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José Luis Oreiro

Professor Associado do Departamento de Economia da Universidade de Brasília. Pesquisador Nível IB do CNPq, Membro Senior da Post Keynesian Economics Society e Líder do Grupo de Pesquisa Macroeconomia Estruturalista do Desenvolvimento

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Uma Europa dividida diante do Martelo e da Bigorna

Entre a perda de autonomia e o enfraquecimento, o continente é pressionado a decidir se seguirá fragmentado ou avançará rumo a uma unificação política efetiva

Bandeiras da União Europeia tremulam do lado de fora da sede da Comissão Europeia em Bruxelas, Bélgica, em 10 de abril de 2019 (Foto: REUTERS/Yves Herman)

Por José Luis Oreiro e Jesús Ferreiro Aparício

O fim da Segunda Guerra Mundial na Europa parecia representar o declínio econômico e político dos países europeus no mundo. As economias da Alemanha, França, Itália e Reino Unido saíram devastadas do conflito. A Europa Ocidental, que dominou o destino do mundo por quase 500 anos, enfrentava a dupla tarefa de reconstruir sua economia enquanto tentava conter o expansionismo da União Soviética, que ameaçava sua independência e soberania. O futuro da Europa não parecia muito promissor naquela época.

As lições aprendidas com os erros cometidos na Primeira Guerra Mundial, o surgimento da Revolução Keynesiana no pensamento econômico e o surgimento dos Estados Unidos como a maior potência econômica e política do planeta contribuíram para a formação de uma nova ordem mundial baseada no multilateralismo, no respeito ao direito internacional e na autodeterminação dos povos, na redução gradual das barreiras comerciais e no estabelecimento do consenso social-democrata de cooperação entre o Estado, empresas e sindicatos. Nesse contexto, os países da Europa Ocidental, especialmente França, Alemanha e Itália, não apenas conseguiram reconstruir suas economias, mas também apresentaram altas taxas de crescimento do PIB e da produtividade do trabalho nos 30 anos seguintes, o que lhes permitiu reduzir consideravelmente a diferença em relação aos Estados Unidos.

Um elemento decisivo para a prosperidade da Europa nos Trinta Gloriosos anos (1945–1975) foi a criação, por França, Itália, Alemanha Ocidental, Bélgica, Holanda e Luxemburgo, da Comunidade Econômica Europeia (CEE), pelo Tratado de Roma, em 1957, com o objetivo de formar um mercado europeu comum, promovendo a livre circulação de mercadorias, serviços, pessoas e capital entre seus membros, e fortalecer a cooperação econômica e a paz na Europa do pós-guerra, sendo o embrião da atual União Europeia (UE).

A CEE foi impulsionada pela aliança política entre a Alemanha, governada por Konrad Adenauer, e a França, governada por Charles de Gaulle. Embora nunca explicitamente declarado, o objetivo final da CEE era promover a futura unificação política da Europa, criando, assim, uma potência econômica e política global, capaz de enfrentar tanto os Estados Unidos quanto a União Soviética. Esse processo deveria ocorrer, nas palavras de Charles de Gaulle, com a “França de cocheiro e a Alemanha de cavalo”, ou seja, sob a primazia política da França e a liderança econômica da Alemanha.

A entrada do Reino Unido na CEE, em 1973, e a queda do Muro de Berlim, em 1989, com a consequente dissolução da União Soviética, em 1991, acabaram interrompendo o processo de unificação política da Europa. A entrada do Reino Unido, uma economia em relativo declínio em comparação com França e Alemanha, mas ainda de tamanho significativo, serviu como um contraponto importante à liderança econômica alemã. Além disso, a “relação especial” do Reino Unido com os Estados Unidos introduziu na CEE um ator que claramente não tinha interesse em abrir mão de sua soberania em favor do projeto maior de uma Europa unificada. A queda do Muro de Berlim e a dissolução da União Soviética, por sua vez, eliminaram o “perigo vermelho” nas fronteiras orientais da Europa, permitindo, assim, uma redução significativa nos orçamentos militares dos países europeus. O “dividendo da paz” eliminou a urgência e a necessidade de uma unificação política da Europa no horizonte temporal previsível.

Com a viabilidade da unificação política no curto e médio prazos eliminada, o projeto europeu se aprofundou com a criação do euro, cujas bases foram lançadas pelo Tratado de Maastricht, em 1992. A ideia por trás da criação do euro era que, uma vez que os Estados europeus tivessem uma moeda comum, a unificação política seria o resultado inevitável do processo crescente de unificação econômica.

A crise financeira internacional de 2008 e a crise do euro, em 2012, deixaram clara a insustentabilidade de uma moeda comum que não fosse respaldada pela existência de um processo de crescente integração política em um Estado soberano.

Mas o euro sobreviveu a esses choques tectônicos graças a uma combinação de políticas de austeridade fiscal em nível nacional e a uma política monetária fortemente expansionista em nível europeu, conduzida pelo Banco Central Europeu durante a administração de Mario Draghi.

A sobrevivência do euro veio às custas da prosperidade da Europa. Se até 2008 a economia da União Europeia (UE) era a maior do mundo, superando em muito a economia dos Estados Unidos, tanto em dólares correntes quanto em paridade de poder de compra, nos 15 anos seguintes a estagnação da economia da UE permitiu que a economia dos Estados Unidos superasse a economia europeia em ambos os critérios de medição.

A invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, reacendeu os temores sobre a segurança das fronteiras orientais da UE. Embora a economia da UE seja muito maior que a da Rússia, a desindustrialização das economias europeias, acentuada após a crise financeira internacional de 2008, minou a capacidade do complexo industrial de defesa europeu, que, sem o apoio militar dos EUA, não pode lidar com o complexo militar-industrial russo no curto e médio prazos. Não se trata apenas do percentual do PIB gasto em defesa, mas da capacidade das economias europeias de produzir seus próprios equipamentos militares, sem depender das importações dos Estados Unidos.

Essa situação se tornou muito mais crítica com a eleição de Donald Trump para um segundo mandato presidencial nos Estados Unidos, em 2024. Em seu segundo mandato, Trump mostrou repetidamente que os Estados Unidos não são mais um aliado confiável para a Europa e que agora o continente está sozinho em termos de defesa.

A Europa de 2026 enfrenta o martelo e a bigorna. Por um lado, a ameaça de uma possível invasão militar russa a um país membro da UE, como as repúblicas bálticas ou a Polônia. Por outro, os Estados Unidos, que começaram a tratar seus antigos aliados europeus como adversários, senão inimigos, em termos de comércio exterior.

A aprovação do acordo de livre comércio com o Mercosul no início de janeiro de 2026 oferece alívio temporário não apenas das ameaças comerciais de Trump, mas também diante da crescente influência da China na América Latina, uma região que teve a UE como principal parceiro comercial até meados da última década.

No entanto, a segurança econômica, política e militar da Europa exige que a UE deixe de ser um conjunto de Estados soberanos, porém irrelevantes no cenário global, e dê um passo definitivo rumo a uma maior unificação política. Mais do que nunca, a paz no mundo exige uma Europa forte, capaz de conter o expansionismo territorial russo, a arrogância imperialista dos Estados Unidos e a ameaça da dominação econômica da China. Mais do que nunca, a Europa precisa se redescobrir e retomar seu papel no mundo.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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