Vincular Lula a Maduro e pedir interferência eleitoral americana pode ser contraproducente para a oposição
Oposição desloca debate do campo da gestão e da economia para o terreno da soberania
As estratégias de vincular o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, a Nicolás Maduro e de defender que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, interfira nas eleições brasileiras — por meio de pressão diplomática ou política — podem se mostrar contraproducentes para a oposição, segundo analistas internacionais da Eurasia Group, que atendem grandes corporações, executivos e investidores.
Apesar de declarar que os ataques militares à Venezuela e o sequestro de seu presidente remeteram “aos piores momentos de interferência na política da América Latina”, Lula não reconheceu a vitória de Maduro, por não haver comprovação do resultado eleitoral. Além disso, a maioria dos brasileiros percebeu as sanções e tarifas impostas por Trump como uma afronta à soberania nacional. Assim, qualquer tentativa de Washington de interferir nas eleições deste ano poderia provocar reação semelhante.
Para Ian Bremmer, presidente da Eurasia, a política externa de Trump oscila entre as lógicas do FAFO (“Fuck Around and Find Out”, “quem brinca com fogo, se queima”) e do TACO (“Trump Always Chickens Out”, “Trump sempre recua”). Países que desafiam Washington e demonstram fraqueza seriam enquadrados no FAFO, como Canadá e Venezuela, que voltou a ser tratada como zona de influência americana. Ao tratar a Europa como FAFO, Trump sugeriu que o preço da segurança do continente seria a venda da Groenlândia aos Estados Unidos, sem resistência. “Rússia e China não terão medo algum de uma OTAN sem os EUA. A única nação que China e Rússia temem e respeitam são os EUA reconstruídos por Donald Trump”, afirmou em suas redes digitais, sem descartar uma ocupação militar americana do território dinamarquês. Já países como China, Rússia e Brasil se enquadrariam no TACO, devido ao alto custo de retaliação para os EUA, ainda segundo Bremmer.
O BRAZIL E O BRASIL - Neste sentido, o presidente Lula retomou sua agenda de 2026 com o ato em memória ao 8 de Janeiro, que classificou como “o dia da vitória da democracia”. Como esperado, vetou a redução de penas para Jair Bolsonaro, cujo objetivo seria manter a inelegibilidade do ex-presidente, ainda que em regime de prisão domiciliar. A ausência dos chefes do Legislativo e do Judiciário no evento entregou a Lula a posse simbólica da bandeira democrática, que deve ser empunhada ao lado da bandeira nacional nesta largada do ano eleitoral. Segundo as pesquisas mais recentes, o chamado “PL da Dosimetria” enfrenta rejeição majoritária: 47% na Quaest e 63% na AtlasIntel.
Já a aprovação do acordo Mercosul–União Europeia pode diminuir resistências no centro e em setores produtivos, segundo o cientista político Josué Medeiros, da UFRJ e coordenador do Observatório Político e Eleitoral (OPEL). Em análise ao InfoMoney, Medeiros afirma que o acordo funciona como uma “vacina” contra discursos de que a esquerda não valoriza a economia de mercado, o empresariado e a integração comercial. “Na prática, vira um carimbo de credibilidade para rebater esse enquadramento”, avalia o especialista. O acordo criará a maior área de livre-comércio do mundo, envolvendo cerca de 700 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto (PIB) estimado em US$ 22 trilhões, demarcando o espaço geopolítico do multilateralismo.
Na sequência, Lula deve liderar o debate sobre o fim da escala 6x1 e outras pautas com potencial de conter discursos de “mudança de regime”, ao mesmo tempo em que avança em acordos de ganha-ganha com Trump. Retóricas distintas, interesses comuns: cooperação e estabilidade regional. Afinal, o petista disputará a reeleição em outubro. Já o republicano, como ele próprio reconhece, poderá enfrentar um processo de impeachment caso perca a maioria no Congresso para os democratas nas eleições de meio de mandato, em novembro.
No fim, a tentativa de internacionalizar a disputa eleitoral brasileira pela via da tutela externa tende a produzir o efeito inverso ao pretendido. Ao associar Lula a Maduro e flertar com a ideia de interferência americana, a oposição desloca o debate do campo da gestão e da economia para o terreno da soberania — um espaço favorável ao presidente. Em vez de fragilizá-lo, reforça sua condição de fiador da democracia, do multilateralismo e da independência do Brasil num mundo em transição
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




