A trajetória de Gabrielly e a transformação social promovida pelo Bolsa Família
Estudante da UnB relata como o benefício ajudou sua família a romper o ciclo da pobreza e conquistar autonomia financeira
247 - A estudante Gabrielly Gomes, de 19 anos, integra a primeira geração de filhos de beneficiários do Bolsa Família que conseguiu alcançar independência financeira e acesso ao ensino superior. Moradora de Santa Maria, no Distrito Federal, ela cursa Gestão de Políticas Públicas na Universidade de Brasília (UnB).
Segundo o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, Gabrielly, caçula de seis filhos, cresceu em uma família que enfrentava dificuldades financeiras. O pai, Vilmar Manoel Gomes, trabalhava como marceneiro autônomo e contou com o Bolsa Família a partir de 2003 para complementar a renda da casa.
"Eu sempre trabalhei como autônomo e, você sabe, dessa forma um mês tem, outro mês não tem. Realmente as condições não eram favoráveis para a gente. Com criança a despesa é grande, e eu tinha filhos pequenos. Então para mim foi muito bom, me ajudou muito. Sou muito grato", afirmou o pai de Gabrielly.
O benefício permaneceu com a família até cerca de 2012, quando os filhos mais velhos passaram a trabalhar e a renda da casa melhorou. A mãe de Gabrielly, Clevia Natanael Gomes, também conseguiu trabalhar fora após os filhos crescerem.
"Com condições melhores, eu não necessitei mais. Fiquei feliz porque me ajudou na hora em que eu precisava e essa ajuda já passou para outra pessoa, que realmente estava precisando mais do que eu", disse Vilmar.
Clevia também relembrou o período em que recebia o benefício. "Eu estava sempre ajudando em casa como dava, cuidando dos meninos, levando na escola, quando precisava, levava também no posto de saúde. E às vezes eu pensava como seria se ficássemos sem [o Bolsa Família], mas deu tudo certo", declarou.
Pesquisa aponta saída do Cadastro Único
Segundo a pesquisa "Mobilidade Social no Brasil: uma análise da primeira geração de beneficiários do Programa Bolsa Família", divulgada em 2023, grande parte das crianças e adolescentes atendidos pelo programa em 2005 deixou o Cadastro Único e ingressou no mercado formal de trabalho.
O estudo foi realizado por pesquisadores do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS), do Oppen Social, da Fundação Getulio Vargas (FGV) e da Università Bocconi. Em 2005, cerca de 11,6 milhões de beneficiários tinham entre sete e 16 anos. Em 2019, apenas 2,37 milhões dessas pessoas permaneciam no programa, enquanto aproximadamente 7,45 milhões haviam deixado o Cadastro Único.
Escolha profissional
Gabrielly afirma que a experiência da própria família influenciou sua escolha profissional. "Eu sempre entendi o que os programas sociais significavam para as pessoas que precisam, que estavam nas mazelas, assim como eu e minha família. E, desde então, eu sabia que queria trabalhar e atuar na área de políticas sociais", disse.
Ela também relaciona a trajetória familiar à decisão de estudar políticas públicas. "O que eu passei com os meus pais influenciou muito na forma como eu vi as políticas sociais. Eu fui beneficiária, por que não atuar nessa área e ajudar outras pessoas?", acrescentou.
Condicionalidades acompanharam trajetória
Durante o período em que recebeu o benefício, a família precisava cumprir as exigências previstas pelo programa, como acompanhamento de saúde e frequência escolar. Gabrielly recorda as visitas ao posto de saúde e o controle da presença nas aulas.
"Eu lembro da gente, frequentemente, ir ao posto de saúde para fazer a pesagem, acompanhar. Também tinha a frequência escolar. E sei que, antes de eu nascer, meus irmãos eram presentes nessa trajetória de acompanhar a vacinação, todas essas questões muito importantes", afirmou.
Na educação, o programa exige matrícula e frequência regular de estudantes entre quatro e 17 anos. Na saúde, crianças menores de sete anos precisam manter a vacinação em dia e realizar acompanhamento nutricional, enquanto gestantes devem cumprir o pré-natal.
Gabrielly também lembra que outras famílias do bairro em Santo Antônio do Descoberto, em Goiás, eram beneficiárias do Bolsa Família. Segundo ela, muitos amigos da infância também conseguiram chegar à universidade. "É muito marcante não só para mim, mas para eles também, lembrar dessa virada de chave que nós conseguimos dar com a nossa família", declarou.



