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Da floresta ao concreto urbano: madeira engenheirada redesenha cidades sustentáveis

Uso de CLT e MLC em espaços públicos e privados reduz emissões, melhora o convívio urbano e fortalece a transição ecológica nas cidades brasileiras

Construção civil (Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil)

247 - A pressão para que as cidades assumam protagonismo na transição ecológica tem crescido de forma consistente nos últimos anos. Mais do que discursos e metas, o desafio está em mudar práticas concretas de planejamento urbano, construção civil e ocupação do território. Nesse cenário, materiais de baixo impacto ambiental passam a ocupar papel central, com destaque para a madeira engenheirada, que vem se consolidando como alternativa estratégica para um novo modelo de desenvolvimento urbano.

O debate foi aprofundado em artigo assinado por Ana Belizário, diretora da Urbem, indústria brasileira especializada em madeira engenheirada de larga escala. No texto, a autora reúne dados técnicos e exemplos práticos para demonstrar como esse tipo de solução construtiva pode acelerar a agenda climática nas cidades e transformar a relação entre arquitetura, meio ambiente e sociedade.

Pesquisas recentes da Yale School of the Environment indicam que a adoção de produtos como madeira laminada cruzada (CLT) e madeira laminada colada (MLC) tem potencial para reduzir entre 25,6 e 39 gigatoneladas de CO₂ equivalente ao longo do ciclo de vida dos edifícios urbanos. Esse impacto positivo seria alcançado caso a madeira engenheirada estivesse presente em 30% a 60% das novas construções até o ano de 2100. Estudos da Mann Publications reforçam esse cenário ao apontar que estruturas em madeira podem diminuir as emissões incorporadas em até 50% quando comparadas ao concreto e ao aço.

Nos espaços públicos urbanos, a escolha por esse material extrapola critérios estéticos ou simbólicos. Em praças, parques, passarelas e áreas de convivência, a madeira engenheirada passa a representar uma decisão estratégica, capaz de aliar desempenho técnico, menor impacto ambiental e melhoria direta na qualidade de vida da população.

Além do aspecto ambiental, o material contribui para tornar as cidades mais humanas. A presença da madeira na paisagem construída suaviza estruturas rígidas, favorece a permanência das pessoas e estimula o convívio. Textura, conforto visual e sensação térmica mais agradável criam ambientes que aproximam arquitetura e natureza, reforçando o sentimento de pertencimento nos espaços urbanos.

Experiências recentes na cidade de São Paulo ilustram esse movimento. No Parque do Carmo, na zona leste, uma nova estrutura recreativa de 1.445 metros quadrados foi executada com madeira engenheirada. Quiosques, vestiários e arquibancadas foram integrados à vegetação existente, resultando em um conjunto funcional, acolhedor e ambientalmente responsável.

Na zona sul da capital, o Parque Morumbi Sul também se tornou referência. O local abriga pavilhões multiuso, passarelas e equipamentos acessíveis construídos com madeira engenheirada de alta performance, tornando-se o primeiro equipamento público da cidade a adotar esse tipo de estrutura. A rapidez da montagem, a redução de resíduos e a menor interferência no entorno apontam para uma lógica construtiva mais limpa e eficiente.

O avanço da madeira engenheirada não se restringe aos projetos públicos. Empreendimentos privados voltados à convivência também incorporam essa tecnologia, como o Open Mall Praça Pitiguari, em Atibaia. O projeto utiliza mais de 1,3 mil metros cúbicos de madeira em sua estrutura, o maior volume já empregado em um único empreendimento desse tipo na América Latina, e foi concebido para integrar sustentabilidade, tecnologia e bem-estar em um ambiente aberto e conectado à natureza.

Esses exemplos evidenciam que a madeira engenheirada deixou de ser apenas uma alternativa construtiva para se tornar um vetor de transformação urbana. Ao reduzir impactos ambientais, qualificar os espaços de convivência e fortalecer vínculos sociais, o material contribui para cidades mais equilibradas, inclusivas e resilientes. Em um contexto global de busca por soluções regenerativas, repensar o urbano a partir da madeira aponta para um futuro mais leve, mais natural e mais humano.

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