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Maria Luiza Falcão Silva

PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England.

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Vitória declarada, impasse real: o que a guerra contra o Irã revelou sobre os Estados Unidos

Cessar-fogo expõe limites do poder dos EUA e revela crise de liderança global

Ilustração mostra as bandeiras do Irã e dos EUA 27/01/2022 REUTERS/Dado Ruvic/Foto ilustrativa (Foto: REUTERS/Dado Ruvic/Foto ilustrativa)

No início de abril de 2026, os Estados Unidos anunciaram um cessar-fogo temporário no Oriente Médio e o apresentaram como vitória. Mas a declaração soa mais como necessidade do que como conquista. O que se impôs não foi o fim da guerra, e sim uma interrupção forçada de uma escalada que Washington já não conseguia controlar.

Essa diferença não é semântica — é política.

Guerras que terminam produzem resultados claros: impõem condições, redefinem o equilíbrio de poder, deixam vencedores reconhecíveis. Nada disso ocorreu. O Irã não foi neutralizado, não teve sua capacidade estratégica desarticulada e segue exercendo influência direta sobre o Estreito de Ormuz, ponto nevrálgico do sistema energético global.

Chamar isso de vitória é, no limite, uma operação retórica. O que houve foi outra coisa: a tentativa de encerrar um impasse antes que ele se transformasse em um fracasso ainda mais evidente.

O que os Estados Unidos não conseguiram impor

A guerra foi lançada sob justificativas mutáveis — ora o programa nuclear, ora a ameaça representada por mísseis ou grupos aliados. Mas, ao longo do conflito, os contornos reais dos objetivos tornaram-se mais nítidos. Tratava-se, em primeiro lugar, de desarticular o Irã como potência regional autônoma, neutralizando sua capacidade de influência no Oriente Médio. Em segundo lugar, de restabelecer o controle sobre o eixo energético global, reabrindo — sob tutela americana — o fluxo estratégico do Estreito de Ormuz, por onde passa parcela decisiva do petróleo mundial. Mas havia ainda um terceiro objetivo, mais profundo e politicamente mais ambicioso: provocar uma ruptura interna no regime iraniano, seja pela eliminação de sua liderança central, seja pelo colapso progressivo de sua estrutura de poder, abrindo caminho para uma reorganização política alinhada aos interesses ocidentais.

E talvez nenhum elemento seja mais revelador desse fracasso do que a resposta da própria sociedade iraniana. Em meio à escalada do conflito, imagens de milhares de pessoas formando corredores humanos para proteger infraestruturas estratégicas circularam pelo mundo. Longe de indicar uma população pronta para se insurgir contra o regime, essas cenas apontam para algo mais complexo — e mais desconfortável para a narrativa de Washington. Diante de uma ameaça externa, o que se observou não foi fragmentação, mas coesão. Não uma sociedade em ruptura, mas uma sociedade que, ao menos naquele momento, se organizou em defesa de sua soberania.

Isso erode diretamente a ideia, amplamente difundida pelos Estados Unidos, de que haveria no Irã um ambiente propício para a derrubada do regime a partir de pressões externas.

Nada disso foi alcançado. O fracasso foi abrangente.

O Estreito de Ormuz — eixo vital do fluxo de petróleo mundial — não foi colocado sob controle efetivo dos Estados Unidos. Ao contrário: o conflito revelou que Washington já não consegue garantir aquilo que sempre foi o fundamento de sua hegemonia — a estabilidade do comércio global.

Mais grave ainda: a guerra expôs limites operacionais, políticos e diplomáticos. Entrou-se em confronto sem coordenação sólida com aliados, sem cálculo claro de custos e sem uma estratégia de saída coerente.

O resultado não é apenas inconclusivo. Ele expõe, de forma inequívoca, os limites do poder americano.

Uma potência que já não organiza o sistema

O impacto mais profundo não está no campo militar, mas no campo da percepção.

A hegemonia norte-americana nunca foi apenas uma questão de força. Sempre dependeu de algo mais sofisticado: a capacidade de organizar expectativas, garantir previsibilidade e sustentar a ideia de que, em momentos de crise, os Estados Unidos seriam o agente de estabilização.

Essa ideia foi destroçada. O próprio debate internacional já aponta para isso. Analistas começam a comparar o episódio a momentos históricos em que grandes potências revelaram seus limites — não pela derrota formal, mas pela incapacidade de transformar poder em resultado político. E, quando isso acontece, a erosão é silenciosa — mas profunda.

China e Rússia: os vencedores que não dispararam um tiro

Enquanto Donald Trump proclamava vitória, dois atores avançavam sem confronto direto.

