ApexBrasil alerta para riscos ao acordo Mercosul-União Europeia após reação política na Europa
Jorge Viana diz que resistência dentro da União Europeia e questionamentos jurídicos aumentam a incerteza
247 – A ApexBrasil, agência de promoção de exportações e atração de investimentos, avalia que cresce a incerteza em torno do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia diante do avanço de resistências políticas no bloco europeu e de um ambiente de escrutínio jurídico sobre os próximos passos do tratado. A leitura foi apresentada pelo presidente da ApexBrasil, Jorge Viana, ao comentar o cenário em Brasília.
As declarações foram publicadas pelo Brazil Stock Guide, que relatou a avaliação de Viana sobre o momento do acordo, apontando que, embora o pacto permaneça estratégico para os dois lados, enfrenta oposição significativa dentro da União Europeia e pode ser impactado pelo posicionamento de instituições europeias sobre a sua tramitação.
Um acordo bilionário, uma disputa crescente
Segundo Jorge Viana, o acordo Mercosul-União Europeia conecta dois blocos que, somados, representam um produto interno bruto combinado em torno de US$ 22 trilhões. Para ele, essa dimensão ajuda a explicar por que o tema se tornou alvo de pressões internas, especialmente em setores protegidos e em segmentos políticos que enxergam riscos para suas economias nacionais.
Ao tratar do conteúdo do tratado, Viana disse que o texto traz mecanismos de salvaguarda destinados a evitar distorções de mercado, numa tentativa de rebater críticas de áreas mais protegidas da economia europeia. A ideia, na avaliação do dirigente da ApexBrasil, é mostrar que o acordo foi desenhado para equilibrar interesses e reduzir choques competitivos abruptos.
Ainda assim, o dirigente ressaltou que a resistência dentro do bloco europeu segue elevada, alimentando um ambiente de instabilidade política que pode dificultar o avanço da ratificação, mesmo com a pressão de diferentes setores interessados na ampliação do comércio entre as regiões.
Conversa com o Senado e a promessa de prioridade em 2026
Viana afirmou que discutiu o caminho do acordo no Brasil com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), em reunião realizada na quarta-feira (21 de janeiro). De acordo com Viana, Alcolumbre indicou que a aprovação legislativa do pacto será tratada como prioridade em 2026, sinalizando uma tentativa de acelerar a tramitação doméstica.
Em uma das falas destacadas, Viana atribuiu ao presidente do Senado a intenção de colocar o tema no topo da pauta quando o Congresso retomar os trabalhos após o recesso. “Ele fará desta questão o principal item da pauta quando o Congresso retomar após o recesso. Esta é a prioridade número um”, disse Viana, conforme o relato.
O presidente da ApexBrasil também afirmou que a estratégia pode envolver coordenação com parlamentos do Mercosul para aprovar o acordo de forma célere na região, o que, segundo ele, funcionaria como um modo de aumentar o custo político da demora europeia. “Vamos ver se ele atua junto com líderes de legislativos do Mercosul para aprová-lo o mais rápido possível, no Brasil e em todo o Mercosul. É uma forma educada de pressionar os europeus”, declarou.
Alinhamento com Alckmin e a meta de acelerar a ratificação
Viana afirmou que sua leitura converge com a do vice-presidente Geraldo Alckmin, no sentido de que o Brasil pretende acelerar o processo de ratificação interna. A mensagem central, nesse ponto, é que o país buscaria reduzir incertezas domésticas e avançar institucionalmente, mesmo que o lado europeu ainda enfrente resistências políticas e debates jurídicos.
Ao enfatizar essa linha, o presidente da ApexBrasil procurou enquadrar o esforço brasileiro como um movimento de previsibilidade e de reafirmação do interesse estratégico no acordo. Para o governo e para setores exportadores, a sinalização de prioridade legislativa em 2026 também funcionaria como um argumento político, indicando que o Brasil estaria disposto a cumprir etapas internas, enquanto aguarda a evolução do tema no continente europeu.
Essa postura, porém, não elimina o principal ponto de tensão destacado por Viana: a oposição interna na União Europeia, que pode atuar tanto no campo político quanto no jurídico, criando um percurso mais longo e incerto para a efetiva entrada em vigor do tratado.
Oposição atravessa ideologias e vira “colisão” política
Um dos elementos realçados por Jorge Viana foi o caráter transversal da resistência ao acordo. Segundo ele, a contestação não se limita a um espectro ideológico específico e acabou reunindo forças distintas em um movimento de bloqueio.
“Setores mais extremos à esquerda e setores mais extremos à direita se juntaram, criando uma espécie de colisão contra o acordo”, afirmou o presidente da ApexBrasil. A descrição sugere um ambiente em que críticas econômicas, agendas nacionais e disputas partidárias se combinam, dificultando a construção de consenso.
Esse tipo de coalizão de veto tende a aumentar a imprevisibilidade do processo europeu, porque amplia o leque de atores capazes de travar o avanço do tema. Na prática, a oposição pode surgir tanto em preocupações ambientais, agrícolas e industriais quanto em disputas de soberania regulatória e protecionismo setorial.
Conselho Europeu, revisão jurídica e limites do papel brasileiro
Viana disse ainda que o Conselho Europeu era esperado para se posicionar na quinta-feira (22 de janeiro) sobre os próximos passos do acordo Mercosul-União Europeia. Embora o dirigente não tenha detalhado decisões, a expectativa de uma manifestação institucional sugere que a pauta entrou em uma etapa sensível do processo europeu, na qual sinalizações políticas podem orientar a tramitação e o ritmo de análise.
Ele também apontou que revisões jurídicas de acordos comerciais não são incomuns no bloco, citando como referência o acordo entre União Europeia e Canadá. A menção indica que, do ponto de vista europeu, questionamentos legais podem fazer parte do rito e, ao mesmo tempo, servir como instrumento de atraso ou de recalibragem política diante de críticas internas.
Por fim, Viana sublinhou que o Brasil não tem papel em pressionar cortes europeias nem em buscar uma implementação provisória do acordo, afirmando que tais decisões cabem exclusivamente às instituições europeias. A mensagem, nesse ponto, é a de que o centro do impasse está na dinâmica interna da União Europeia, e não em medidas que possam ser conduzidas unilateralmente pelo lado sul-americano.
O que está em jogo para Mercosul e União Europeia
As declarações de Jorge Viana, tal como relatadas, desenham um quadro em que o Brasil tenta acelerar sua parte do processo político, enquanto reconhece a existência de um gargalo do outro lado do Atlântico. A aposta brasileira na tramitação doméstica em 2026 busca reforçar o compromisso com o acordo e reduzir margens para acusações de lentidão interna.
Ao mesmo tempo, o dirigente da ApexBrasil indica que a resistência europeia e o escrutínio jurídico podem produzir atrasos adicionais, condicionando o avanço do pacto a decisões e equilíbrios políticos que não dependem do Brasil. Nesse cenário, o acordo Mercosul-União Europeia permanece como um objetivo estratégico, mas atravessa uma fase em que pressões setoriais, disputas ideológicas e mecanismos institucionais europeus tendem a definir o ritmo e o desfecho da negociação.

