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Esmael Morais

Jornalista e blogueiro paranaense, Esmael Morais é responsável pelo Blog do Esmael, um dos sites políticos mais acessados do seu estado

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Virada de abril expõe sinais de acórdão em Brasília

Cenário envolve STF, bolsonarismo e governo em agendas cruzadas, alerta o colunista Esmael Morais

Lula ao lado de Jorge Messias, indicado para o STF (Foto: Ricardo Stuckert)

O advogado-geral da União Jorge Messias terá sabatina no Senado no dia 29 de abril, com votação no plenário no mesmo dia, enquanto o veto integral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao PL da dosimetria foi pautado pelo presidente do Congresso Davi Alcolumbre (União-AP) para quinta-feira (30). A virada de abril concentra, em 48 horas, duas decisões que recolocam Planalto, Congresso, Supremo Tribunal Federal (STF) e bolsonarismo no mesmo centro da disputa política.

Separadas, essas pautas já seriam explosivas. Juntas, reforçam a leitura que o Blog do Esmael já vinha colocando no radar: Brasília trabalha um arranjo de conveniência para reduzir dano de todos os lados na largada da disputa de 2026. Não apareceu, até aqui, prova pública de pacto formal. O que apareceu foi uma sequência de movimentos convergentes, com datas casadas e interesses cruzados.

Para o Planalto, a prioridade é cristalina. Se Messias passar pelo Senado no mesmo dia da sabatina, Lula finca um nome de confiança no STF num momento em que o sistema político tenta reorganizar sua própria blindagem.

No dia seguinte, Alcolumbre leva ao Congresso uma pauta única: o veto total ao PL da dosimetria, proposta que reduz penas de condenados pelos ataques de 8 de janeiro de 2023. O gesto devolve protagonismo ao Congresso e entrega ao bolsonarismo uma vitrine de alto valor político.No meio desse roteiro, Alcolumbre decidiu não prorrogar a CPI do Crime Organizado.

O relator Alessandro Vieira (MDB-SE) disse que a justificativa foi o calendário eleitoral, mas a comissão já havia encostado no Banco Master e terminou em 14 de abril sem relatório aprovado.Esse detalhe pesa porque o Caso Master segue aberto e explosivo. André Mendonça assumiu a relatoria do inquérito em fevereiro, prorrogou por 60 dias as investigações da Polícia Federal (PF) em 18 de março e, em 16 de abril, a Operação Compliance Zero chegou à quarta fase com a prisão do ex-presidente do Banco de Brasília (BRB) Paulo Henrique Costa.

No outro trilho, o STF derrubou por 8 votos a 2 a prorrogação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Depois disso, governistas entregaram a André Mendonça um relatório paralelo, e Paulo Pimenta (PT-RS) disse que o material seria remetido à PF.

O efeito político salta aos olhos. O Congresso tira o microfone de uma CPI que chegava ao sistema financeiro, o Supremo concentra os casos mais sensíveis, o Planalto acelera sua vaga na Corte e o bolsonarismo ganha uma bandeira mobilizadora com a dosimetria. Cada grupo preserva um pedaço de si.

Não é de somenos, para o Planalto, o fim da escala 6×1 entrar com força na virada de abril. Lula enviou ao Congresso, em 14 de abril, um projeto de lei com urgência constitucional para reduzir a jornada semanal de 44 para 40 horas, garantir dois dias de descanso remunerado e proibir corte salarial, transformando uma demanda histórica do movimento sindical em vitrine social de alto apelo para 2026.

Brasília conhece esse método. Quando a temperatura sobe e a eleição se aproxima, a engrenagem central do poder costuma trabalhar para redistribuir risco antes de esclarecer tudo. A virada de abril, por isso, recoloca o acórdão no radar e devolve ao centro do jogo a velha política de sobrevivência mútua.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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