A China emerge como a principal beneficiária estratégica. Ao atuar pela contenção e incentivar o cessar-fogo, Pequim se reposiciona como mediadora e garantidora de estabilidade — exatamente o papel que historicamente sustentou a liderança americana. Mais do que isso: observa, aprende e acumula capital político sem arcar com os custos da guerra.

Já a Rússia reforça sua narrativa de longo prazo: a de que a ordem internacional liderada pelos Estados Unidos é errática, imprevisível e incapaz de produzir estabilidade duradoura. Cada movimento descoordenado de Washington amplia esse argumento.

Não se trata de uma vitória clássica. Trata-se de algo mais sofisticado: uma mudança na hierarquia de credibilidade.

Uma pausa — e não um desfecho

Chamar o momento atual de “fim da guerra” é um erro analítico.

O que existe é um cessar-fogo frágil, sustentado mais pela exaustão tática do que por qualquer acordo estrutural. Nenhuma das questões centrais foi resolvida:

  • o programa nuclear iraniano permanece;
  • a disputa pelo controle regional continua aberta;
  • o risco sobre as rotas energéticas segue presente.

É isso que molda o cenário imediato.

A tendência não é de estabilização definitiva, mas de um conflito congelado com alto potencial de reativação. Incidentes localizados, ações indiretas e pressões econômicas devem substituir, ao menos por enquanto, a confrontação aberta.

Nem mesmo Israel parou

Se o cessar-fogo já era frágil no papel, sua aplicação prática revela ainda mais claramente seus limites.

Israel não apenas demonstrou resistência ao acordo como segue conduzindo operações militares, especialmente voltadas ao enfrentamento do Hezbollah no sul do Líbano. A justificativa é conhecida: neutralizar ameaças imediatas e impedir a reorganização de forças hostis.

Mas o efeito é outro.

Ao manter ações bélicas em paralelo ao cessar-fogo, Israel esvazia, na prática, qualquer pretensão de estabilização rápida do conflito. Mais do que isso, expõe uma fissura delicada: a incapacidade dos próprios Estados Unidos de conter plenamente seu principal aliado na região.

Isso é politicamente significativo.

Porque revela que o cessar-fogo não apenas falha em resolver o conflito — ele sequer consegue disciplinar os atores centrais envolvidos. E, quando uma potência não consegue alinhar seus próprios aliados, sua capacidade de liderar uma ordem internacional se torna inevitavelmente abalada.

O mundo começa a se reorganizar

Talvez o efeito mais duradouro da guerra esteja fora do campo de batalha.

O impacto mais imediato dessa dinâmica já se faz sentir na Europa — e, de forma particularmente sensível, na própria OTAN. Países europeus, aliados tradicionais dos Estados Unidos, apesar de pressionados por Washington, não se dispuseram a aderir à escalada militar no Estreito de Ormuz. A recusa não foi trivial. Ela revela um limite claro: aliados históricos dos Estados Unidos já não estão dispostos a assumir os custos econômicos, energéticos e políticos de uma guerra cuja lógica e condução não controlam.

O resultado é mais do que desconforto diplomático. É uma fissura. Porque a OTAN sempre operou sob a premissa de alinhamento estratégico entre seus membros — sobretudo em momentos de crise. Quando esse alinhamento falha, o que se expõe não é apenas divergência, mas a erosão da capacidade de liderança americana dentro da própria aliança.

Mais do que um episódio isolado, esse movimento sinaliza algo mais profundo: a crescente disposição europeia de limitar seu envolvimento em iniciativas unilaterais de Washington, especialmente quando estas colocam em risco suas próprias economias e sua segurança energética.

O resultado é previsível: aceleração de estratégias de autonomia, diversificação de parcerias e redução da dependência de Washington.

Esse movimento já estava em curso. A guerra apenas o tornou explícito. A confiança, uma vez corroída, não se recompõe por decreto.

O problema não é militar — é político

Os Estados Unidos continuam sendo a maior potência militar do planeta. Nada disso mudou. Mas a questão central deixou de ser essa.

O que está em jogo é a capacidade de transformar poder em ordem, força em estabilidade, intervenção em resultado. E é exatamente aí que surgem os sinais de esgotamento.

Quando uma potência precisa apresentar como vitória um conflito que não conseguiu controlar, o problema já não é militar. É político.

Não é o fim da guerra. É o fim de uma ilusão

O cessar-fogo não encerra o conflito. Ele apenas interrompe, temporariamente, uma dinâmica que permanece aberta.

Mas algo terminou — e de forma irreversível.

Terminou a ideia de que os Estados Unidos podem intervir em uma região estratégica, impor seus objetivos e sair como garantidores incontestáveis da ordem. A partir de agora, cada movimento de Washington será mais questionado, mais observado e menos aceito como inevitável.

Não é o fim da guerra. É o fim da ilusão de controle absoluto sobre ela.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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