Uma história de luta que o Brasil não pode esquecer
"Imaginar o Brasil sem sindicatos é imaginar um mercado de trabalho ainda mais desigual do que já é"
Foi notícia esta semana, embora não tenha recebido a notoriedade merecida, a pesquisa realizada pelo Vox Populi com 3.850 entrevistados. O levantamento integra o estudo "O Trabalho e o Brasil", encomendado pela Central Única dos Trabalhadores e pela Fundação Perseu Abramo, com apoio técnico do Dieese e do Fórum das Centrais Sindicais, e aponta que 68% dos trabalhadores brasileiros consideram os sindicatos importantes ou muito importantes para garantir direitos e melhores condições de trabalho.
Os números são expressivos — e não são casuais. Eles dialogam com mais de um século de organização coletiva no Brasil e no mundo. A luta sindical nasce no bojo da Revolução Industrial, quando jornadas de 14 a 16 horas, trabalho infantil generalizado, ausência de férias, inexistência de descanso semanal e completa insegurança no ambiente laboral eram a regra. No Brasil, ainda no final do século XIX e início do século XX, greves operárias organizadas por trabalhadores urbanos pressionaram por direitos básicos. A própria Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), em 1943, não foi uma dádiva, foi resultado de décadas de mobilização e enfrentamento.
Se hoje há salário mínimo, 13º salário, férias remuneradas, licença-maternidade, jornada de oito horas diárias e descanso semanal, é porque houve sindicato. Se acidentes de trabalho passaram a ser reconhecidos como responsabilidade das empresas, é porque houve organização coletiva. Se a negociação coletiva garante pisos salariais acima do mínimo legal em inúmeras categorias, é porque há representação sindical atuante.
Imaginar o Brasil sem sindicatos é imaginar um mercado de trabalho ainda mais desigual do que já é. Em um país marcado por forte concentração de renda, informalidade estrutural e assimetrias de poder entre capital e trabalho, retirar o sindicato da equação significaria deixar milhões de trabalhadores negociando individualmente com grandes empresas. A história mostra o resultado desse desequilíbrio com precarização, arrocho salarial e supressão de direitos.
A pesquisa também revela que os principais papéis atribuídos às entidades sindicais são a melhoria de salários e condições de trabalho, a defesa de direitos, a mediação entre trabalhadores e empresas e a melhoria das condições de vida. Trata-se, portanto, de um reconhecimento social da função estruturante dos sindicatos na democracia brasileira.
Esse reconhecimento é ainda mais significativo quando lembramos que, nos últimos anos, o movimento sindical foi alvo de ataques sistemáticos. Reformas legislativas reduziram fontes de financiamento, buscaram enfraquecer a negociação coletiva e estimularam a individualização das relações de trabalho. Setores da direita e da extrema direita passaram a difundir a ideia de que sindicatos seriam "obstáculos ao progresso" ou "corporações ultrapassadas", tentando deslegitimar sua atuação perante a sociedade.
Não se tratou apenas de um debate ideológico. Houve tentativas concretas de esvaziamento institucional, desmonte de estruturas e enfraquecimento da capacidade de mobilização. Ainda assim, os sindicatos resistiram. Resistiram porque continuam sendo necessários. Resistiram porque a realidade do trabalho no Brasil — marcada por informalidade, terceirizações e crescimento do trabalho por aplicativos — exige ainda mais organização coletiva, e não menos.
Os próprios dados da pesquisa apontam para essa contradição. Embora 68% reconheçam a importância dos sindicatos, mais da metade afirma não conhecer ações concretas desenvolvidas por suas entidades. Há, portanto, um desafio de comunicação e presença. Ao mesmo tempo, 52% declaram estar satisfeitos ou muito satisfeitos com a atuação sindical. Além disso, 14,6% dizem que certamente se filiariam a um sindicato e 35,9% consideram essa possibilidade. Entre autônomos e empreendedores, quase metade (49,6%) defende ter um sindicato próprio — um indicativo claro de que a necessidade de representação extrapola o modelo tradicional de emprego formal.
Esses números revelam duas verdades complementares: os sindicatos mantêm legitimidade social, mas precisam reinventar formas de diálogo e ampliar sua presença nos locais de trabalho e nas novas formas de ocupação. A queda na taxa de sindicalização não é sinônimo de irrelevância, é sinal de que o mundo do trabalho mudou e exige novas estratégias de organização.
Em um cenário de transformações tecnológicas, plataformização e fragmentação das relações laborais, o sindicato continua sendo a principal ferramenta coletiva capaz de equilibrar forças. A negociação individual, vendida como sinônimo de liberdade, costuma significar vulnerabilidade quando não há igualdade real entre as partes.
A história ensina que direitos não são permanentes, mas resultado de correlação de forças. Onde o movimento sindical foi esmagado, os direitos encolheram. Onde ele se fortaleceu, houve ampliação de proteção social, aumento da renda e redução de desigualdades.
Por isso, defender os sindicatos é defender a própria democracia. São eles que organizam a voz coletiva de milhões de trabalhadores e trabalhadoras, transformando reivindicações individuais em pauta pública. São eles que lembram que desenvolvimento econômico sem justiça social é apenas concentração de riqueza.
Os ataques passaram. As tentativas de desmonte deixaram marcas. Mas os sindicatos permanecem — porque permanecem as desigualdades que lhes deram origem. E enquanto houver disparidade nas relações de trabalho, haverá necessidade de organização coletiva.
A pesquisa confirma o que a história já demonstrou. Os sindicatos não são resquícios do passado, mas instrumentos vivos de defesa da dignidade no trabalho e continuam sendo parte fundamental do presente e do futuro do Brasil.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



