Estreito de Ormuz é a 'bomba atômica' do Irã, dizem diplomatas brasileiros
Agressões de Trump garantem sobrevida de “mais 20 ou 30 anos” à República Islâmica do Irã e mostram “a verdade nua e crua” sobre os Estados Unidos
247 - O uso estratégico do Estreito de Ormuz transformou-se na principal arma do Irã durante o conflito com Estados Unidos e Israel, sendo comparado por diplomatas brasileiros a uma “bomba atômica” de impacto econômico global. A avaliação indica que, apesar dos danos causados à infraestrutura e à economia iraniana, o país conseguiu ampliar sua capacidade de pressão internacional e tende a sair fortalecido politicamente, informa Mônica Bergamo, da Folha de São Paulo.
Diplomatas apontam que o confronto, iniciado em 28 de fevereiro com ataques em larga escala contra o território iraniano, acabou reforçando a posição interna do governo local. Segundo um integrante do Itamaraty, a guerra garantiu uma sobrevida de “mais 20 ou 30 anos” à República Islâmica. Ele afirma que, sem o conflito, o país poderia caminhar para uma transição política, com o governo atual “caindo de maduro”, diante das tensões internas evidenciadas por protestos recentes.
Na avaliação desse diplomata, os ataques externos, que atingiram inclusive escolas, universidades e infraestrutura civil, provocaram um efeito de coesão interna. A população passou a rejeitar a ideia de apoio externo à democracia, ao perceber que tais ações estavam associadas à destruição do país. Aqueles que esperavam uma intervenção positiva dos Estados Unidos passaram a enxergar “a verdade nua e crua”, segundo o relato.
Outro diplomata afirma que o presidente norte-americano, Donald Trump, esperava “uma vitoriazinha fácil”, mas encontrou resistência inesperada. Para ele, o principal trunfo iraniano foi o bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde circula cerca de um quinto do petróleo mundial, o que levou à alta imediata dos preços de combustíveis e ampliou a pressão internacional pelo fim do conflito.
Essa estratégia é descrita como uma “bomba atômica” econômica, capaz de gerar efeitos globais sem causar mortes diretas e com possibilidade de reversão. Diferentemente das armas nucleares, cujo uso é considerado moralmente indefensável e devastador, o controle do estreito atua como instrumento de dissuasão e pressão geopolítica.
Mesmo com menor poder militar, o Irã vem conseguindo equilibrar o confronto e obter vantagens “por pontos”, ao impactar economias ao redor do mundo. Diplomatas destacam ainda que o país conseguiu atingir bases militares dos Estados Unidos no Oriente Médio, o que deve retardar a plena recomposição da presença norte-americana na região.
A resistência iraniana também é atribuída a décadas de sanções, que levaram à construção de uma “economia de resistência”. Segundo especialistas, o país investiu em autossuficiência alimentar, produção de medicamentos e bens industriais, além de estruturar um sistema elétrico descentralizado para reduzir vulnerabilidades em cenários de guerra.
Apesar das análises que apontam fortalecimento do Irã, há cautela entre os diplomatas. Um deles ressalta que “é cedo” para conclusões definitivas, destacando que as decisões imprevisíveis de Donald Trump continuam sendo um fator de instabilidade no desenrolar do conflito.


