Terra Yanomami ganha unidades para a soberania alimentar
Unidades terão sistema de criação de peixes, viveiro, roça, aviário e formação de indígenas para manejo aquícola
247 - O silêncio que hoje predomina na comunidade de Sikamabiu, no Baixo Mucajaí, contrasta com o passado recente marcado pelo ruído constante de dragas e motores do garimpo ilegal. Após a retirada dos invasores da Terra Indígena Yanomami por agentes federais, a área começou a ser transformada em um espaço de produção sustentável de alimentos. É nesse território, onde vivem cerca de 30 famílias — quase 400 indígenas —, que o governo do Brasil inicia a implantação de unidades demonstrativas de soberania alimentar, integrando recuperação ambiental, geração de alimentos saudáveis e fortalecimento da autonomia das comunidades tradicionais.
A primeira dessas unidades será inaugurada nesta segunda-feira (2) e marca o início de um projeto que prevê a instalação de oito estruturas semelhantes ainda em 2026 em diferentes regiões da Terra Yanomami. A proposta combina práticas produtivas sustentáveis com respeito aos modos de vida indígenas, ao mesmo tempo em que recupera áreas degradadas pelo garimpo ilegal. Técnicos envolvidos destacam que a iniciativa representa um passo decisivo para a segurança alimentar e a reconstrução ambiental do território.
“O impacto desta ação é muito grande. A unidade modelo é um marco dentro do território. Onde já corremos o risco de levar tiro de garimpeiro, levamos estrutura e ferramentas para a conquista da soberania alimentar”, afirmou a pesquisadora da Embrapa Roraima Rosemary Vilaça, que atua na região desde 2022 e integra a coordenação do projeto.
A unidade de Sikamabiu reúne diferentes módulos produtivos: um aviário com 100 galinhas rústicas; um viveiro de mudas nativas com capacidade para 2 mil plantas, incluindo espécies como açaí e cacau; tanque de compostagem para produção de adubo natural; roças destinadas ao cultivo de mandioca, batata, arroz e outras culturas; além de Sistemas Agroflorestais (SAFs), voltados à restauração das áreas impactadas pelo garimpo e à multiplicação de sementes tradicionais. O conjunto inclui ainda um tanque escavado de piscicultura com 440 metros quadrados.
No eixo da criação de peixes, dois açudes antes utilizados na extração ilegal de ouro foram incorporados ao sistema produtivo. Segundo Rosemary Vilaça, foram realizados testes ambientais antes do uso. “Claro que fizemos os testes nesses açudes para garantir que não estão contaminados. Nas checagens, não se observou a presença de mercúrio”, explicou. Somados ao tanque escavado, esses reservatórios abrigam atualmente 4 mil alevinos.
A implantação da unidade resulta de uma articulação interinstitucional. O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) destinou R$ 90 mil para a estrutura de Sikamabiu, dentro de um Termo de Execução Descentralizada com a Embrapa Roraima que totaliza R$ 1,8 milhão. A Funai atua no apoio logístico e na articulação com a comunidade, enquanto o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Roraima (IFRR) contribui com a formação técnica no território.
O projeto prevê a criação de outras sete unidades demonstrativas ainda neste ano, alcançando 18 comunidades yanomami nas regiões de Surucucu, Homoxi, Xitei, Lasasi, Ajarani, Olomai e Uxiu. Técnicos da Embrapa informam que ao menos outras 11 comunidades já manifestaram interesse em receber a iniciativa. A Terra Indígena Yanomami, com 9,6 milhões de hectares, é a maior do país e abriga cerca de 31 mil indígenas.
Além das estruturas já implantadas, Sikamabiu recebeu dez tanques elevados para piscicultura, com mais 4 mil alevinos de tambaqui, destinados ao consumo da própria comunidade. A ação é coordenada pelo Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), em parceria com o IFRR, e inclui a capacitação de indígenas para o manejo dos sistemas. Ao todo, 34 moradores foram formados como agentes locais, responsáveis pela criação dos peixes e pela multiplicação do conhecimento.
De acordo com a secretária nacional de Aquicultura do MPA, Fernanda Gomes de Paula, o período mínimo para a retirada segura dos peixes é de três meses. “Os indígenas serão os responsáveis pela criação, por isso a parceria com o IFRR, que os prepara tecnicamente para o trabalho. Essa capacitação ocorre dentro do próprio território, assim estamos dando autonomia para essas comunidades”, destacou.
A iniciativa do MPA será ampliada para outros pontos da Terra Yanomami. Segundo o coordenador de sustentabilidade na Aquicultura, Alberto Furtado, 14 polos receberão tanques, alevinos e capacitação, com recursos já previstos em um TED de R$ 12 milhões. Somadas as ações do MDS e do MPA, a comunidade de Sikamabiu contará com 8 mil alevinos. A estimativa é que a produção de proteína animal — entre peixes e aves — alcance cerca de uma tonelada até o fim de 2026.
Todas essas ações integram o Plano de Ação para o Desenvolvimento Sustentável da Terra Indígena Yanomami, coordenado pela Funai. Segundo a fundação, o objetivo é promover o bem viver dos povos Yanomami e Ye’kwana por meio de políticas articuladas entre diferentes órgãos federais.
A inauguração da unidade contará com a presença do ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias, da presidenta da Funai, Joênia Wapichana, da diretora substituta da Casa de Governo, Cleide de Souza, da secretária nacional de Aquicultura, Fernanda de Paula, além de outras autoridades. A agenda oficial inclui ainda entregas de outros ministérios em Roraima, como a inauguração do Centro de Referência em Direitos Humanos Yanomami e Ye’kwana, em Boa Vista, pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.


