Energia solar em Itaipu pode abrir caminho para dobrar a capacidade da usina
Projeto-piloto com painéis flutuantes no reservatório revela potencial estratégico para ampliar a geração de energia limpa
247 – A hidrelétrica de Itaipu, uma das maiores obras de engenharia do mundo e símbolo da integração entre Brasil e Paraguai, está diante de uma nova fronteira tecnológica: a possibilidade de ampliar de forma expressiva sua capacidade de geração de energia por meio da instalação de painéis solares sobre o espelho d’água do reservatório. Segundo reportagem da Agência Brasil, a experiência em curso indica que o lago da usina pode se transformar, no futuro, em uma base estratégica para a expansão da energia limpa na região.
Na prática, o projeto ainda está em fase experimental, mas já aponta para um horizonte ambicioso. Técnicos brasileiros e paraguaios estudam desde o fim do ano passado o desempenho de uma planta solar flutuante instalada no lado paraguaio do reservatório. O objetivo imediato não é comercial: trata-se de um laboratório a céu aberto, criado para avaliar a viabilidade técnica, ambiental e estrutural de futuras aplicações em escala maior.
O reservatório de Itaipu ocupa uma área gigantesca. São cerca de 1,3 mil quilômetros quadrados de perímetro, com quase 170 quilômetros de extensão desde a barragem até a extremidade oposta e largura média de 7 quilômetros entre as duas margens. Hoje, toda essa área já sustenta a impressionante capacidade hidrelétrica da usina, que chega a 14 mil megawatts (MW). Agora, a mesma superfície também passa a ser observada como ativo energético para a produção solar.
O experimento atual foi implantado em uma área de menos de 10 mil metros quadrados, a apenas 15 metros de um trecho da margem paraguaia e com profundidade aproximada de 7 metros. Ali foram instalados 1.584 painéis fotovoltaicos sobre a água. A planta tem capacidade de gerar 1 megawatt-pico (MWp), volume suficiente para atender ao consumo de cerca de 650 residências. Essa energia, no entanto, é destinada apenas ao consumo interno e não é comercializada nem conectada diretamente à rede principal de geração hidrelétrica.
O interesse de Itaipu nesse modelo vai muito além da produção imediata. Os engenheiros envolvidos monitoram uma série de fatores que serão decisivos para qualquer expansão futura. Entre eles, estão os possíveis impactos sobre peixes e algas, alterações na temperatura da água, influência dos ventos sobre o desempenho dos painéis e a estabilidade da estrutura flutuante, dos sistemas de ancoragem e dos flutuadores.
A dimensão do potencial teórico impressiona. O superintendente de Energias Renováveis da Itaipu Binacional, Rogério Meneghetti, resumiu o alcance da pesquisa ao afirmar: "Se falarmos em um potencial bem teórico, uma área de 10% do reservatório, coberta com placas solares, seria o mesmo que outra usina de Itaipu, em termos de capacidade de geração. Claro que isso não está no planos, pois seria uma área muito grande e depende ainda de muitos estudos, mas mostra o potencial dessa pesquisa".
A fala de Meneghetti revela que a chamada “ilha solar” está longe de ser apenas um projeto pontual. Ela se insere em uma visão estratégica de longo prazo, que poderá inclusive exigir mudanças institucionais relevantes. Uma eventual expansão comercial dessa alternativa dependerá de atualização no próprio Tratado de Itaipu, assinado em 1973 por Brasil e Paraguai e base jurídica da usina binacional.
As estimativas preliminares mostram que, para alcançar uma geração solar de 3 mil megawatts — algo equivalente a cerca de 20% da atual capacidade instalada da hidrelétrica — seriam necessários pelo menos quatro anos de instalação. O investimento no projeto-piloto é de US$ 854,5 mil, o equivalente a cerca de R$ 4,3 milhões. A implantação foi executada por um consórcio binacional formado pelas empresas Sunlution, do Brasil, e Luxacril, do Paraguai, vencedor da licitação.
Itaipu aposta em uma matriz mais diversificada
A pesquisa com energia solar flutuante não está isolada. Itaipu também vem ampliando sua atuação em outras frentes da transição energética, consolidando-se como uma plataforma de inovação tecnológica. Essa estratégia passa por hidrogênio verde, desenvolvimento de baterias, biogás, biometano e até combustíveis sustentáveis para a aviação.
Grande parte desses projetos está concentrada no Itaipu Parquetec, ecossistema de inovação e tecnologia criado em 2003 em Foz do Iguaçu. O centro reúne parcerias com universidades, empresas públicas e privadas e já formou mais de 550 doutores e mestres em diferentes áreas.
