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Jean Paul Prates

Ex-senador e ex-presidente da Petrobras

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Venezuela: quando a retórica moral esconde o poder real

A intervenção na Venezuela não foi sobre democracia nem sobre drogas. Foi sobre poder. O discurso moral é o invólucro. O conteúdo é controle estratégico

Nicolás Maduro (Foto: Reprodução/Truth Social/@realDonaldTrump)

Há momentos em que é preciso afastar o ruído e olhar para o essencial. A intervenção recente na Venezuela é um desses casos. O debate público foi rapidamente capturado por slogans conhecidos, defesa da democracia, combate ao narcotráfico, libertação de um povo oprimido. Nada disso é novo. O que é novo, e perigoso, é o precedente que se consolida por trás dessa narrativa.

Começo pelo óbvio. O governo de Nicolás Maduro era autoritário. As eleições foram amplamente questionadas. Houve repressão política, crise humanitária, corrupção estrutural e deterioração institucional. Isso não está em discussão. A própria comunidade internacional vinha, há anos, adotando sanções, isolamento diplomático e não reconhecimento político. Portanto, não há aqui qualquer tentativa de reabilitar um regime ou minimizar o sofrimento do povo venezuelano.

A pergunta relevante é outra. Por que agora, por que desse modo e com quais objetivos reais.

A história mostra que discursos morais raramente são a causa de intervenções armadas. São o seu verniz. Grandes violências sempre foram cometidas em nome da democracia, da liberdade, da segurança nacional ou do interesse do povo. Quanto mais dura a ação, mais inflamada costuma ser a retórica. E ela funciona.

O argumento do narcotráfico é frágil. O maior mercado consumidor de drogas do mundo convive há décadas com redes criminosas globais, muitas vezes associadas a aliados estratégicos, sem que isso tenha levado a bombardeios ou remoções de governos. Se drogas fossem o critério real, o mapa das intervenções seria outro.

O mesmo vale para democracia, corrupção e direitos humanos. Há regimes autoritários longevos sustentados com apoio externo. Há tragédias humanitárias muito mais letais ignoradas seletivamente. O problema, portanto, não é moral. É estratégico.

Durante o século XX, o petróleo foi o eixo central do poder global. A Venezuela, com as maiores reservas comprovadas do planeta, sempre esteve no radar. Ainda assim, o momento atual não se explica apenas pelo petróleo. A produção está colapsada, a infraestrutura degradada e o país já estava sob sanções severas. Se o objetivo fosse apenas controlar barris, a ação teria ocorrido anos atrás.

O elemento novo está nos minerais críticos. O século XXI deslocou o centro do poder estratégico para cadeias de suprimento essenciais à indústria de defesa, à transição energética e à alta tecnologia. Tântalo, coltan, terras raras, cobalto e níquel não têm substitutos. Quem controla essas cadeias controla poder.

A Venezuela concentra esses recursos e tornou-se ponto de convergência incômodo para grandes potências. A China avançou sobre cadeias minerais. O Irã projetou capacidade industrial militar no hemisfério ocidental. A Rússia aprofundou cooperação e presença militar. Essa convergência elevou o país de problema regional a peça estratégica global.

Sob a lógica militar, o cálculo é compreensível. Sob a ótica do sistema internacional, é alarmante. Quando a remoção de governos passa a ser instrumento para reconfigurar cadeias de suprimento e zonas de influência, o direito internacional vira ornamento e a lei do mais forte retorna, com nova linguagem, mas velha lógica colonial.

Esse é o ponto central. Não a queda de um governante, mas a normalização do método. Países ricos em recursos passam a ter soberania condicional.

Para o Brasil, isso não é debate acadêmico. Somos um país com petróleo, minerais críticos, uma matriz energética singular e posição estratégica. Defender princípios, previsibilidade e soberania não é ideologia. É autopreservação.

A intervenção na Venezuela não foi sobre democracia nem sobre drogas. Foi sobre poder. O discurso moral é o invólucro. O conteúdo é controle estratégico.

Jean Paul Prates é Mestre em Política Energética e Gestão Ambiental pela Universidade da Pensilvânia e Mestre em Economia da Energia pela IFP School (Paris). Foi presidente da Petrobrás (2023–2024) e Senador da República (2019–2023).

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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