais insistem em ocultar: impérios em crise não toleram excesso de pluralismo. Para projetar força externa, é preciso reduzir fricção interna. Para defender o grande capital em escala global, torna-se necessário reorganizar o consentimento em torno da hierarquia e da força.

Por isso, sua política racial não é acessória. Ao prometer preservar a posição simbólica do homem branco numa sociedade em transformação, Trump oferece pertencimento em troca de obediência. Talvez o futuro econômico seja incerto, mas a hierarquia social será mantida. Essa é a moeda política que sustenta tanto sua base quanto sua política externa agressiva.

Trump governa sem hipocrisia liberal. Ele faz aquilo que presidentes americanos sempre fizeram quando o jogo endurece: coloca os interesses estruturais do grande capital acima do direito, a força acima da norma e a hierarquia acima da democracia substantiva.

Trump é produto legítimo de uma tradição. Uma tradição que se manifesta com elegância liberal em tempos de estabilidade e de forma brutal em tempos de crise. Nesse sentido estrito, histórico e amoral, Trump é, sim, um bom presidente. Não porque seja virtuoso, mas porque tem cumprido, com notável eficiência, a função que o sistema político dos Estados Unidos exige de quem ocupa a Casa Branca.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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