Entre os destaques está o Centro Avançado de Tecnologia de Hidrogênio, voltado à produção e ao desenvolvimento do chamado hidrogênio verde. Esse combustível é considerado sustentável porque pode ser obtido sem emissão de gás carbônico, um dos principais responsáveis pelo efeito estufa e pelo aquecimento global. No caso de Itaipu, a técnica empregada é a eletrólise da água, processo que separa os elementos químicos da molécula por meio de equipamentos automatizados em laboratório.
O uso potencial do hidrogênio verde é amplo. Ele pode servir como insumo para cadeias industriais como siderurgia, química, petroquímica, agricultura e alimentos, além de aplicações em energia e transporte. Segundo Daniel Cantani, gerente do Centro de Tecnologia de Hidrogênio do Itaipu Parquetec, a planta funciona como uma base de testes para iniciativas nacionais. Ele explicou: "Nós somos uma plataforma tecnológica, então trabalhamos para atender, por exemplo, projetos de pesquisa [científica] ou projetos para indústria nacional. Existem algumas empresas nacionais que estão fazendo seus desenvolvimentos de carreta [movida] a hidrogênio, de ônibus a hidrogênio, por exemplo. Aqui é o lugar para testar e validar esses projetos".
Uma das aplicações já apresentadas ao público ganhou projeção durante a COP30, em Belém, com a entrega de um barco movido a hidrogênio para atuar na coleta seletiva em comunidades ribeirinhas no entorno da capital paraense. A iniciativa reforça o esforço de conectar pesquisa, inovação e uso prático em soluções de mobilidade limpa.
Baterias, biogás e novos combustíveis avançados
Outra frente estratégica no Itaipu Parquetec é o centro de gestão energética, dedicado ao desenvolvimento de células, protótipos e reaproveitamento de baterias voltadas ao armazenamento de energia, sobretudo em sistemas estacionários. Trata-se de um segmento crucial para o avanço das fontes renováveis, uma vez que a capacidade de armazenar eletricidade tende a ganhar importância crescente na gestão de redes energéticas mais complexas e diversificadas.
No campo dos biocombustíveis, Itaipu também investe em soluções ligadas ao aproveitamento de resíduos orgânicos. A usina vem produzindo biogás e biometano a partir de restos gerados por restaurantes do complexo e também de materiais apreendidos em fiscalizações de fronteira pela Polícia Rodoviária Federal e pelo Ministério da Agricultura. Em vez de seguirem para aterros, esses materiais são convertidos em combustível limpo.
No último dia 13 de abril, a Agência Brasil, a convite da Itaipu Binacional, acompanhou a reinauguração da Unidade de Demonstração de Biocombustíveis, administrada pelo Centro Internacional de Energias Renováveis (CIBiogás), empresa fundada por Itaipu e especializada em soluções para combustíveis limpos. Por meio de biodigestão em grandes tanques, alimentos oriundos de contrabando e outros resíduos orgânicos da região passam a abastecer veículos que circulam dentro da usina.
Os números acumulados dessa experiência são expressivos. Em quase nove anos de operação, mais de 720 toneladas de resíduos orgânicos foram processadas, gerando biometano suficiente para percorrer cerca de 480 mil quilômetros — distância equivalente a 12 voltas ao redor da Terra, segundo a usina.
A mesma planta também pesquisa o bio-syncrude, um óleo sintético que pode ser usado na produção de SAF, o combustível sustentável de aviação. Para Daiana Gotardo, diretora técnica do CIBiogás, esse segmento deverá ganhar força rapidamente. Nas palavras dela: "Eu acredito que nos próximos 10 anos, nós vamos ver muito sobre os combustíveis avançados. Vamos ouvir muito sobre o hidrogênio, sobre o SAF, inclusive por conta da lei de combustíveis futuro, que vem aí com mandato. Biometano e SAF são os assuntos do momento".
Um laboratório binacional para o futuro da energia
A experiência de Itaipu deixa claro que a usina já não pode ser vista apenas como uma gigante hidrelétrica. O que está em curso em Foz do Iguaçu é a construção de uma plataforma binacional voltada à diversificação da matriz energética, à inovação industrial e ao desenvolvimento de tecnologias limpas com potencial de escala.
No caso específico da energia solar flutuante, os desafios ainda são grandes e os estudos seguem em fase inicial. Mas o simples fato de que uma pequena fração do reservatório possa, em tese, adicionar capacidade comparável à de uma nova Itaipu reposiciona a discussão energética em outro patamar. Em um momento em que o mundo busca alternativas mais sustentáveis, a binacional se transforma também em um campo estratégico de pesquisa para o futuro da transição energética na América do Sul.


